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A redução fenomenológica

  • Junho 3, 2022
  • História
  • José Rogério Licks

Saio da estação ferroviária e me toco para o ponto do ônibus, que me levará a Mainz. Caminho acionando os recursos do Zen e controlando os pensamentos – quando eles se desatam e me ponho a discursar mentalmente, vem a tontura, é batata. Mas de repente toda a minha parafernália meditativa é abolida por um fenômeno (aquilo que aparece ou se manifesta): sobre um muro baixo à minha esquerda, meus olhos visualizam o que parece ser uma capa de violão.

Me aproximo e leio, num pequeno cartão: „Cellohülle, zum mitnehmen“. Isto é: „capa de violoncelo, para levar“.

(Algo muito comum na  Alemanha: as pessoas quando atingem certa idade começam a se desfazer de coisas. E as colocam na rua, para quem quiser levar.) Acontece que levo na bolsa um livro sobre Fenomenologia, que andei lendo nas últimas horas.

 

Enquanto a ciência positivista restringe seu campo de análise ao experimental, a fenomenologia de Husserl propõe a „análise compreensiva da consciência „. Isso porque todas as vivências se dão na e pela consciência. Edmund Husserl trouxe para a filosofia o conceito de Intencionalidade, com sua célebre definição: „Toda consciência é consciência de algo“. A consciência é sempre consciência de alguma coisa. Ela só é consciência estando dirigida a um objeto. Por sua vez o objeto só pode ser definido em sua relação com a consciência, ele é sempre objeto-para-um-sujeito.

 

Nesse contexto, o Noema seria o aspecto objetivo da vivência, p. ex.: capa de cello na sombra, iluminada pela lâmpada. Em troca, Noese é o aspecto subjetivo da vivência, constituído por todos os atos de compreensão que visam apreender o objeto, como perceber, lembrar, imaginar, etc.  Para Husserl, é no nível da consciência que o mundo se nos apresenta, e é neste campo que o filósofo deve se concentrar. O método husserliano é uma proposta para encarar o mundo como se fosse pela primeira vez, sem a sedimentação conceitual que acumulamos ao longo da vida, que „obscurece“ nosso modo de apreender as coisas do mundo.

 

Suspendo a atitude natural, que seria ver ali só um objeto de produto sintético, usado para proteger um violoncelo (sem negar essa intuição ) e permito que a consciência se abra para todas as apreensões possíveis produzidas por aquela aparição. Enveredar por essa abertura dos portos da consciência tem a ver com o que Husserl chamou de epoché ou redução fenomenológica.

 

Essa capa de violoncelo diante de mim pode ser apreendida sob diversas variações de enfoque, e aquilo que se mantém em todos os casos constitue a essência do objeto. A „variação eidética“ é o processo de imaginar todas as variantes possíveis do objeto em questão, a fim de determinar sua essência (eidos). A fenomenologia ao invés de igualar um objeto físico a um suposto fundamento ou substrato, iguala o objeto a todas as suas aparências, atuais e possíveis (“horizontes”, seg. Husserl)

 

Ao divisar o objeto, minha consciência, ajudada por uma visão imperfeita, viu ali uma capa de violão. Mas depois de ler, ergui a capa e vi que realmente tinha o corpo volumoso e o pescoço curto. Isso remeteu minha consciência à crônica „Uma mulher chamada guitarra“, de Vinicius de Moraes, em que ele compara as diferentes formas dos instrumentos de corda. Foi um flashback curto, retomando meu caminhar, e logo foi escanteado por uma reflexão: se parto para uma atitude fenomenológica, e olho o objeto sob diversos ângulos, o que é que permanece inalterado? Em qualquer posição, é sempre um envoltório sintético de proteção de um violoncelo. Ou seja, da essência desse objeto faz parte um outro objeto, que não está materialmente presente. Além disso, é uma capa de violoncelo que foi colocada na intempérie, portando consigo a esperança de que alguém a levasse. Ou seja, essa “Cello-Hülle” leva consigo a ideia de um instrumento e também a tentativa de fazer dele um presente para alguém desconhecido…

 

Acontece que, ao ativar a ideia desse instrumento, a minha consciência saltou para uma cena do passado, em que o poeta Thiago de Mello me revelou que Heitor Villa-Lobos não conseguiria tocar uma única das suas composições para o violão. E me relatou o episódio em Paris, num concerto de Andres Segovia, em que o brasileiro quis mostrar uma música sua ao grande mestre espanhol. Com o violão de Segovia – que desde sua morte está exposto num famoso museu de Nova York -, ele puxava as cordas selvagemente, como se fosse arrancá-las, deixando o dono do instrumento em pânico.

Isso me chocou, pois o „Índio de Casaca „ é autor consagrado em todo o mundo, de músicas para o violão .

Segundo o poeta amazonense, o instrumento que Villa-Lobos melhor tocava era o violoncelo. Bem, eu sigo caminhando e tenho de concordar lá atrás com Thiago. Realmente, faz sentido o que ele diz, pois tanto nos „Prelúdios“ como nos „Doze Estudos „ predomina uma sonoridade escura e pastosa, própria do cello. E a Bachiana N°5, sua obra mais famosa, foi escrita originalmente para 8 violoncelos e uma soprano…

 

Sigo caminhando e constato: a essência daquela coisa de tecido sintético que me surgiu no caminho inclue necessariamente a ideia de um violoncelo. Mas a ideia de um violoncelo inclue a sonoridade que esse instrumento produz. E essa sonoridade inclue a memória das vivências que a mesma propiciou. E a memória das vivências…

Nesse ponto o potro selvagem das lembranças desatadas me sacudiu do seu lombo. Bateu uma tontura forte e tive que me apoiar em uma árvore. Enquanto me segurava, fui desistindo daquela „atitude fenomenológica“, desativando um após outro todos os conteúdos disparados pela memória e pelos sentidos musicais. Mas quando finalmente consegui restaurar o vazio interior e o equilíbrio físico, apareceu ainda um último “horizonte” daquela capa de tecido plástico.

 

Era a lembrança de um som escuro de violoncelo, que lentamente subia de volume e de frequência, naquele meio-dia, atravessando o silêncio luminoso do céu de Santiago, cruzando sobre nossos telhados até culminar num estrondo violento, da primeira bomba que o  avião lançou sobre o palácio do governo…

 

Perscrutar como uma coisa do mundo se apresenta à consciência, no sentido de captar sua essência, nem sempre traz prazer… Por sorte tinha chegado na parada, entrei no ônibus e pensei em outra coisa.

 

 

 

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