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Medalhões

  • Julho 8, 2022
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Existem pessoas que pensam que nascer pobre é apenas uma contingência, mas morrer pobre é testemunho de burrice. Há casos de moças que se unem a tipos asquerosos por conta de suas posses. Soube de uma que amasiou-se a um tipo que além de nojento era bandido. Aproveitou o que pôde, mas  num belo dia teve de trancar-se numa peça da casa para não apanhar. No lado de fora um apoplético bobalhão, que até então julgava-se um Don Juan, empunhava um revólver e até efetuou alguns disparos para o alto.

Parece pouco discutível a condição de Machado de Assis como o maior escritor brasileiro de todos os tempos. Seus textos são criativos, eivados de humor. Tivemos outros de bom nível, mas a qualidade e a extensão da obra machadiana são atributos que o colocam em outro patamar literário, como um Pelé das letras.

Seu conto “Teoria do medalhão” é primoroso, desenhando um pai a ensinar ao filho, recém entrado em vinte anos, a arte da mediocridade na busca do sucesso social: “Proíbo-te que chegues a outras conclusões que não sejam as já achadas por outros. Foge a tudo que possa cheirar a reflexão, originalidade, etc., etc.”

Em “A Herança”, Guy de Maupassant dá vida a um cretino que sepulta qualquer veleidade do amor para construir um futuro em segurança. Sacrifica o coração em prol do bolso, que porém só será forrado pela herança de uma tia de sua esposa se a união gerar um filho. O martírio do protagonista decorre da relação que se mostra infértil. Parecia tão fácil: um rebento, natural consequência  conjugal, teima em não vir ao mundo, colocando o ambicioso face a face com o resultado de suas escolhas.

Em décadas vividas, conheci pessoas capazes de sacrificar suas existências em prol de benefícios esparsos e incertos. Uma delas foi hors-concours. Paulista, com certos ares do “Amigo da Onça”, de Péricles, desposaria a primogênita de um advogado. Antes mesmo de casar, não raro desancava a moça, que reputava meio palerma. Perdia a noção do perigo quando o álcool soltava sua língua. E não precisava muito. Sua venda de alma queimava no peito como limão em ferimento. A fulana é mais devagar que uma tartaruga, disse à mesa de tios da noiva, que constrangidos anteviram o erro daquele namoro farsesco.

O casamento do “Amigo da Onça” teria permanentes pinceladas de infidelidade, como válvula de escape para a deplorável situação de um matrimônio por interesse. Em algo haveria de agarrar-se para resistir à falta de amor. Em seu jeito imoral, valia-se de outras artimanhas para ascender. Costumava convidar o chefe de ocasião, ao qual prestava vassalagem, para almoçar na casa do sogro. Porque além de cínico era avesso à vida perdulária. Economizar tostões era tão prazeroso quanto depositar moedas no cofre do tempo.

Aqueles almoços, regados a risos e álcool, eram verdadeiros degraus em sua carreira profissional, compondo a escada para o sucesso. De fato assumiu postos que sua inapetência para o trabalho jamais justificou. Sua bíblia bem que poderia ser o conto de Machado: “A vida, Janjão, é uma enorme loteria; os prêmios são poucos, os malogrados inúmeros, e com os suspiros de uma geração é que se amassam as esperanças de outra. Isto é a vida; não há planger, nem imprecar, mas aceitar as coisas integralmente, com seus ônus e percalços, glórias e desdouros, e ir por diante.”

Meio saído das páginas para a vida, este sujeito invejou cada cidadão que com ele cruzou e a quem julgou feliz. Sobretudo na vida conjugal, cuja pureza abdicara em prol do conforto  cotidiano. Quão insuportável lhe era aproximar-se de parentes e amigos que se mostrassem felizes de fato, em paz com suas existências …

Quão penoso era conviver socialmente com pessoas que sabiam amar de todo o coração? Qualquer casal feliz espezinhava sua escolha de casar com uma moça que, se não desprezava, tampouco amava. Por certo não há dinheiro no mundo que possa remunerar tal desatino.

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