Skip to content

Anticristo

  • Novembro 3, 2022
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Confesso que às vezes me ponho a ler coisas desagradáveis, difíceis de engolir. E o faço para conhecer opiniões diversas, assim como vez por outra polemizo com amigos para olhar a cena por outro ângulo. Por vezes reforço convicções, mudo alguma opinião ou robusteço a musculatura dos meus argumentos. Naturalmente isto ocasiona algum desgaste e por vezes pode revelar a fragilidade de uma amizade que imaginava indestrutível. Faz parte.

Já escutei alguns jovens citando uma ou outra frase de Nietzsche, como se conhecessem sua obra. Como a grande maioria nunca leu sequer um livro deste alemão, trata-se de um recurso pobre, na busca de autoridade, com o objetivo de acuar o interlocutor. Uma tentativa de ganhar no grito sem elevar a voz. Também conheci adultos que lançavam mão do mesmo expediente e revelo que fiquei constrangido por eles.

Já comentei algures a forte impressão que me causara a obra “Um breve conto sobre o Anticristo”, de Vladimir Soloviev. Li numa madrugada, que avançava em direção à aurora enquanto volta e meia me arrepiava. Soloviev prognostica uma eventual apostasia, concretizada pela sedução de uma figura messiânica. Algo próximo de tomar a barca para o inferno sob a crença de ter tomado assento na espaçonave que nos levará ao Éden.

Num mundo que não sabe mais o que é santidade, um enganador aparece, logrando sucesso com suas mentiras, seduzindo e enganando até mesmo os crentes. Eleito sem votação, é proclamado soberano do mundo e lança um manifesto: “Povos da terra! As promessas se cumpriram! A paz eterna e universal foi consolidada. Qualquer intento de perturbá-la agora encontrará uma insuperável oposição, porque de agora em diante se estabelece no mundo um poder central mais forte que qualquer outro, seja individual ou coletivo. Este poder invencível, e capaz de tudo conquistar, pertence a mim, eleito Imperador da Europa e comandante de todas suas forças. O direito internacional estabeleceu, finalmente, as sanções ausentes por tanto tempo. De agora em diante nenhum país se atreverá a dizer: guerra, quando eu digo: paz! Povos da terra: a paz esteja convosco”. Tal absurdo seria possível porque Deus, ao conceder a liberdade aos homens, permite “que creiam na mentira”.

Eis que tropeço em “O Anticristo”, de Nietzsche, e decido lê-lo, por conta da influência que o autor tem sobre a juventude, que não o lê e, se o faz, não tem o filtro para delimitar sua influência. Como antecipei, leitura indigesta mas, quem sabe, pedagógica.

De pronto Nietzsche se coloca entre os hiperbóreos, povo mítico que habita o norte da Europa, livre de doenças e guerras, que leva uma vida sem deuses, perfeita. Um povo feliz, que é feliz e encontrou “a saída de milénios inteiros de labirinto”. Convenhamos que é uma presunção e tanto, a partir da qual ele passa a disparar em tudo e todos: “Os Judeus são … o povo mais funesto da História Universal: no seu efeito ulterior, de tal modo falsearam a Humanidade que ainda hoje o cristão se pode sentir anti-judeu, sem a si mesmo se compreender como a última consequência do judaísmo”.

Do início ao fim Nietzsche dispara no Cristianismo. Como Deus pode ter admitido o sacrifício de seu Filho? A resposta lhe parece absurda. Deus entregou o seu Filho como sacrifício para remissão dos pecados: “Como de súbito se acabou o Evangelho! O sacrifício expiatório, e claro está, na sua forma mais repulsiva, mais bárbara, o sacrifício do inocente pelo pecado dos culpados! Que paganismo horroroso!”.

Sarcástico, sugere que o “Deus antigo, inteiramente «espírito», inteiramente sumo-sacerdote, plena perfeição, passeia aprazivelmente no seu jardim” mas se aborrece, porquanto “Também os deuses lutam em vão contra o tédio. Que faz ele? Inventa o homem – o homem distrai… Mas eis que também o homem se aborrece”. Deus então criou outros animais, mas o homem não os achou divertidos e sequer quis ser um deles. “Deus criou, então, a mulher. E, efectivamente, cessou o tédio, mas também ainda muitas outras coisas! A mulher foi o segundo erro de Deus. 

«A mulher é, por essência, uma serpente, Eva». Todo o sacerdote sabe isto; «pela mulher vem todo o mal ao mundo» – também isto o sabe todo o sacerdote. «Logo, a ciência também vem dela»… Foi só pela mulher que o homem aprendeu a saborear a árvore do conhecimento. Que aconteceu? Um pânico de morte se apoderou do Deus antigo. O próprio homem tornara-se o seu maior erro, ele criara um rival, a ciência iguala a Deus: se o homem se torna científico, é o fim dos sacerdotes e dos deuses! Moral: a ciência é a interdição em si, só ela é proibida. A ciência é o primeiro pecado, o germe de todos os pecados, o pecado original. Eis a única moral”. Cá entre nós, quanta bobagem. Sem contar que sua menção às mulheres deveria alijá-las prontamente de seu fã clube. Ou não? Não necessariamente. Afinal, antes de tudo é preciso que o leiam.

Nietzsche prossegue afirmando que culpa, castigo e ordem moral foram invenções contra a ciência para manter o homem preso ao sacerdote: “O homem não deve olhar para fora de si, deve olhar para si mesmo; não deve olhar para as coisas com sagacidade e circunspecção, como aprendiz, não deve ver absolutamente nada: deve sofrer… E deve sofrer de maneira a precisar sempre do sacerdote. Fora com os médicos! Precisa-se é da salvação”.

O Cristianismo faz oposição à boa constituição intelectual e a razão cristã, doente, toma o partido de tudo o que é idiota. A fé e a caridade são apanágios dos fracos e “todos os caminhos direitos, legítimos, científicos, para o conhecimento devem ser repelidos pela Igreja como caminhos proibidos”.

Misturando alhos e bugalhos, sobra também para a esquerda: “A quem é que eu mais odeio na ralé de hoje? É à escumalha dos socialistas, aos apóstolos dos tchandala, que minam o instinto, o prazer, o sentimento de moderação do trabalhador com o seu pequeno ser – que o tornam invejoso, que lhe ensinam a vingança… A injustiça jamais reside em direitos desiguais, encontra-se na pretensão aos «direitos iguais»… O que é mau? Mas eu já o disse: tudo o que brota da fraqueza, da inveja, da vingança”. Creio que os esquerdistas que o leram também devem ter rasgado seu carnê de nietzscheniano …

Ainda que a Igreja Católica seja o alvo maior, Nietzsche também dispara para os cismáticos: “Os alemães têm também na consciência a menos limpa espécie de Cristianismo que existir pode, a mais incurável, a mais irrefutável, o Protestantismo… Se não se acabar com o Cristianismo, os Alemães é que terão a culpa...”.

Por fim, reitera sua convicção: “Condeno o Cristianismo, lanço contra a Igreja a mais temível de todas as acusações que, alguma vez, um acusador pronunciou. Ela é a maior de todas as corrupções que pensar se podem, teve também a vontade para a derradeira corrupção apenas possível. A Igreja cristã nada deixou intocado pela sua corrupção, fez de cada valor um não-valor, de cada verdade uma mentira, de toda a probidade uma vilania das almas”.

Conclui sua obra com o que denomina “Lei contra o Cristianismo”, com sete artigos, que encerram sua catilinária e não os reproduzo porque seria como semear erva daninha.

E dizer que sua pregação encontra guarida em solo cristão … É preciso ler os contrários, não só como bagagem cultural, mas para opor-lhes o bom combate.

Em tempo: seu pai, que perdeu aos cinco anos, era pastor luterano. Mais que isto, provinha de uma linhagem de pastores. Sou tentado a vê-lo como um ressentido, um sujeito mal resolvido.

Morreu em Weimar, com problemas psíquicos. Parece ter levado à risca sua visão de que a vida “é uma irracionalidade cega e cruel, marcada por destruição e dor”. Por mais inventivo que tenha sido, não o colocaria como um farol na escuridão.

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9