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“Ser homem é precisamente ser responsável”

  • Novembro 28, 2022
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

 

Antoine de Saint-Exupéry

 

Este comprometimento humanista é o que nos ensina o escritor, poeta, aviador e repórter chamado Antoine de Saint-Exupéry, o qual nasceu em 1900, em Lyon, no sudeste de França, e desapareceu na costa de Marselha, ao sul, no ano de 1944, em serviço de reconhecimento aéreo para seu país em guerra. O autor nasce em uma família da nobreza, passa uma infância feliz, é educado em colégios jesuítas, e desde muito jovem demonstra tendência às aventuras e à composição de textos.

Logo após a conclusão do ensino médio, aos dezessete anos de idade, ele pensa no concurso para a Escola Naval, mas não é bem-sucedido, o que o faz orientar-se para o curso de Arquitetura. A seguir, esta tendência é interrompida quando seu serviço militar possibilita que ele se torne piloto; assim, Saint-Exupéry engaja-se como piloto de guerra, em 1922. Em 1926, ele será piloto da Companhia Aeropostal, para a qual ele transporta o correio do sul de France até o Senegal.

A seguir e a partir de 1929, o piloto-escritor percorre – e demarca – alguns dos primeiros voos de Europa até América do Sul, onde virá a conhecer inclusive a cidade de Porto Alegre. Ele nunca abandona a literatura e, conjuntamente a seus arroubos aéreos, continua escrevendo e é reconhecido como um renomado escritor. Como tal, ele publica seus primeiros romances contando suas experiências de aviador: “Correio Sul”, de 1929 e principalmente “Voo Noturno”, de 1931, sendo que este torna-se um grande sucesso e o autor recebe o importante prêmio Femina de seu país.

O autor escreveu aproximadamente trinta obras, compostas de relatos de viagens, de notas de guerra e de criações ficcionais, sendo publicadas durante sua vida ou aquelas que o foram postumamente. A partir de 1932, Saint-Exupéry dedica-se ao jornalismo e às incursões aéreas: realiza grandes reportagens na Indochina de 1934 (atualmente, Vietnã), o mesmo em Moscou, em 1935, e em Espanha no ano de 1936. Todas essas viagens tornam-se terrenos de observação apurada por parte do autor e nutrem sua reflexão sobre os valores humanistas.

Como consequência, resulta a obra “Terra dos Homens”, publicada em 1939, a qual recebe o ‘grande prêmio de romance’ da Academia francesa. Ainda em 1939, o autor serve na Força Aérea, sendo designado para um esquadrão de reconhecimento aéreo. Após o armistício de 1940, Saint-Exupéry viaja da França para os Estados Unidos, com o objetivo de fazer este país Americano infiltrar-se na guerra, e então ele torna-se uma das vozes da Resistência francesa.

O autor sonha com a ação e finalmente, em 1944, ele consegue participar das unidades de reconhecimento na Sardenha e na Córsega. Saint-Exupéry desaparece no mar com seu avião, em 31 de julho de 1944, e é declarado “morto pela França”. Somente quase sessenta anos depois, em setembro de 2003, seu avião foi encontrado e oficialmente identificado, no mar de Marselha. Para o que serve todo este histórico de um autor? Resposta: porque este escritor criou uma ficção muito sensível e muito “humanista”, talvez a maior de todas, neste sentido, e ainda por cima, no meio da Segunda Guerra mundial, também porque esta sua obra é considerada como um dos cinco livros mais lidos de nossa civilização, ou dito de outra forma: traduzida para 160 línguas e dialetos, constitui um dos maiores sucessos de vendas de todos os tempos.

Falamos de “O Pequeno Príncipe”, ilustrado pelas aquarelas do próprio autor-pintor, publicado inicialmente em Nova York, em 1943, e depois editado a título póstumo pela Gallimard, empresa francesa de difusão literária. Este conto filosófico e poético, repleto de leveza e ao mesmo tempo de um certo pessimismo frente à natureza humana, transforma-se em um imenso sucesso mundial; ele é um livro para crianças e igualmente para adultos; cada um pode recebê-lo de uma ou de outra forma, segundo sua compreensão e vivência do mundo.

A história evoca temas universais como o amor, a amizade, o sentido da vida e a natureza humana; realiza uma crítica à civilização moderna que leva à perda dos valores mais essenciais do ser humano; defende que a sabedoria das crianças pode servir como guia para a vida adulta; os adultos são sérios, não conseguem desfrutar da vida porque não sabem o que é verdadeiramente importante, o essencial não é percebido porque é invisível.

Em resumo, a história começa com o avião do narrador sofrendo uma queda no deserto do Saara; ele conta apenas com um reduzido estoque de água e comida e seu avião foi gravemente danificado pela queda; em meio a essa situação, o narrador é abordado por um pequeno menino loiro, muto sério, o Pequeno Príncipe, que lhe pede para desenhar uma ovelha.

O narrador atende a seu pedido e os dois se tornam amigos; o piloto descobre que o Pequeno Príncipe vem de um asteroide, o menino lhe conta sobre o cuidado permanente com seu pequeno planeta, sobretudo em evitar o crescimento dos baobás, árvores enormes que podem provocar a destruição de sua terra natal. Ele relata ao piloto seu amigo que um dia, uma rosa surgiu misteriosamente em seu planeta e que ele se apaixonou por ela, mas após pegá-la em uma mentira, resolveu que jamais voltaria a crer em suas palavras. Ele sentiu- se solitário e resolveu partir, embora ambos, o menino e a rosa tenham se reconciliado no último instante, o Pequeno Príncipe seguiu seu propósito de sair a explorar outros planetas.

Durante a jornada, nos conta o narrador, o Pequeno Príncipe passa pelos asteroides vizinhos e pela primeira vez se depara com o estranho mundo dos adultos. Nos seis planetas visitados, ele conhece um rei, um homem vaidoso, um bêbado, um homem de negócios, um acendedor de lampiões e um geógrafo; os seis levam uma vida solitária, consumidos pelas obrigações que eles próprios se impuseram. Tais comportamentos perturbam o menino, já que ele não consegue compreender as necessidades de comandar os outros, ou de ser admirado, ou de tudo possuir.

Uma exceção desses personagens é o acendedor de lampiões, cuja obstinada dedicação desperta admiração por parte do pequeno viajante. O geógrafo explica ao Pequeno Príncipe que as flores não duram para sempre, o que faz aflorar sua saudade da rosa deixada para trás. É seguindo uma sugestão do geógrafo que o menino chega ao planeta Terra, mas ele aterrissa no meio do deserto, onde não encontra nenhum humano. Logo se depara com uma serpente, que lhe fala através de enigmas e afirma ser seu mortal veneno capaz de levá-lo de volta aos céus, caso assim ele deseje.

O Pequeno Príncipe ignora a oferta e segue sua expedição, parando para escalar o mais alto monte que encontra, onde confunde o eco de sua própria voz com uma conversa. A descoberta de um jardim de rosas o surpreende e decepciona, já que sua rosa lhe havia dito que ela era única. Então, o misterioso viajante torna-se amigo de uma raposa, a qual lhe passa as seguintes lições: as coisas realmente importantes só podem ser vistas através do coração, e o tempo e a dedicação dispensados à sua rosa a tornaram especial para ele; o amor implica a responsabilidade perante o ser amado.

Já no oitavo dia do piloto no deserto, ele e o Pequeno Príncipe encontram um poço: a água refresca e nutre seus corações mais do que seus corpos. No entanto, a mente do Príncipe está completamente fixada em voltar para sua rosa, e ele começa a fazer planos com a serpente. O narrador consegue consertar seu avião um dia antes de o jovem completar seu primeiro ano na Terra. Os dois amigos caminham tristemente rumo ao local onde o Príncipe aterrissou em sua chegada; lá, a serpente morde o Pequeno Príncipe, o qual tomba imóvel, na areia.

No dia seguinte, o narrador não encontra o corpo do viajante no solo arenoso, o que o leva a acreditar que ele tenha retornado a seu asteroide. Muitos de nós, leitores deste texto – a maioria, imagino – conhecemos este conto de Saint-Exupéry; desnecessário, portanto, salientarmos a simbologia dos elementos ou as opiniões que aí estão presentes.

Atrevo-me a afirmar que todos nós já nos permitimos ser conduzidos nesta reflexão filosófica apresentada por este Menino a nós. Esta volta à infância nos é tão benéfica! Diz a Raposa: “A gente só conhece bem as coisas que cativou.” (Agora, eu continuo, modestamente.) Os adultos de circunspecção inquebrantável, de razão inexorável, de esperteza e artimanha excepcionais, estes, eles “Compram tudo já pronto nas lojas. Mas como não existem lojas de amigos, os homens não têm mais amigos. Se tu queres um amigo, cativa-me”!

Que bom quando um texto suscita esta revisão de valores! Se nem todos os elementos deste conto gentil (eu o prefiro assim, ao invés de confirmar ser um conto filosófico) – como dizia, se nem todas as palavras do senhor Saint-Exupéry são autobiográficas, não faz mal, tudo o que ele nos proporciona já nos basta para compormos nossa própria poesia pessoal. Obrigada, Antoine! (Merci, Antoine!).

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