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No Igarapé do Mindu

  • Fevereiro 17, 2023
  • Cultura
  • José Rogério Licks

 

Raimunda tinha picado a mula sem mais e eu estava ali sem abrir a boca, numa apatia adubada pelo cansaço.

Aí com um olhar diferente Iara me convidou para dormir em sua casa. Me disse que morava perto do Igarapé do Mindu, onde a gente pode tomar banho. Pra me interessar, Iara contou que na semana passada, quando acordou, foi na cozinha e tinha uma sucuri enorme entrando pela porta e rastejando para o banheiro.

Isso de fato me atiçou, fiquei logo mentalizando a casinha à beira d’água, entre árvores e plantas de todo tipo.           Entre pássaros, borboletas e outros bichos de toda espécie.

(Comparto a opinião de Spinoza, ele dizia que Deus e Natureza são sinônimos.)

A Natureza é o único reino da liberdade
Em sua grandeza
Viceja a seiva e também a sombra
De toda a verdade
Para falar da Natureza
Tem que ter a dignidade
E o olhar puro e livre
Que só quem é mestre possui

Estava ali com Iara e, na falta de ideia melhor, sugeri da gente ir comprar um sorvete de cupuaçu. Ela disse agora não e eu me manquei, estava atrapalhando seu trabalho. Combinamos nos encontrar às dez e meia da noite e me mandei.

Na rua Silva Ramos entrei num cinema, estavam dando um faroeste moderno.

A música joia, na saída fiquei assobiando pra não esquecer, raindrops keep falling on my head… Uma história que termina com a morte dos pistoleiros na Bolívia, pode ser verídica.

Já o cinema, era uma espelunca tenebrosa, como nunca vi igual.

Piso de madeira escangalhado, cadeiras idem. Enxames de carapanãs. Logo no começo um senhor rato passou rente à parede  pela direita. E os morcegos cortavam o ar guinchando estridentes…

Iara me levou ao Banho da dona Dirce, também conhecido como Pedreiras.

Tem uma cascata belíssima que faz o igarapé, com uns 30 metros de queda d’água criando lindos arco-íris até atingir o solo. Se chega lá por um longo “caminho de onça”, maravilha pura.

Em sua casinha ela perdeu a melancolia. Soltou a língua, não parou de falar.

Ela caiu na vida bem menina-moça. Morou quatro anos na pensão da madame Inácia, lá ela aprendeu tudo. Mas tinha que ficar sempre até altas horas da madrugada atendendo os fregueses.

Ela se beliscava pra não cochilar, porque se não, tinha multa e castigo. Aí não aguentou mais e deu o pira.
Dona Inácia cortava a pontinha de uma banana e depois ia abrindo só com a língua, ela tinha uma língua enorme…

Na manhã do dia seguinte apareceu o seu Phelipe, pai dela. Velhinho, sofre de diabetes e outros males, se vê que está mais pra lá do que pra cá. Mas gente fina e gosta dum bom papo.

Iara falou da sucuri indo pro banheiro e o seu Phelipe pôs-se a contar da sucuri que dormia com ele.

Ele morava com sua mulher – falecida pouco depois de Iara nascer – ali na casinha do igarapé, mas tinha um terreninho em outra parte, onde plantava e criava alguns animais, passava a maior parte do tempo lá. Quando dormia se chateava com o barulho dos ratos, no celeiro que tinha construído na parte de cima da casa.

Certo dia, quando caminhava até o igapó onde criava jacarés e pescava, encontrou uma pequena cobra, do tamanho da sua mão. Levou pra casa, passou a cuidar e alimentar o bicho, que passou a morar onde ele dormia.

Era uma sucuri, e com o tempo foi encompridando e engrossando. Enquanto isso o exército de ratos no celeiro não parava de aumentar. Até que um dia a cobra se enroscou no tronco e subiu, foi fazer uma visita no celeiro. Depois disso a população dos roedores foi minguando, a sucuri acabou com eles.

Às vezes ele estava encostado, distraído, e ela descia pelo tronco e vinha se enroscar nele. Nunca deu uma mordida ou fez qualquer mal. Andava sempre por ali, solta pela casa. Viveram sete anos juntos, ela já estava com a grossura de uma chaminé. Aí ele passou uma semana fora, quando voltou ela tinha sumido, nunca mais apareceu.

De volta na cidade, na minha frente um grande espelho devolve a minha principesca investidura: estou sentado no corredor do andar térreo do Theatro Amazonas, em uma daquelas cadeiras imperiais de espaldar alto.

Mas o que vejo no espelho não me deixa ilusões: príncipe das trevas, talvez…

O teatro é o lugar mais fresco desta cidade que é um forno úmido, uma sauna só.

Sobre os pilares estão os bustos de Racine e Beethoven. As máscaras de Mozart, Verdi e outros relembram glórias de tempo passados.

Mas hoje no palco estão levando algo bem diferente.

Este pessoal todo que vem entrando e logo lota o teatro é da seita dos pentecostais, ou evangélicos, crentes, se apresentam como: A Voz da Profecia. Tem muitas meninas, e vem vestidas de longas maxi-saias, abertas de lado deixando ver a perna até a altura do short debaixo, está na moda por aqui.

 

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