Skip to content

Profissão de fé

  • Maio 7, 2023
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

O que é a chamada “última flor do Lácio”? O que ela significa? Esta assim chamada “última flor” é a língua portuguesa, considerada a última das filhas do latim. Refere-se ao fato de a língua portuguesa ser a última língua neolatina formada a partir do latim vulgar, aquele falado pelos soldados da região italiana do Lácio. A propósito, hoje em dia, o território do Lácio reúne aproximadamente cinco milhões de habitantes, trata-se de uma extensão central e é uma das principais portas de entrada da Itália, estando ali localizada a capital Roma. Pois bem, a partir dessa “última flor do Lácio”, vamos nos dedicar a expor um pouco do talento de um grande escritor brasileiro, mesmo que ultimamente esteja um pouco relegado; falamos de Olavo Bilac, nascido no Rio de Janeiro, em 1865 e morto na mesma capital federal do país, em 1918.

Foi jornalista, poeta, inspetor de ensino e representante máximo do parnasianismo, escola literária surgida no Brasil no século XIX, na década de 80. Olavo cursou até o quarto ano da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, e em São Paulo, iniciou o curso de Direito, que também não concluiu. Daí em diante, dedicou-se ao jornalismo e à literatura, engajando-se em campanhas cívicas e na política, sendo, inclusive, o autor da letra do Hino à Bandeira. Entretanto, seu interesse pela política rendeu-lhe desafetos: em virtude da perseguição que sofria por parte do então presidente, o Marechal Floriano Peixoto – ao qual ele se opunha – escondeu-se em Minas Gerais e, quando regressou ao Rio de Janeiro, foi preso.

Mais adiante, em 1891, foi nomeado oficial da Secretaria do Interior do Estado do Rio; também foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897, tendo criado a cadeira de nº 15, cujo patrono é o escritor e poeta Gonçalves Dias. Posteriormente, em 1898, assumiu o cargo de inspetor escolar do Distrito Federal, do qual se aposentou pouco antes de falecer, em 28 de dezembro de 1918. O autor publica seu primeiro livro em 1888, intitulado “Poesias”; ao lado de nomes como Alberto de Oliveira e Raimundo Correia, Bilac defende veementemente a estética parnasiana, cujas principais preocupações são o formalismo, o culto ao estilo, a linguagem elaborada, o vocabulário rebuscado e hermético, suas referências à cultura greco-romana, sua preferência por estruturas fixas – como o soneto – e sua descrição visual bem detalhada; o autor é adepto dessa escola poética que cultiva a objetividade e a perfeição da forma, em reação ao lirismo dos românticos.

Ele foi o mais popular poeta parnasiano e também um dos autores mais lidos a sua época. Eleito “Príncipe dos Poetas Brasileiros” em um concurso literário, Bilac ainda hoje desperta o interesse de leitores, já que representa com maestria a estética do parnasianismo. Nas duas primeiras décadas do século XX, seus sonetos de chave de ouro eram decorados e declamados em toda parte, nos saraus e salões literários comuns na época. Bilac editou mais de vinte obras entre poemas, crônicas, textos teatrais e até literatura infantil. Destacamos “Poesias” (1888), “Crônicas e novelas” (1894), “Crítica e fantasia” (1904), “Conferências literárias” (1906), “Dicionário de rimas” (1913), “Tratado de versificação” (1910), “Ironia e piedade, crônicas” (1916), “Tarde”, (1919), “Poesia”, organização de Alceu Amoroso Lima (1957), e obras didáticas. Nas “Poesias” encontram-se os famosos sonetos de “Via Láctea” e a “Profissão de Fé”, na qual codificou o seu credo estético, que se distingue pelo culto do estilo, pela pureza da forma e da linguagem e pela simplicidade como resultado do lavor.

Considerado como sua obra-prima, “Profissão de fé” é um exercício de metalinguagem, o que significa que a linguagem ali utilizada serve para descrever a outra linguagem, a saber, agora, a da expressão poética que nos comunica a poesia. (…) Invejo o ourives quando escrevo: / Imito o amor / Com que ele, em ouro, o alto relevo / Faz de uma flor.  //  Imito-o. E, pois, nem de Carrara / A pedra firo: / O alvo cristal, a pedra rara, / O ônix prefiro.  //  Por isso, corre, por servir-me, / Sobre o papel / A pena, como em prata firme / Corre o cinzel.  //Corre; desenha, enfeita a imagem, / A ideia veste: / Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem / Azul-celeste.  //  Torce, aprimora, alteia, lima / A frase; e, enfim, / No verso de ouro engasta a rima, / Como um rubim.  //  Quero que a estrofe cristalina, / Dobrada ao jeito / Do ourives, saia da oficina / Sem um defeito:  //  E que o lavor do verso, acaso, / Por tão subtil, / Possa o lavor lembrar de um vaso / De Becerril. (…) O que lemos é a narrativa do autor que compara seu poema a uma joia preciosa, a qual deve ser burilada “sem um defeito” para que ela seja entregue ao leitor como uma “profissão de fé”, como o resultado do “trabalho de sua vida”. Quanto a “Via Láctea”, destacamos: “’Ora (direis) ouvir estrelas! Certo / Perdeste o senso!’ E eu vos direi, no entanto, / Que, para ouvi-las, muita vez desperto / E abro as janelas, pálido de espanto…  //  E conversamos toda / a noite, enquanto / A Via Láctea, como um pálio aberto, / Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, / Inda as procuro pelo céu deserto.  // Direis agora: “Tresloucado amigo! / Que conversas com elas? Que sentido / Tem o que dizem, quando estão contigo?”  // E eu vos direi: “Amai para entendê-las! / Pois só quem ama pode ter ouvido / Capaz de ouvir e de entender estrelas.”

Completamos ao afirmar que ao lado do poeta lírico há também, em Bilac, um poeta de tonalidade épica, de que é expressão o poema “O caçador de esmeraldas”, celebrando os feitos, a desilusão e a morte do bandeirante Fernão Dias Paes. Alguns anos mais tarde, os poetas parnasianos seriam o principal alvo do Modernismo. Apesar da reação modernista contra a sua poesia, Olavo Bilac tem lugar de destaque na literatura brasileira, como dos mais típicos e perfeitos dentro de sua arte. A grandeza de sua inteligência alastra-se a vários setores, ele foi igualmente um notável conferencista, numa época de moda das conferências no Rio de Janeiro, e também tradutor do francês e do alemão. Salve Olavo Bilac, esse grande talento brasileiro que – em uma época de carência humana – possibilitou-nos “ouvir estrelas”!

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9