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Um beatnik em Cuiabá

  • Julho 23, 2023
  • Cultura
  • José Rogério Licks

Chegando em Cuiabá, deixei minhas coisas num guarda volumes da rodoviária e saí a caminhar, dei um pulo na cidade universitária, no bairro Coxipó. É uma Universidade bem jovem, ainda não tem faculdades de Medicina, nem de Farmácia. Então não vou poder fazer os exames de saúde como planejei.

Alguém me falou da pensão da dona Elza, onde antigamente era o cabaré da Lurdinha. Esta foi a indicação que me deram. E estava certo, fui perguntando e encontrei, lá moram vários estudantes. Conversei com dona Elza, se me deixava ficar dormindo na varanda. Ela concordou e até me deu almoço. Mas logo depois apareceu um rapaz que mora ali, o Té. Ele me convidou para ficar no quarto dele. Em troca devo ensinar ele a tocar umas músicas do Caetano.

Caminhei muito por toda a cidade, tentando conseguir carona,  não consegui nada. Minhas sandálias estão se desfazendo. Entrei nas igrejas, para descansar e meditar um pouco. Especialmente na do seminário dos salesianos, com seus vitrais na fachada e sua porta azulada. Acho que vou desistir do meu plano de saltar via Corumbá, cruzando o Pantanal,  pelo rio Cuiabá.

Fui trocar dez dólares, que tinham permanecido intocáveis na mochila ao longo da viagem. E enquanto efetuávamos a transação o rádio do cambista tocava uma música que parecia feita para mim:

Amanhece, preciso ir,

Meu caminho é sem volta e sem ninguém

Eu vou pra onde a estrada levar…

Quando subia uma ladeira, no sól quente, um cara me acenou e gritou, do outro lado da rua:

– Ei, beatnik!

Ué, nunca ouvi ninguém me chamar desse jeito… Parei e fiquei esperando, o cara veio e me convidou para ir conversar num bar ali perto. Seu nome é Orlei, é técnico eletricista. Disse que morou 20 anos no Rio e também já  viajou de mochila, foi até os EE.UU. No bar ele mandou vir algo de comer e beber, e eu fui desencapando o violão. Quando me ouviu tocar o Round Midnight ele se transformou, e era como se fôssemos velhos amigos de infancia se reencontrando. Me disse que escreve versos e falou um poema dele. E ali estávamos, enxugando aquela cervejinha naquele bar. Aí ele me convidou prá ficar uns dias onde ele mora. Daí que estou aqui, deitado na rede, o Orlei foi trabalhar e eu fiquei olhando as poesias dele e fazendo arranjos no violão.

O Orlei tem uma estante com livros, Fernando Sabino, Cassiano Ricardo e outros. E ele lê em inglês, tem vários livros, um bastante manuseado do Jack Kerouac. Então vai ver que é verdade a história da viagem aos Estados Unidos. No fundo eu tinha duvidado: eletricista viajando de carona aos States? Preconceito meu.

Ontem quando ele abriu a porta, na volta do trabalho, eu gritei:

– Tudo bem Orlei, já deu prá ficar rico? Ele riu e me corrigiu, o nome é Arlei.

Tinha passado a tarde lendo o Kerouac, mas senti que era meu dever fazer algum comentário sobre os escritos dele: – Já comecei a musicar teus versos. Mas você sabe, isso toma tempo. Tem coisa de peso ali…

… como o fumo que os presidiários compartem,

na que passa de mão em mão,

como o sangue que se vende prá poder viver…”

Ele me olhou agradecido:

– Você acha que dá prá musicar isso?

– É, não é tão simples. Mais fácil é aquele outro que diz: na procissão das flores o lírio carrega uma vela… Acho que dá uma bela marcha-rancho.

Pronto, tinha conseguido, o Arlei ficou trianimado, o rosto que é sempre meio soturno se iluminou. Em troca ele me deixou feliz com seu convite:

– Levanta dessa rede, vamos jantar.

Arley me contou lances da sua viagem, e dos beatniks que conheceu. Ele tem poemas do Ginsberg e o Naked Lunch do W. Burroughs. E me mostrou um artigo do The realist novaiorquino, uma entrevista com T. Leary, que esteve na India com o Lama Govinda, autor do meu livrinho sobre o budismo tibetano. Leary parece que quis inaugurar um atalho, para chegar rápido na iluminação, sem perder tempo com meditação, é a tal yoga química.

Mas Arley diz que não quer mais saber de drogas, desde que lhe puseram um LSD na bebida, ele quase pirou.

(Com relação à maconha existe um problema, se você faz música. Sem dúvida é legal, quando você toca uma música só rítmica, ou uma improvisação, onde qualquer som que vier vem bem. Nesse caso a marijuana reforça o lance da surpresa. Mas não posso conceber o Agustin Barrios solando o seu Una limosna por el amor de Dios com a cuca baratinada, isso não funciona. Aqueles tremolos todos exigem uma perfeição na divisão do tempo, e a percepção do tempo é algo imponderável sob efeito da erva. E além disso tem aquele lance, de repente a mente fica grudada nalguma lembrança ou nalgum objeto. Então, você tá tocando e vê um relógio na parede, e voa pro relógio, e você é o relógio. Tudo muito bacaninha, mas a música dança irremediavelmente. Sem dúvida isso tudo tem a ver com os aspectos apolíneos e dionisíacos do espírito, que o Nietzsche fala.)

A prosa do Kerouac é impressionante, uma avalanche lúgubre. Nela eu percebo uma reverência quase religiosa aos músicos de jazz. Ele faz comentários que tomam uma página inteira, sobre um trecho de improvisação do sax-tenor. São confissões de amor e de êxtase com o músico, que consegue AQUILO. Mas não são comentários musicais, o máximo que aparece é um dó ou um  mi perdidos e desantenados, como baganas de música que você apanha nas ruas da vida. No entanto, qualquer músico, erudito ou de jazz, lendo notas ou não, como talvez fosse o caso do Charlie Parker, sabe que a música tem espaços, regiões submersas, e um universo de coisas mais. E uma sintaxe que você pode usar, mas primeiro tem que aprender.

Os intelectuais que não sacam  música – não tocam, não cantam, não assobiam – têm a tendencia a endeusar os músicos, porque percebem ali um estado de consciência do qual estão excluídos. Isso eu percebi no Maiafu em Ouro Preto, já antes no Tibúrcio. E o Arlei é a mesma coisa. Eu utilizo isso, mas apenas por uma questão de sobrevivência.

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