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Amanhã, ao alvorecer… Victor Hugo, 1802-1885

  • Setembro 17, 2023
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

 

Talvez o maior nome da cultura de França, mas com certeza, um extraordinário intelectual do século XIX, escrevendo poemas, dramas, romances e ainda desenhando telas repletas de significado social, este é Victor Hugo, nosso talentoso autor que viveu entre 1802 e 1885.

Ele é também uma personalidade política muito importante, desde jovem e sempre engajado com o papel ideológico de acolhimento dos mais pobres. Entre suas obras teatrais, destacam-se “Cromwell”, publicada em 1827, “Lucrèce Borgia”, de 1833, e ainda no mesmo ano, “Marie Tudor”, sendo todas obras de sua juventude precoce.

Quanto a sua produção poética, esta é vasta desde cedo e até próxima de sua morte: temos as “Odes e Baladas” de 1828, e seguimos a várias antologias, como “Châtiments” (“Punições”), de 1853, “Contemplations” (“Contemplações”), de 1856 e “A Legenda dos séculos”, publicada desde 1859 até 1877 e 1883.

Entre seus romances, encontramos ali obras excepcionais, como “O último dia de um condenado”, de 1829, passamos por “Notre-Dame de Paris”, editada em 1831, “Os Miseráveis”, sua obra-prima, sem dúvida, esta de 1862, e seguimos, entre outros, com “Os trabalhadores do mar”, datado de 1866. Toda a obra literária do autor é realizada dentro do chamado movimento do romantismo; esta é uma tendência cultural que surgiu no final do século XVIII na Alemanha e na Inglaterra e se espalhou pelo Ocidente durante o século XIX, até a década de 1850.

Esta orientação é expressa na literatura, na pintura, na escultura, na música, até na política e na dança, e é caracterizado pelo desejo do artista de explorar todas as possibilidades da arte para expressar seus estados de espírito; é, portanto, uma reação do sentimento contra a razão, exaltando o mistério e o fantástico e buscando a fuga nos sonhos, na tristeza e no  sublime, o exótico e o passado, o ideal ou o pesadelo de uma sensibilidade apaixonada e melancólica. Os seus valores estéticos e morais, as suas novas ideias e temas influenciaram rapidamente outros campos, em particular a pintura, a música e a produção escrita.

Na França, em particular, tratando-se de um país de tradição cultural greco-latina, esse  movimento do romantismo começa um pouco antes, ainda no nascer do século XIX, e assim os escritores, principalmente, liberam suas regras de pensamento em oposição ao classicismo e ao realismo filosófico do século XVIII.

Retornando a nosso autor e tratando-se do acervo poético de Victor Hugo, destacamos um poema considerado, talvez, como um dos mais representativos da melancolia do amor e da tristeza do sofrimento. Título: “Amanhã, ao alvorecer…” “/ Amanhã, desde a madrugada, na hora em que o campo embranquece, / Eu partirei. Você vê, eu sei que você me aguarda. / Irei pela floresta, irei pela montanha. / Não consigo mais ficar longe de você. / / Caminharei com os olhos fixos nos meus pensamentos, / Sem ver nada ao redor, sem ouvir nenhum barulho. / Sozinho, desconhecido, as costas curvadas, as mãos cruzadas, / Triste, e o dia para mim será como a noite. / / Não olharei nem para o ouro da tarde que cai,  Nem para as velas ao longe que descem em direção a Harfleur, / E quando eu chegar, colocarei sobre teu túmulo / Um buquê de azevinho verde e de urze em flor.” (extrato da coleção “Les Contemplations” (“Contemplações”), 1856).

Aqui temos o histórico da composição deste poema: no dia 4 de setembro de 1843, a filha mais velha do autor, Leopoldina, e mais seu jovem marido, ambos afogam-se e morrem durante um passeio no lago. O poeta fica inconsolável e ele evoca esta tragédia ao fazer uma peregrinação ao túmulo da filha; ele aí mistura lirismo, inspiração romântica e misticismo.

Como vimos, “Amanhã, ao alvorecer…” é um poema de carácter autobiográfico, cujo tema se refere à morte de Leopoldina e à dificuldade psicológica sentida pelo poeta em prestar homenagem junto a seu túmulo; a dimensão lírica é onipresente, a peregrinação a pé ao túmulo da filha dá a Victor Hugo tempo para refletir sobre seus sentimentos e explorar a dor ligada ao luto.

Se este poema teve e ainda tem grande sucesso, é pela emoção que desperta, diante de sentimentos que tocam com sua universalidade. O autor expressa seu sentimento de solidão, seu poema é de carácter autobiográfico, em que a dimensão lírica é central; levado pelo ritmo do poema, o leitor vai compreendendo, aos poucos, que o encontro com a filha amada é na verdade um encontro com a morte e com a filha falecida. A solidão, o luto, mas também a natureza como reflexo de sentimentos testemunham a inspiração romântica de Victor Hugo; ele está “triste” – este é o adjetivo que o autor emprega – e a seguir ele nos apresenta que “o dia sá como a nuite”.

Somente a natureza parece capaz de ser a confidente de sua dor e ainda de o apaziguar: sabemos que no romantismo o campo e floresta estão em acordo com o sentimento de melancolia do poeta. O caminho de Victor Hugo é, portanto e sobretudo, um caminho interior e espiritual; esta é uma peregrinação por si só, a temporalidade é, como vimos, a de um dia, mas uma leitura metafórica desta temporalidade permite-nos evocar a representação pictórica de uma vida humana.

Em conclusão de nossa pequena análise, “Amanhã, ao alvorecer…” é um poema lírico e patético, fortemente marcado pela sensibilidade romântica, e nosso autor evoca o luto e a dor pela perda de Leopoldina. O poema relata a peregrinação que o escritor faz ao túmulo de sua filha. Esta peregrinação surge gradualmente como uma verdadeira viagem espiritual, uma representação simbólica do caminho da vida, esta revela-se uma experiência única, de grande poder humano e poético. Se este poema continua a emocionar os leitores ano após ano, é em grande parte graças à aparente simplicidade da escrita e à expressão de sentimentos profundamente humanos. A dimensão autobiográfica é superada e o poema alcança a universalidade.

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