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Roberto Bolaño – 1953-2003

  • Janeiro 25, 2024
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

 

Mais uma vez, começamos nosso texto apresentando um autor desconhecido para a maioria dos leitores; importa pouco, mas tenho certeza de que, ao final, todos se encantarão com ele. Aos quinze anos, Roberto Bolaño decidiu que “queria ser escritor” e, a partir desse momento, trabalhou com uma perseverança única.

Nessa idade, juntamente com a sua família, deixou o Chile e foi para o México, onde descobriu que a sua vocação era a literatura. Roberto Bolaño nasce em Santiago do Chile, em uma família simples, é filho de um caminhoneiro e boxeador e sua mãe é professora. Ele e sua família vivem uma etapa no México, e mais adiante, o autor muda-se para Barcelona, onde vive a maior parte de sua existência.

Quanto aos estudos, Bolaño os abandona na idade de dezesseis anos, e afirma sua dedicação para ler e escrever diariamente. Depois de sua morte, converte-se em um dos escritores mais influentes em língua espanhola; ele figura entre os quinze primeiros lugares da lista estabelecida pelos críticos latino-americanos e espanhóis nos últimos vinte e cinco anos.

Sua obra tem sido traduzida em numerosos idiomas, entre eles, inglês, francês, alemão, italiano,​ lituano, neerlandês e japonês. Até o momento de sua morte, o autor teve trinta e sete contratos de publicação de suas obras em dez países, e mais adiante, essa quantidade cresceu para cinquenta contratos e quarenta e nove traduções, inclusive nos Estados Unidos.

A obra de Roberto Bolaño inclui poesia, romances, contos, ensaios e discursos literários, publicados majoritariamente em Barcelona, Espanha; o autor publicou, entre 1996 e 2003, pelo menos um livro por ano. Na produção literária do autor, destacamos sua coletânea de poesias, a saber, mais de vinte, desde jovem, em 1975 até edições póstumas de 2017; outro setor pleno de textos é o das novelas: uma coletânea que começa em 1984 e termina também com edições póstumas, em 2017; os contos igualmente recebem a atenção do autor já mais maduro, de 1997 até as edições de 2007, e suas recopilações, entrevistas e ensaios também são publicados, desde 2010 até recentemente, em 2018.

Roberto Bolaño recebeu próximo de duas dezenas de prêmios literários, vindos especialmente de regiões de Espanha, mas também de países sul-americanos, e ainda da Inglaterra. Alemanha e Estados Unidos. Dedicamo-nos agora a três poemas de nosso autor.

O primeiro: “Os cachorros românticos” (1993): “Naquele tempo eu tinha vinte anos / e estava louco. / Tinha perdido um país / mas tinha ganho um sonho. / E se eu tinha esse sonho / o resto não importava. / Nem trabalhar nem rezar / nem estudar de madrugada / com os cachorros românticos. / E o sonho vivia no vazio do meu espírito. / Uma casa de madeira, / em penumbras, / num dos pulmões do trópico. / E às vezes eu me revirava dentro de mim / e visitava o sonho: estátua eternizada / em pensamentos líquidos, / um verme branco se retorcendo / no amor. / Um amor desbocado. / Um sonho dentro de outro sonho. / E o pesadelo me dizia: crescerás. / Deixarás para trás as imagens da dor e do labirinto / e esquecerás. / Mas naquele tempo crescer teria sido um crime. / Estou aqui, eu disse, com os cachorros românticos / e aqui vou ficar.”

O segundo: “Autorretrato aos vinte anos” (1993): Me deixei levar, me lancei e nunca soube / até onde teria podido chegar. Iá cheio de medo, / com o estômago fraco e um zumbido na cabeça: / acho que era o ar frio dos mortos. / Não sei. Me deixei levar, pensei que era uma pena / acabar tão rápido, mas por outro lado / escutei aquele chamado misterioso e convincente. / Ou você escuta ou não escuta, e eu escutei / e quase comecei a chorar: um som terrível, / nascido no ar e no mar. Um escudo e uma espada. Então, / apesar do medo, me deixei levar, encostei o meu rosto / no rosto da morte. / E foi impossível fechar os olhos e não ver / aquele espetáculo estranho, lento e estranho, / ainda que embutido numa realidade velocíssima: / milhares de rapazes como eu, imberbes / ou barbudos, mas todos latino-americanos, / de rostos colados com a morte.”

O terceiro: “Ressurreição”. “A poesia entra no sonho / como um mergulhador em um lago. / A poesia, mais valente que qualquer um / entra e cai / como chumbo / num lago infinito como o Lago Ness / ou turvo e infausto como o lago Balatón. / Contemplai-a desde o fundo: / um mergulhador / inocente / envolto nas plumas / da vontade. / A poesia entra no sonho / como um mergulhador morto / no olho de Deus.”  Toda a sensibilidade, o temor de existir, o “estranho” que sempre nos acompanha, “a poesia que entra no sonho”, inevitavelmente, permitem que se questione e que se volte, enfim, somos seres humanos. Obrigada pela lição, Roberto Bolaño, e pela companhia!

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