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Ciranda da Vida – A colônia de antigamente

  • Fevereiro 21, 2024
  • Cultura
  • Ernesto Lauer

 

“Abrindo um antigo caderno
foi que eu descobri:
Antigamente eu era eterno” (
Paulo Leminski).

 

Lá pelos anos 50, os iniciais de 60, do século passado, praticamente todos nós, desta terra de São João do Montenegro, tínhamos parentes ou amigos vivendo na extensa colônia do nosso Município. Cultivavam a terra em busca dos produtos indispensáveis ao sustento familiar. Muito da colheita era direcionada à aquisição de produtos além dos próprios – a compra e venda. Assim nasceu o comércio do interior.

Conheci o Pedro Ivo; ele tinha um bodegão no interior do município, numa lonjura não muito grande da cidade. Um grande armazém de secos e molhados, com um salão de baile no mesmo prédio. Ele comprava uma parte da colheita dos colonos, principalmente galinhas e ovos. Num prédio acanhado no mesmo terreno funcionava um açougue. Aos sábados ele carneava uma ou duas reses, conforme as encomendas da semana. Era um comerciante abastando e uma espécie de conselheiro aos moradores da localidade.

Na época de eleições, o pessoal vinha tomar “serrana” (cachaça, limão, mel e canela) e aconselhar-se sobre o melhor candidato: aquele que realmente fosse cuidar das escolas e das estradas. Os colonos daquele tempo não tinham muitas exigências; queriam que os filhos estudassem o primário e que pudessem transitar por boas estradas. Só eventualmente eles vinham à cidade, para consultar algum médico, visitar parentes, comprar fazendas e roupas prontas.  Os chefe-de-família vinham ao Banco do Brasil, em busca de empréstimos agrícolas. Por isso eles precisavam de boas estradas, tanto as principais, quanto as vicinais.

O Pedro Ivo era um homem equilibrado, com curso ginasial completo; sabia um pouco mais que os outros; até o latim, em que as missas eram rezadas, ele conhecia. Dono de uma camioneta velha, mas que andava bem e enfrentava valentemente as estradas de chão-batido; por isso ele vinha à cidade mais seguidamente. Tivesse alguma dúvida jurídica para esclarecer, procurava um advogado amigo; até fazia consultas em nome de algum colono; pagava em produtos hortifrutigranjeiros.

Quando o seu Ervino, pai do Pedro Ivo, passou-lhe o negócio, um tempo antes de falecer, também o responsabilizou pelos cuidados do Otto, que já estava na casa por alguns anos. O Pedro Ivo tinha só uma irmã, que trabalhava em Porto Alegre, na casa de um médico. Ela era solteirona e muito bem de vida, pois nunca precisou gastar um tostão do seu salário; a família do médico lhe dava tudo. A irmã abriu mão da parte da sua herança em favor do Pedro Ivo, desde que ele se comprometesse a cuidar do Otto até a sua morte.

O Otto, que também chamam de “Schwarz Otto”, era um afro descente que apareceu na casa do seu Ervino mais de 20 anos antes. Ele chegou falando alemão, dizendo que vinha de uma cidade grande, liberado por um médico.  Disse que era da família “Miller”, de um lugar muito longe dali e que não tinha pai nem mãe. O seu Ervino agradou-se do Otto e deixou-o ficar. E ele foi ficando, ajudando nas lides da casa e do negócio. Era analfabeto, mas fazia contas como ninguém.  Inclusive ajudou a cuidar do Pedro Ivo nos tempos de guri. Ele não tinha documento, por isso não conseguiram descobrir a sua idade. Mas regulava pelos 60 anos – ele lembrava do governo do Borges de Medeiros e da Revolução de 23.

O Otto tinha a sua própria morada; fazia as refeições na casa do Pedro Ivo, onde era muito bem cuidado pela madrinha. Dona Mercedes foi madrinha de crisma do Otto, quando Dom Vicente Scherer apareceu pela localidade. Ele conversou com o Bispo em alemão e Dom Vicente ficou encantado.

Nas bodegas de antigamente, os moradores vinham pela tardinha para fazer compras e aproveitar para tomar um aperitivo. Otto gostava duma prosa, mas não bebia. Contava sua história e procedência, de um lugar bastante longe. Só muito mais tarde descobri que ele era do Morro Paris e foi criado, até uma certa idade, pela família Miller.

Otto já nos deixou faz muito; Pedro Ivo faleceu alguns anos passados. Foi um tempo, como disse Leminski, em que eu achava ser eterno e que os anos provectos não chegariam jamais … Mas chegaram!

 

 

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