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O último livro que li…

  • Março 8, 2024
  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Maria Susana Mexia

 

A fé dos revolucionários modernos consiste numa nova crença de ordem secular, radicalmente ateia ou agnóstica, de que irão derrubar ou extinguir de forma violenta toda a autoridade por eles considerada tradicional.

Esta fezada conduziu a várias revoluções na Europa ao longo dos séculos XIX e XX, tendo algumas sido exportadas do Ocidente para o resto do mundo.

«O coração da fé revolucionária, como de qualquer outra fé, é feito de fogo: materiais ordinários transfundidos em forma extraordinários, picos de calor a alterar subitamente a qualidade da substância. Se não sabemos o que o fogo é, sabemos o que faz. Ele queima. Ele destrói vida; mas também se firma como fonte de calor, luz e – acima de tudo, fascinação. (…) A revolução industrial permitiu que os homens atrelassem fogo às máquinas – e descarregassem poder de fogo uns nos outros – com uma força jamais sonhada em épocas passadas. Do meio desses fogos surgiu a chama mais elusiva que Dostoiévki descreveu na mais penetrante obra de ficção já escrita sobre o movimento revolucionário: Os demónios.»

O fogo está nas mentes dos homens, não nos topos dos prédios.

«A chama da fé começara suas emigrações um século antes, quando alguns aristocratas europeus transferiram suas velas acesas de altares cristãos para lojas maçónicas. A chama de alquimistas ocultistas, que prometeram transformar detritos em ouro, reapareceu no centro de novos “círculos” que buscavam recriar uma nova era: iluministas bávaros conspirando contra jesuítas, filadelfos franceses contra Napoleão, carbonários italianos contra os Habsburgos». (…)

«Um modelo mítico recorrente para revolucionários, o jovem Marx era Prometeu, que roubou o fogo aos deuses para dá-lo aos homens. A grande e corajosa fé dos revolucionários lembrava, em muitos aspectos, a crença moderna comum de que a ciência conduziria os homens para fora da escuridão rumo à luz».

Séculos atrás de séculos a ambição de muitos homens, arrojados conquistadores, revolucionários ou ditadores, ousaram empenhar-se em movimentos megalómanos, recorrendo à força destruidora para concretizarem os ideais que a sua “fé” lhes suscitava: Serem poderosos senhores do mundo, não olhando aos meios para atingirem esse tão almejado fim.

Se para alguns são considerados heróis, líderes ou, quase deuses, para outros são meramente uns assassinos, porque muitas mortes provocaram, muitas desgraças infringiram, muitos países arrasaram e muito sofrimento e tristeza espalharam e espalham em toda a humanidade.

A FÉ REVOLUCIONÁRIA, SUA ORIGEM E HISTÓRIA, edição brasileira, Março 2020, não sendo de todo um livro fácil, nem ligeiro, é sem dúvida um excelente auxiliar para compreendermos as origens e as consequências da cena política dos últimos dois séculos.

O seu autor, James H. Billington nasceu na Pensilvânia em 1929, formou-se pela Universidade de Princeton e obteve o seu doutoramento pela Universidade de Oxford. Foi professor de história nas universidades de Harvard e Princeton, e recebeu numerosas honrarias internacionais do mundo inteiro. Foi nomeado pelo Presidente Ronald Reagan, com aprovação unânime do Senado, como 13º bibliotecário do Congresso, permanecendo no cargo por 28 anos. Levou o tesouro do conhecimento da nação à era digital, colocando milhões de livros, filmes e artefactos culturais nos acervos históricos. Faleceu no dia 20 de novembro de 2018, em Washington, com 89 anos.

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