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A dinâmica dos opostos

  • Abril 29, 2024
  • Cultura
  • José Rogério Licks

– O ser humano tem a capacidade de articular palavras para expressar ideias, e a filosofia nada mais é que a tentativa de usar esse talento para que a vida se torne melhor. Mas o que é uma vida melhor? Entre a extinção do sofrimento do budismo e a afirmação do viver com prazer e com dor do Nietzsche, poderíamos pensar uma combinação dos dois? Só que entre a ideia e a concretude material sempre surgirá uma dinâmica primordial de opostos, que…

Tentando pôr no papel o que assimilei das preleções do Ariel G., ideias contrapostas se disputam o cenário na minha mente, e de repente no meio delas se ouve a voz do Arruda C., dando sua aula para um grupo de interessados no salão nobre, a poucos metros do piano.

– Para os filósofos idealistas o motor da história é o desenvolvimento das ideias. A dialética de Hegel via a história como um devir de contradições contínuas, que interagem, se combatem e se complementam ,  expressando o desenvolvimento da Ideia Absoluta.

(O Arruda tem problemas crônicos de saúde, necessita comida especial, medicamentos, não é fácil… Parece que ele tentou se asilar na embaixada chinesa, mas encontrou as portas fechadas, lá não estão recebendo refugiados…)

Pensar nisso me fez lembrar de outra fala do Ariel, sobre o período histórico vivido por Nietzsche.

Segundo Gibramsalt, a cultura europeia do século passado passou a buscar e incorporar o oriente, através de uma osmose intelectual propiciada inicialmente pelos trabalhos de orientalistas, que depois no nosso século só fez crescer. (Um exemplo é a tradução do I-Ching feita por R. Wilhelm, que hoje é tão popular entre os hippies.)

Até então o que os europeus sabiam do oriente não ia muito além dos relatos fantasiosos do Marco Polo, ambientados na Idade Média. Mas o século XIX viu nascer a filosofia de Schopenhauer, que absorveu a ideia da reencarnação e outras oriundas do budismo. A própria dialética de Hegel, que deu origem ao materialismo dialético, pode ser vista como uma versão europeia de concepções do taoísmo, como opinou Mao Tse Tung.

– O princípio fundamental do taoísmo nos diz que tudo que vive tem sua origem no Tao e está animado por uma energia formada por dois princípios contrários – Yang e Yin -, que estão em permanente ação transformadora da realidade. Essa contradição primordial está em toda parte – claro/escuro, frio/calor, masculino/feminino, afirmação/negação etc. – e passou a ser conscientizada pela mente europeia: leis físicas da ação e reação; polos positivo e negativo da eletricidade; tese e antítese da dialética; forças eletromagnéticas positivas e negativas no interior do átomo. Sem esquecer o velho Bem e Mal, famoso par de contrários trazido pelo Zoroastrismo do mago Zaratustra e adotado pela moral cristã…

E no pensamento de Nietzsche essa dualidade universal também ganhou uma nova versão: é a contradição entre o espírito apolíneo e o espírito dionisíaco, que o filósofo alemão desentranhou na cultura da Grécia antiga e em torno da qual ele desenvolveu sua filosofia.

– O materialismo dialético adotou essa concepção de contrários que geram uma constante dinâmica transformadora, tanto no universo natural como no social.

E conduziu ao materialismo histórico de Karl Marx, para o qual não são as ideias e sim os fatos materiais que determinam a dinâmica social – ensina  Arruda C. no salão nobre.

– Por um lado Nietzsche tenta demolir a contradição original, e não só no paradigmático Além do Bem e do Mal – continuou Ariel na minha memória.

Por outro ele diz: „Amor fati (amor ao destino) será, doravante, o meu amor!… quero ser algum dia apenas alguém que diz Sim!“.  (Mas no império do Sim é inevitável o insurgimento do Não, contradiria um taoísta…)

– E a história não se move por ação de fatores sobrenaturais, pelo pensamento ou por ideais, mas sim por força de conflitos entre classes, que têm origem nas formas  e relações de produção…

– Nietzsche acusa de niilismo o cristianismo e  também o budismo, diz que ambos são produtos de culturas envelhecidas. Nietzsche – ele escreveu toda sua obra no período entre metade dos vinte e metade dos quarenta anos – tem repugnância pelo velho, e zomba de que a sabedoria seja associada aos muitos anos de vida:

„Não basta ser afiado, também é preciso mostrar alguma ferrugem, se não vão dizer que és demasiado jovem…“

Ele propôs a inversão dos valores e preconizou o eterno retorno a uma existência dionisíaca.

Porém um viver dionisíaco só é possível na juventude, quando podemos despilfarrar energias, diz Ariel. Só um velho muito estúpido vai querer viver as orgias e os êxtases típicos do dionisíaco.

O envelhecimento do corpo põe naturalmente o princípio apolíneo no comando.

Nisso a tela da memória escureceu e no pretume apareceu, com grandes letras brancas esgarçadas, o nome de um livro: Bardo Thödol. É o Livro dos Mortos tibetano, Ariel discorreu sobre ele. Agora, aqui embaixo do piano negro da Embaixada, sua temática vem assombrar minhas reflexões…

A palavra tibetana bardo designa o estado intermediário, que começa com a morte de um ser humano e conduz a uma nova encarnação, na maioria dos casos. Porém, é no estado de bardo que surge a possibilidade direta de alcançar a libertação e entrar no Nirvana. Nós aqui na Embaixada não sabemos quando e onde vamos voltar a viver. Sim, penso com meus botões, aqui estamos numa espécie de bardo, mas sem acesso ao Nirvana.

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