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Antonio Machado – “Hoje é sempre ainda”

  • Junho 17, 2024
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

 

Antonio Machado nasceu em julho de 1875, em Sevilha, na região de Andaluzía, no sul de Espanha. É o segundo filho – de sete –  em uma família respeitável, de tradição liberal e ligada ao livre pensamento; seu pai foi advogado e anteriormente seu bisavô fora filósofo e pensador conceituado, e seu avô foi Catedrático de Medicina e Ciências Naturais na Universidade de Sevilha.

O jovem estudou na Instituição Livre de Ensino, o ILE, o que foi uma experiência pedagógica desenvolvida no país durante mais de meio século e considerada como uma renovação no ensino. Em 1889, pouco antes de quatorze anos de idade, Machado é aceito no Instituto Cisneros, dedicado ao segundo ciclo; em 1895, ainda não terminara seu curso, mas en 1906, se prepara para o concurso público de professor de francês em escolas secundárias, o que ele obteve no ano seguinte.

Machado dedica-se às artes, à literatura, e participa da “geração de 98”; este é o nome tradicionalmente usado para se referir a um grupo de escritores, ensaístas e poetas espanhóis que foram profundamente afetados pela crise moral, política e social desencadeada na Espanha pela derrota militar na Guerra Hispano-Americana e a consequente perda de Porto Rico, Guam, Cuba e Filipinas, em 1899.

Todos os autores e grandes poetas incluídos nessa geração nasceram entre 1864 e 1876, e os expoentes da Geração de 98 foram, entre outros, Unamuno, Valle-Inclán e também Antonio Machado. Não podemos enquadrar Machado em uma corrente de pensamento; os estudiosos discutem se era simbolista, modernista, romântico ou da geração de 98. Sendo tradicional no espiritual – sua filosofia era a mesma de Unamuno, a saber, a reação ao mistério da vida humana – nosso autor foi ao mesmo tempo inovador, bebeu de todas estas correntes, mas seguiu seu caminho pessoal.

Não era um homem de escola, pois escolheu caminhar livremente, e é o que nos diz neste curto, porém belíssimo poema: “Viajante, estas são suas pegadas / o caminho, e nada mais; / viajante, não há caminho, / o caminho é feito ao caminhar. / Ao caminhar se faz aminho, / e quando você olha para trás / você vê o caminho que nunca / vai trilhar se novo. / Viajante, não há caminho, / mas rastros no mar.” Caminhante pelos caminhos da Espanha, Machado extraiu das pessoas do povo a filosofia de vida que inspirou suas palavras íntimas, melancólicas, profundas e sutis; nosso autor escolheu caminhar livremente.

Antonio Machado trabalhou como poeta, escritor, tradutor e mais tarde, como professor de francês; ele abraçou o mundo das letras como um refúgio, devorando as obras dos clássicos e dos contemporâneos: seu amor pela literatura espanhola e seu apreço pela poesia romântica e simbolista foram essenciais na modelagem de seu estilo poético único. Não é por nada que seu público da época o chamou de “poeta filósofo”.

O legado de Antonio Machado é profundamente enraizado na história literária e cultural de seu país e – ouso dizer – além, sua poesia e prosa continuam a ressoar com leitores e escritores, influenciando gerações de poetas e pensadores; em conclusão, o legado de Antonio Machado é uma prova do poder duradouro de sua poesia. Quanto às obras de Antonio Machado, sua bibliografia nos apresenta uma variação desde a poesia lírica até a prosa reflexiva e o teatro, todas marcadas por sua sensibilidade e habilidade com as palavras.

Vamos deter-nos com os seguintes poemas: primeiro, “Soledades”, de 1903, obra inaugural do autor, é um estudo intenso sobre a solidão, a tristeza e a melancolia; suas poesias refletem o estilo lírico e simbolista, marcando o início de sua jornada como poeta. Segundo, “Soledades, galerias e outros poemas”, 1907, esta coletânea ampliada adiciona uma nova dimensão à poesia do autor, ao explorar temas como a morte, a passagem do tempo e a busca por significado. Terceiro, “Campos de Castilha”, de 1912, onde se celebra a beleza austera e a simplicidade rústica, envolvendo a direção a um realismo mais nítido. E quarto, “Novas canções”, de 1924, mostra o autor no auge de sua habilidade poética; os poemas são profundamente introspectivos e exploram temas como a natureza, o amor e a espiritualidade.

No total, foram editadas quatorze coletâneas de poemas, quatro edições de textos de prosa, e onze peças teatrais.

Prosseguimos a busca de alguns poemas do autor; o primeiro, “Nunca busquei a glória / nem deixei na memória / dos homens minha / canção; / Eu amo os mundos sutis, / sem peso e suaves / como bolhas de sabão. / Gosto de vê-los se pintar / de sol e escarlate, voar / sob o céu azul, tremerem / de repente e se quebrarem.” São de caráter ora elegíaco, ora filosófico, os poemas reunidos em “Provérbios e cantares”, os quais integram “Campos de Castilla”.

O segundo, “Tarde tranquila, quase / com mansidão de alma, / para ser jovem, para ter sido jovem / quando Deus quis, para / ter algumas alegrias… distantes, / e poder tranquilamente recorda-las.” Poema em que o verso brota de um manancial sereno, encontrando uma fonte de inspiração na natureza e na paisagem; e o amor e a ternura estão presentes por muito tempo em sua poesia.

A herança que nos deixa Antonio Machado é profundamente enraizada na história literária e cultural deste poeta; sua poesia e prosa continuam a ressoar com leitores e escritores, influenciando gerações de poetas e pensadores.

Seu trabalho contribui significativamente para a evolução do modernismo literário, proporcionando um contraponto lírico à prosa mais dura e realista, com suas metáforas e imagens simbolistas. Seu trabalho tem sido citado como uma influência significativa em autores contemporâneos, que encontram na profundidade emocional e filosófica de sua poesia um modelo para explorar seus próprios temas e ideias; Machado só acresce ao âmbito cultural e social. O amor de Machado pela linguagem, sua devoção à expressão poética e sua capacidade de captar a essência da experiência humana continuam a inspirar, emocionar e iluminar.

Antonio Machado morreu em fevereiro de 1939, aos sessenta e seis anos de idade, depois de fugir dos combatentes da guerra civil; ele levou consigo os familiares até a fronteira com a França, em Collioure, no limite dos Pirineus Orientas. Ele vive em cada verso que ressoa com um leitor, em cada palavra que inspira um jovem escritor, e em cada momento em que sua poesia ilumine um canto escuro do mundo.

Como ele mesmo escreveu em um de seus mais famosos poemas, “tudo passa e tudo fica, mas o nosso é passar, passar, fazendo  caminhos, caminhos sobre o mar.” Nosso Antonio Machado pode ter partido, mas seu caminho na literatura permanece, um farol brilhante para aqueles que navegam os mares da poesia.

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