Miguel de Unamuno – 1864-1936 – é um dos maiores nomes da cultura espanhola. Ensaísta, romancista, poeta, dramaturgo e filósofo, produziu uma vasta e influente obra mundialmente conhecida, na qual se destaca o ensaio ‘O Sentimento Trágico da Vida’. Ao lado de nomes como o escritor Pio Baroja (1872-1956) e o poeta Antonio Machado (1875-1939), fez parte da chamada Geração de 98, que assentou as bases para o renascimento cultural da Espanha.
O autor nasceu em Bilbao, no norte do país, ele foi o terceiro filho da família, aos dez anos concluiu os estudos iniciais no colégio de San Nicolas, e depois estudou Filosofia e Letras na Universidad de Madrid, e em 1884 concluiu o doutorado com uma tese sobre a língua basca: ‘Crítica do problema sobre a origem e pré-história da raça basca’.
Em 1885, Unamuno começa a trabalhar em um colégio como professor de latim e psicologia, e passa a publicar diversos artigos, como ‘Sobre o elemento estrangeiro na língua basca, Guernica e Notícias de Bilbao’. Em 1888, candidata-se para a cátedra de psicologia, lógica e ética do Instituto de Bilbabo, mas não é selecionado. Nessa mesma época inicia uma polêmica e considerava Unamuno um “espanholista” devido ao fato de que ele já tinha escrito algumas obras em euscaro e considerava que esse idioma iria desaparecer logo.
Em 1891, Unamuno se casa con Concha Lizárraga, por quem era apaixonado desde criança. Nessa mesma época passa a lecionar a cátedra de Grego na Universidad de Salamanca, da qual seria reitor em 1901. Em 1894, passa a colaborar com o semanário ‘Lucha de clases’. Unamuno abandona o partido socialista três anos depois, ingressando numa profunda depressão.
Em 1914, o ministro de Instrução Pública destitui Unamuno da reitoria por razões políticas; é, então, condenado a 16 anos de prisão por injúrias ao rei (Fernando VII), mas a sentença acaba não sendo cumprida. Em 1921, Unamuno é nomeado vice-reitor, mas seus constantes ataques ao rei e ao ditador Primo de Rivera fazem com que seja novamente destituído do cargo. A partir de 1924, se exila na França, retornando à Espanha apenas em 1930, após a queda do regime de Rivera.
No final do século XIX, sua reflexão centrou-se na situação política; mas a essas preocupações, o autor responde com ensaios: ‘Sobre o tema do tradicionalismo, ou a Vida de Dom Quixote e Sancho’. Depois de sofrer uma crise existencial, o seu positivismo racionalista converte-se numa busca ansiosa para encontrar um sentido para a existência humana; desta necessidade, infere a existência divina. Tal preocupação está presente em dois de seus melhores ensaios: ‘O sentimento trágico da vida’ e ‘A agonia do cristianismo’, embora o mesmo problema reapareça sistematicamente em toda sua produção.
Quanto a sua obra artística, destacam-se os romances ‘Paz na Guerra’ (1897); ‘Névoa’ (1914), com muitos elementos autobiográficos; ‘Abel Sánchez’ (1917); ‘A tia Tula’ (1921); e ‘São Manuel Bueno, Mártir’ (1931). Merecem igualmente ser mencionados os seus livros de poemas ‘Rosário de sonetos líricos’ (1911) e ‘O Cristo de Velázquez’ (1920).
Cultiva também a literatura de viagens, ‘Por terras de Portugal e Espanha’ (1911), e o teatro, ‘Fedra’.
Desenganado com a República, em 1936 apoiou a sublevação militar, ainda que dela rapidamente se tenha distanciado. Unamuno passou os últimos dias de vida em prisão domiciliar. Morreu subitamente na sua casa, em Salamanca, no dia 31 de dezembro de 1936.
Obra literária:
1895 – ‘Rosário de sonetos líricos’ (ensaios) / 1897 – ‘Paz na Guerra (romance sobre a Guerra Carlista)’ / 1898 –
‘A esfinge’ (drama) / 1899 – ‘A venda’ (drama) / 1902 – ‘Amor e pedagogia’ (novela de idéias) / 1903 – ‘De meu país’ (ensaios) / 1905 – ‘Vida de Dom Quichote e Sancho’ / 1907 – ‘Poesias’ / 1910 – ‘A Espanha que volta’; ‘Fedra’ (dramas) / /1911 – ‘Rosário de sonetos líricos’; ‘Por pedras de Portugal e Espanha’ (ensaios) / 1913 – Do sentimento trágico da vida e a vida nos homens e os homens e os coitados’ (ensaios) / 1914 – ‘Névoa’ / 1917 – ‘Abel Sánchez: uma história de paixão’ / 1920 – ‘O Cristo de Velasques’ (poesia); ‘Três novelas exemplares e um prólogo’ / 1921 – ‘A tía Tula’ / 1922 – ‘Andanzas e visões espanholas’ / 1923 – ‘Rimas de dentro’; ‘Teresa’ (poesia) / 1924 – ‘A agonía do cristianismo’ (ensaios) / 1925 – ‘De Fuerteventura a Paris’. ‘Diário íntimo de confinamento e desterro vertido em sonetos’ / 1926 – ‘Sombras de sonho’; ‘O outro’ (dramas) / 1927 – ‘Como se faz uma novela’ / 1928 – ‘Romanceiro do destino’ / 1929 – ‘O irmão João e O mundo é teatro’ (teatro) / 1933 – ‘São Manuel Bueno’, mártir e Três novelas más’ / 1953 – ‘Cancioneiro. Diário poético’ (publicado postumamente).
Passamos agora aos poemas de Unamuno; um deles de maior domínio é ‘Incidentes Domésticos e outros poemas’ – por Miguel de Unamuno.
Primeiro; TUA MÃO É MEU DESTINO: Faltam-me forças para andar, coloca / tua mão sobre meu ombro, / assim recobro / forças, com tal contato; / levar-te-ei pelos caminhos largos / e marcharei seguro / guiando-me em teu passo. / Tua mão é meu destino; / sinto-a sobre meu ombro, acabrunhado / já não sou, mas tão leve / que asas lhe nascem como por encanto. / Quando sobre meu ombro / rendido pões com paz tua branda mão, / parece que me elevas acima do meu fado, / esse implacável. / Sinto teu pulso em mim quando tua mão / sobre meu ombro dorme, / sinto teu coração e sem querer / sinto meu coração, o meu, o teu, / o dos dois, nosso escravo! / Tua mão é meu destino; / o sentir seu aperto é como um raio, / renasce em mim a vida, / renasço em ti. / Forças me dás, e luz, e luz às forças / quando te apoias em meu ombro, o espaço / se me abre, sem caminhos / e por todos os lados. / A luz carrego dentro, / carrego dentro o faro / que se acende ao sentir sobre os meus ombros / de tua vida o contato. / Tua mão é meu destino; / e quando a sinto em mim, transborda o vaso / do coração, seu sangue / é o que me acende, e queima meu cansaço, / à sua luz se me abre / por todo lado a senda. / Tua mão é meu destino.
Segundo; CANTA A NOITE: Enquanto vão subindo ao céu da selva / as estrelas escutam, em silêncio, / cantar o rouxinol, a voz alada / entre as entranhas do que é noite augusta. / Soam cantos de amor, ao céu aberto / que o sol encerra: à aurora, com suas chaves / de ouro escaldante; aí, cantam as trevas. / Canta a noite; e arrulha o doce sono / dos filhos desta vida, já rendidos, / sono que em seu regaço acolhe-os todos / sob um manto suave, um manto negro. / Não fazem sombra um ao outro os seres, / nem lutam pela luz; todos se abraçam / no regaço daquela boa mãe. / Canta a noite; e arrulha o doce sono / dos filhos desta vida, já rendidos; / canta a noite; e derrama, com seu canto, / nos doentes corações, o esquecimento; / canta a noite; e então lava, com seu canto, / as visões que, ante o sol que o céu encerra, / o silêncio mortal do meio-dia / submetera a esta alma angustiada.
A força que se faz para andar é aquela que segura nossas mãos no intuito de alcançar nosso “destino”.
Enquanto ouvimos “cantar a noite”, lavamos as “visões de nossa alma angustiada”.
Aproveitemos o ensinamento de Unamuno e façamos progredir nosso avanço.
FELIZ NATAL DE 2025 !