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Pier Giorgio Frassati e a política com consciência

  • Fevereiro 3, 2026
  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Manuel Matias

 

Uma lição urgente para Portugal e para a Europa num tempo estranho e desafiante, que somos chamados a viver.

Em Portugal, tornou-se quase um lugar-comum afirmar que a fé deve ficar confinada à esfera privada e que a política deve ser “neutra” em valores. O resultado está à vista: uma democracia moralmente empobrecida, capturada por um consenso ideológico de matriz socialista, onde temas como a vida, a família, a liberdade educativa ou a dignidade da pessoa humana são tratados como obstáculos ao progresso. Chegámos a um ponto a que nem os próprios pais da Revolução Francesa, com todo o seu anticlericalismo, imaginariam chegar: a negação da própria natureza humana e a tentativa de apagar qualquer referência moral objetiva do espaço público.

É precisamente neste contexto que a figura de Pier Giorgio Frassati se revela não apenas atual, mas profundamente incómoda.

A esta crise moral soma-se hoje uma outra realidade incontornável: a substituição progressiva da matriz cultural cristã da Europa por uma cultura woke artificial, promovida não pelos povos, mas por burocracias de Bruxelas e por organizações supranacionais desligadas da identidade e da história europeias. Em nome de uma falsa neutralidade e de um progressismo obrigatório, tenta-se reeducar sociedades inteiras, impor novas linguagens, relativizar a natureza humana e cortar as raízes espirituais do continente.

Portugal, como tantas outras nações europeias, tem aceite demasiadas vezes, sem debate sério, aquilo que outros decidiram longe da vontade popular e contra a sua própria tradição civilizacional.

É precisamente contra esta lógica de desenraizamento cultural que o testemunho de Pier Giorgio Frassati ganha ainda mais força. A sua militância no Partito Popolare Italiano (PPI) não foi apenas uma opção partidária, mas uma forma consciente de defesa da identidade cristã da Europa, ameaçada, no seu tempo, pelo comunismo materialista e por outras ideologias totalizantes. Frassati compreendia que, quando a política se separa das suas raízes morais e espirituais, a própria civilização entra em declínio.

Tal como acontece hoje comigo, frequentemente criticado por questionar publicamente posições da hierarquia da Igreja e de determinados setores do catolicismo institucional, também Frassati não viveu uma fé acrítica ou acomodada. Amava profundamente a Igreja, mas sofria quando, na sua consciência, percebia sinais de negociação da verdade em troca de aceitação cultural ou de uma falsa paz social. Para ele, uma Igreja que abdica da verdade deixa de ser fermento da civilização e passa a ser apenas um ornamento do sistema.

A sua militância política foi expressão dessa tensão interior: amar a Igreja e, ao mesmo tempo, recusar que ela se diluísse no espírito do tempo. Frassati acreditava que a missão da Igreja não era agradar ao mundo, mas iluminá-lo, mesmo quando isso implicava isolamento, incompreensão ou conflito. Essa atitude valeu-lhe críticas no seu tempo, tal como hoje são dirigidas a quem ousa romper o consenso cómodo dentro e fora da Igreja.

Não é por acaso que Frassati tinha como modelo de zelo e admiração Girolamo Savonarola. Independentemente dos juízos históricos sobre a figura do frade dominicano, Frassati via nele um símbolo da luta contra a corrupção moral, espiritual e política do seu tempo. Savonarola representava, para Frassati, o alerta permanente de que a Igreja corre perigo sempre que troca a clareza profética pela conveniência institucional.

Este traço insere Frassati numa linhagem exigente de santos que foram, cada um à sua maneira, defensores da identidade cultural da Europa.

São Tomás More, ao recusar submeter a consciência cristã ao poder político, defendeu não apenas a sua fé pessoal, mas o próprio fundamento moral da civilização europeia: a primazia da lei natural sobre o arbítrio do Estado. A sua morte permanece como um aviso de que uma Europa sem consciência acaba inevitavelmente sem liberdade.

O Beato Carlos I da Áustria, último imperador de um império europeu multinacional, tentou governar segundo a lei de Deus, promover a paz e preservar uma ordem política enraizada na tradição cristã. Foi derrotado não por incapacidade, mas porque se recusou a sacrificar princípios morais em nome da eficácia política. A sua queda simboliza o momento em que a Europa começou a trocar a sua herança espiritual por ideologias tecnocráticas e materialistas.

Em Portugal, São Nuno de Santa Maria personifica de forma exemplar essa síntese entre fé, identidade e serviço à Pátria. Defensor da independência nacional, nunca confundiu poder com vaidade nem a espada com ideologia. A sua vida recorda que a identidade portuguesa e europeia não nasce da engenharia social, mas de uma história moldada por um encontro com Cristo e por sacrifício, lealdade e transcendência.

Frassati, embora sem cargos, exércitos ou coroas, partilha com todos eles a mesma certeza: a Europa não é apenas um espaço político, económico ou administrativo, mas uma civilização com raízes cristãs profundas. Quando essas raízes são cortadas, as nações e o continente perdem memória, sentido e futuro.

Num tempo em que qualquer defesa da identidade europeia é caricaturada como retrógrada ou “excludente”, estes santos recordam-nos que defender a identidade não é rejeitar o outro, mas preservar aquilo que nos constitui. A verdadeira inclusão não nasce do apagamento das diferenças, mas da fidelidade à verdade.

A canonização de Pier Giorgio Frassati é, por isso, uma interpelação direta a Portugal e à Europa: é possível participar na vida política sem vender a consciência; é possível amar a Igreja sem a instrumentalizar; e é possível defender a civilização europeia sem ódio, mas com coragem.

Num continente cansado, confuso e tentado a esquecer quem é, Frassati como Savonarola no zelo, como More na consciência, como Carlos I na ética e como São Nuno no serviço lembra-nos que a verdade tem sempre um custo. Mas lembra também que só uma Europa fiel à sua alma poderá ter futuro.

Portugal precisa de se reencontrar com a sua missão.

Na Batalha de Ourique, Deus prometeu que, se combatêssemos pela bandeira das cinco quinas, a vitória seria nossa.

Hoje, a escolha que temos de fazer é simples e exigente: lutar pela bandeira das quinas ou tornar-nos escravos de outras bandeiras.

Liberdade ou servidão, identidade ou vazio, vida ou morte.

Só tu podes fazer a tua escolha, ninguém o pode fazer por ti.

 

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