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Não há dúvida

  • Fevereiro 17, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

 

Com justificado purismo, éramos avessos à incorporação de atletas estrangeiros em nossas equipes nacionais, prática comum em outros países. Por sua excelência, alguns jogadores cubanos de vôlei, por exemplo, foram recrutados por outras seleções. Ainda que a Fifa tenha regras a respeito, no futebol as naturalizações se tornaram comuns, a ponto de na Copa de 2022 mais de cem jogadores a disputarem sem terem nascido nos países que representaram (https://exame.com/esporte/copa-do-mundo-2022-137-atletas-nao-nasceram-em-seu-pais-de-origem-veja-a-lista/).

No caso das disputas em clima de inverno o Brasil tem óbvia dificuldade na convocação de atletas. Recorre a brasileiros que vivem no exterior, incluindo os que têm dupla nacionalidade e optam por defender nossas cores.

O esqui foi inventado pelos noruegueses. Seu uso, aliás, foi fator muito importante na conquista do Polo Sul por Roald Amundsen e seus companheiros. O maior vencedor dos Jogos Olímpicos de Inverno, condição que acaba de conquistar, é o norueguês Johannes Klaebo e, no momento em que escrevo, seu país lidera o quadro de medalhas, com 28 conquistas, doze das quais são de ouro.

Pois eis que Lucas Pinheiro Braathen, nascido em Oslo, filho de pai norueguês e mãe brasileira, representou o Brasil em duas modalidades. Tornou-se campeão no Slalom Gigante, cativando por sua simplicidade e genuína emoção, entrando para a história como o primeiro sulamericano a conquistar uma medalha em Jogos Olímpicos de Inverno. E foi de ouro.

Os puristas hesitam em celebrar o feito. Afinal, ele é norueguês de coração ou brasileiro?

O brilhante Sérgio Jockymann, jornalista e escritor gaúcho, escreveu duas coisas que jamais esqueci: que o brasileiro acredita que uma briga termina no primeiro tapa e que a vitória nos é tão surpreendente que, ao vencermos, choramos.

Lucas chorou no pódio, comovendo inclusive este que vos escreve. Portanto, segundo o crivo de Jockymann, ele tem muito de brasileiro.

Contudo, se ainda restava alguma dúvida a respeito, nas horas subsequentes ela foi dizimada: mais favorito do que era no Slalom Gigante, ao competir na modalidade Slalom Lucas caiu na primeira descida e as chances de uma segunda medalha se foram.

Assim, com admiração e respeito pelo que o rapaz conquistou, confesso que não tenho dúvida: é mesmo muito mais brasileiro que norueguês.

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Sob uma placa de vidro em sua mesa de trabalho, meu pai mantinha aquele texto tradicional de Rui Barbosa: “De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, …”.

Tido como monarquista, surpreendentemente Rui cumpriria papel importante na proclamação da república, sendo por conta disto considerado traidor por seus pares de então.

No dia 16 de novembro a família real foi intimada a deixar o país. O embarque, previsto para a tarde do dia seguinte, foi antecipado, ocorrendo nas primeiras horas do dia. O Decreto nº 78-A, de 21 de dezembro de 1889 proibiu o retorno da família real ao Brasil e extinguiu seus direitos políticos e dotações. E Rui? Seria ministro do Governo Provisório.

Diante do que temos assistido no Brasil, com a regularidade de escândalos de monta e a nítida deterioração dos três poderes, certamente a frase mais famosa de Rui Barbosa mostra-se tristemente atual, ainda que discorde de seu final: “… o homem chega a desanimar da virtude, a rir-se da honra, a ter vergonha de ser honesto”.

Não, não desanimamos da virtude. Vamos, isto sim, perdendo a esperança, porque na parte inferior da ampulheta de nosso tempo já há muita areia. Tampouco rimos da honra e muito menos temos vergonha de buscar a justiça.

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Tive oportunidade, anos atrás, de ler uma biografia de Rui Barbosa. Fiquei com  a imagem de um cidadão inegavelmente culto, mas aborrecente em sua vaidade e gongorismo.

O certo é que Rui, em seu texto, aguilhoa a mediocridade e lastima o triunfo dos maus. Como nosotros nestes dias que correm. Desanimar é a reação mais compreensível num momento em que o Brasil parece perseguir a superação de todos os limites de criminalidade e desmandos nos poderes. É tanto desatino que por vezes nem parecemos mais um país, senão um território comandado predominantemente por bandidos, oportunistas e canalhas de todos os matizes.

Pensar desta forma, porém, não consola, antes inquieta a alma e a desespera.

Foi na Missa do último domingo que, ao escutar palavras de sabedoria, voltei a acomodar as melancias na minha carroça. Primeiro oriundas do Eclesiastes (15, 16-21), através das quais o pregador Salomão ocupa-se da brevidade da vida, da efêmera vaidade e dos prazeres, exortando a busca do sentido.

Depois a leitura da Primeira Carta de São Paulo aos Coríntios:

“Na realidade, é aos maduros na fé que falamos de uma sabedoria que não foi dada por este mundo, nem pelas autoridades passageiras deste mundo. Ensinamos uma coisa misteriosa e escondida: a sabedoria de Deus, aquela que ele projetou desde o princípio do mundo para nos levar à sua glória. Nenhuma autoridade do mundo conheceu tal sabedoria, pois se a tivessem conhecido não teriam crucificado o Senhor da glória. Mas, como diz a Escritura: “o que os olhos não viram, os ouvidos não ouviram e o coração do homem não percebeu, foi isso que Deus preparou para aqueles que o amam.” Deus, porém, o revelou a nós pelo Espírito. Pois o Espírito sonda todas as coisas, até mesmo as profundidades de Deus”.

Paulo nos lembra que os maus não têm sabedoria, o que explica por que certas atitudes e decisões nos parecem tão absurdas, inacreditáveis, desarrazoadas e distantes do bom sendo e do bem comum.

Afastados de Deus, sem darem a mínima ao quão efêmero é o seu poder, os tenho na conta de loucos.

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