Anne Applebaum é uma historiadora e escritora com bons predicados. Norte-americana, estudou em Yale e atualmente vive entre Washington, Londres e Polônia, país no qual obteve dupla cidadania em 2013. Filha de judeus, seus avós emigraram da Bielorússia no tempo do czar Alexandre III, pai do último czar, Nicolau II.
Vencedora do Pulitzer de não ficção geral com o livro “Gulag – Uma história dos campos de prisioneiros soviéticos”, trabalhou para veículos de comunicação expressivos e tem no currículo vários livros, três dos quais, pelo menos, foram traduzidos para o português.
Li “Autocracia S.A.”, obra na qual analisa as estruturas do que se entende como países, notadamente os nada liberais, que massacram seus cidadãos e utilizam um vocabulário típico: defesa da soberania, multipolaridade,… Como isto funciona? Mais ou menos assim: não me venham com idéias ocidentais de democracia e liberdade, cada um cuida do seu nariz e o que de melhor podemos fazer é nos relacionarmos através de cooperações com ganhos mútuos.
Comenta sobre influenciadores remunerados que trabalham para difundir as idéias de que o mundo agora é multipolar e que o ocidente ruiu. Interessante. Entre eles encontram-se jornalistas que andam de um lado para o outro, de Moscou a Pequim, do interior da Rússia à rota da seda. Sem que sejam subsidiados provavelmente não teriam bala na agulha para tantas andanças. Mas dinheiro é o que não falta para destruir o ocidente na guerra da informação e dos algoritmos.
Quase no final do livro, Applebaum resume o risco em que segundo ela estamos metidos: “nenhuma democracia está segura”.
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Estou a ler outro livro de sua autoria: “O crepúsculo da democracia”. Seu início revela a harmonia que a Polônia passou a viver após a queda do comunismo. Descreve uma festa de final de ano que ela e seu marido promoveram num solar antigo cuja reforma estava quase completa.
“Os convidados eram variados: amigos jornalistas de Londres e Moscou, alguns diplomatas em início de carreira baseados em Varsóvia, dois amigos de Nova York. Mas a maioria era composta de poloneses, amigos nossos e colegas de meu marido, Radek Sikorski, então vice-ministro do Exterior de um governo de centro direita. Havia amigos locais, alguns colegas de escola de Radek e um grande grupo de primos. Alguns jovens jornalistas poloneses também compareceram — nenhum deles particularmente famoso —, juntamente com alguns servidores públicos e um ou dois membros juniores do governo. Seria possível nos agrupar, de modo muito geral, na categoria que os poloneses chamam de direita: conservadores, anticomunistas. Mas, naquele momento da história, também seria possível chamar a maioria de nós de liberais. Liberais de livre mercado, liberais clássicos, talvez thatcheristas. Mesmo aqueles cuja posição econômica era menos definida acreditavam na democracia, no estado de direito, em freios e contrapesos e em uma Polônia que era membro da Otan e estava a caminho de se filiar à União Europeia (UE), uma Polônia integrada à Europa moderna. Na década de 1990, era isso que significava “fazer parte da direita”.”
Cruzaram a noite em genuína alegria numa festa cuja estrutura deixava a desejar: o casal estava reconstruindo uma casa arruinada e os amigos estavam reconstruindo um país.
“Esse momento passou. Quase duas décadas depois, eu atravessaria a rua para evitar algumas das pessoas que compareceram à minha festa de Ano-Novo. Elas, por sua vez, não somente se recusariam a entrar em minha casa, como ficariam constrangidas em admitir que já estiveram lá. De fato, metade das pessoas presentes à festa já não fala com a outra metade. O distanciamento é político, não pessoal. A Polônia é agora uma das sociedades mais polarizadas da Europa, e nos encontramos em lados opostos de uma profunda divisão”.
Se trocarmos o país e o continente é possível admitir um paralelo com o que vivemos. Ou não estamos polarizados como nunca? Como nunca me parece demasiado, afinal de contas nós, os gaúchos, tivemos na história antagonismos tremendos entre os farrapos e o Império, entre Castilhos e Silveira Martins, entre Borges e Assis Brasil. Todos estes eventos, aliás, causaram derramamento de sangue.
Mas é inegável que o Brasil vive um racha de tal monta que já passamos a duvidar da existência de uma nação, tal a discórdia entre amigos e parentes por conta de visões muito diversas acerca da política. Como chegamos a isto depois da redemocratização? Será que em algum momento fomos visceralmente democráticos? Ou as oligarquias e os demagogos dominaram um faz-de-conta e sempre assistimos um Estado capturado?
Seja lá qual for a gênese do nosso fracasso, temos no poder um magote de incompetentes numa realidade tirânica, falsamente democrática, de uma turma que tomou de assalto o país como se a realidade fosse, de fato, unipartidária. Hannah Arendt sintetizou que esta forma de exercício do poder “invariavelmente substitui todos os maiores talentos, independentemente de suas simpatias, por excêntricos e tolos cuja falta de inteligência e criatividade é a melhor garantia de sua lealdade”.
Applebaum discorre sobre o tema e sua experiência pessoal talvez nos ilumine:
“O que, então, causou essa transformação? Será que alguns de nossos amigos sempre foram secretamente autoritários? Ou as pessoas com quem brindei nos primeiros minutos do novo milênio mudaram de alguma forma nas duas décadas subsequentes? Não existe uma explicação simples, e não oferecerei nem uma teoria grandiosa, nem uma solução universal. Mas eis um tema: nas condições certas, qualquer sociedade pode se voltar contra a democracia. De fato, a se acreditar na história, todas as nossas sociedades farão isso algum dia.”
Na sequência a autora parece escrever para os tupiniquins, neste momento impotentes contra os abusos, a desfaçatez, a demagogia asquerosa, a corrupção e a impunidade, que nos arruínam:
“Os antigos filósofos sempre tiveram dúvidas sobre a democracia. Platão temia as “palavras falsas e presunçosas” dos demagogos e suspeitava que a democracia podia ser somente uma escala na estrada para a tirania. Os primeiros defensores americanos do governo republicano também reconheceram o desafio que um líder corrupto podia representar para a democracia e acharam difícil criar instituições capazes de resistir a ele”.
Em meio a este momento trágico que temos vivido, ainda sem um horizonte que possa esperançar, acrescento o texto que complementa a capa do livro: “Como o autoritarismo seduz e as amizades são desfeitas em nome da política”.