Ulisses e as sereias (John William Waterhouse)
Participei de dois retiros espirituais promovidos pelo Opus Dei em São Paulo. Começaram na sexta-feira e se estenderam até o domingo à tarde. Até hoje sou grato pela oportunidade, que transformaria minha visão acerca da Igreja e lentamente me afastaria de um exibicionismo pretensamente intelectual, de fundo pessimista, misto de niilismo e laivos de gnosticismo, para me impulsionar na direção da fé que reconheço verdadeira.
A regra dos retiros era simples: não se podia conversar com ninguém, à exceção do sacerdote e de alguns colaboradores do retiro. O silêncio faz muito bem e só o quebrei ao me confessar, no sábado. Assistíamos a Santa Missa antes do café da manhã, depois vinham as pregações e nos momentos livres rezava e refletia, caminhando pela generosa área, muito bem cuidada, com árvores e recantos.
Nas duas oportunidades meu confessor foi um padre português, de sobrenome Teixeira. A confissão era precedida de um bate-papo, através do qual se percebia a sábia combinação de bom humor e rigor, como o faria um pai para filhos adultos em falta.
À época andava muito preocupado com as contas e padre Teixeira, dando um piparote no ar, asseverou que para Deus dinheiro não era nada. Pretendia apenas transmitir que ao persistir no bom combate profissional as oportunidades surgiriam e o esforço seria de alguma forma recompensado. Tenho ótimas recordações de suas pregações.
Num dos retiros um participante idoso repetidamente se antecipava nas orações da missa. Enquanto o grupo estava no “santificado seja o vosso nome” ele já recitava “assim na terra como no céu”. Não era um mero acaso. Aquele cidadão parecia tentar demonstrar que sabia mais e melhor que os demais, ou que tinha uma faísca adiantada … Já agastado, o celebrante não pôde ignorar. Chamou sua atenção, sem grande resultado.
Nas missas de domingo, na Igreja de São Bento, em São Paulo, um outro cidadão cometia uma inconveniência similar: atropelava o canto gregoriano do Miserere Nobis, rompendo o compasso, que é pura contenção do ímpeto, um mergulho nas águas do espírito. Quando todos entoavam “Agnus Dei” ele já iniciava “qui tollis peccata mundi”.
————– x ————–
A família de Galileu Galileu era complicada. Sua mãe era bipolar e depois de desancá-lo duramente como um nefelibata, porque não exercia atividade rentável, desmanchava-se em demonstrações de afeto. Seu pai, pequeno comerciante, cobrava de Galileu um rumo na vida.
Sem formação universitária, autodidata, genial, verbalmente violento e imprudente, ele tornou-se professor em Pisa. E nesta cidade, na famosa torre, já inclinada, realizou um experimento para comprovar que corpos com a mesma geometria, mas com massas diferentes, caíam ao mesmo tempo. Contou com a ajuda de alguns alunos e de ampulhetas para chegar ao Quod Erat Demonstrandum.
————– x ————–
As Cruzadas são quase sempre difundidas como sinônimo de um espírito de intolerância e de conquista. Será mesmo assim? O que terá movido Ricardo Coração de Leão, rei da Inglaterra, e Luís IX, rei da França, a tomar parte em Cruzadas? Teria sido pura ambição ou atos de grande dedicação religiosa?
Considero que meu conhecimento de História é muito pobre e por isto me agarro em livros para mitigar tamanho mal. Anos atrás comprei num sebo “História econômica e social da Idade Média”, de Henri Pirenne.
O livro aborda o domínio muçulmano do Mediterrâneo no século X: “Os piratas sarracenos infestavam, sem tréguas, o litoral do golfo de Lião, o estuário de Gênova, as costas da Toscana e as da Catalunha. Saquearam Pisa em 935 e em 1004, e destruíram Barcelona em 985”.
Pirenne relata que nesta mesma época os muçulmanos “estabeleceram nos Alpes, em Garde-Frainet, um posto militar, de onde exigiam resgate ou assassinavam os peregrinos e viajores que iam da França para a Itália. (…) Em 846, alguns bandos sarracenos avançaram até Roma e sitiaram o Castelo de Santo Ângelo”. Nestes anos os peregrinos que se dirigiam a Jerusalém seguiam pela Ilíria e pela Trácia ou cruzavam o Adriático com os barcos que atingiam Bari.
O comércio sofreu demais, mas Veneza deu-se bem, mantendo negócios com os muçulmanos, mas outras tantas cidades afundaram e a Europa regrediu ao estado agrícola e ao feudalismo.
Numa rápida pesquisa na rede mundial pode-se ler que as Cruzadas “foram expedições religiosas e militares, ocorridas entre os séculos XI e XIII, cujo principal objetivo era resgatar a Terra Santa, que estava sob o domínio islâmico, para os cristãos. O termo “cruzada” se refere à cruz que os cavaleiros usavam em suas roupas quando estavam em marcha da Europa até o Oriente. Uma das principais consequências das Cruzadas foi a retomada do comércio entre os europeus e os orientais”.
Por que toco neste tema? Abaixo revelarei a intenção, mas desde já, diante da realidade histórica, indago: por que as Cruzadas são tão difamadas?
————– x ————–
Tive oportunidade de entrevistar Olavo de Carvalho. Era uma quinta-feira e estava na Coréia do Sul quando sua secretária me informou que ele poderia me receber na segunda-feira. Estava no aeroporto de Seul quando recebi a notícia, que acolhi com alegria, afinal de contas estava embarcando para Nova Iorque. Na semana seguinte tinha compromisso marcado nas cercanias de Boston. Tudo casava, portanto, e a travessia aérea contemplou um sujeito feliz.
Pesquisei hotéis na Virgínia. Dormiria três noites e depois rumaria para o norte. Escolhi e reservei as noites de sábado e domingo. Dirigi até a pequena cidade do hotel, na sexta-feira, tão logo desembarquei no John Kennedy. O hotel era uma espelunca clássica, fincado numa região hostil. Velho, fedendo a nicotina, com uma recepção especializada em afugentar hóspedes.
Não havia vaga para a noite de sexta. Quando encontrei hotéis a alguns quilômetros dali, já passava das duas da manhã. Me recusei a pagar em torno de cem dólares para dormir quatro a cinco horas e acabei recostado no estacionamento de um deles.
No início da tarde ingressei na espelunca e me entreguei à leitura de alguns textos, concluindo “O reino da quantidade e os sinais dos tempos”, de Guénon, cuja essência pretendia abordar com meu entrevistado.
Àquela altura misturava minha experiência no Oriente Médio, onde um cristão caminha com o selo de novo cruzado na testa. A diplomacia pode negar, mas foi o que senti no contato com muçulmanos. Esta leitura de campo foi reforçada pela ousadia de Guénon.
Este francês, que seguiu o islamismo e é reconhecido como um dos mais importantes intelectuais do mundo islâmico, sugere na obra acima mencionada que o cristianismo pode ser salvo pelo Islã. Confesso que fiquei chocado com a pretensão e Olavo de Carvalho concordou com minha indignação.
Aliás, para não perder a oportunidade, informo, aos que não sabiam, que Olavo de Carvalho viveu seus últimos anos como católico praticante, depois de peripécias intelectuais, dentre as quais a participação numa tariqa. Off the record Olavo me disse que seus dias eram dedicados ao apostolado. Conheci muita gente em quase sete décadas de existência, mas ele foi seguramente um dos mais inteligentes e corajosos que conheci.
————– x ————–
Não quero marchar de passo errado, com o pé esquerdo no bumbo. Não quero acelerar o ramerrão, nem recitar estrofes da história triste do mundo antes mesmo de serem mal poetadas, mas devemos antever algumas consequências dos conflitos no Oriente. Para olhar um pouco à frente, de forma que possamos reagir a tempo.
Com reduzidas ilusões, já não tenho o arrebatamento da mocidade, mas posso compreendê-lo. E ao lembrar de frase que li em “A vida de Galileu”, de Zsolt Harsanyi, sequer recrimino a intemperança da juventude.
Num diálogo romanceado entre Galilei e o Marquês Guidobaldo Del Monte, o cientista falava com rompantes e lá pelas tantas afirmou que Aristóteles estava idiota quando se manifestou sobre a queda dos corpos.
O filósofo grego ocupava os píncaros da glória entre os intelectuais e a opinião manifestada, convenhamos, era pesada demais. Precisando do apoio do Marquês para suas pretensões, Galileu desculpou-se. O Marquês, entretanto, o desonerou de maiores preocupações ao responder:
– Detesto velhos violentos ou jovens prudentes, com a mesma aversão.
————– x ————–
Diante do acima exposto e dos conflitos endêmicos, como o que ora se desenrola entre Israel, EUA e o Irã, creio que mais cedo ou mais tarde teremos uma grande tribulação.
O sacrifício de cristãos na África – este continente do qual tanto esperamos para o reavivamento da fé, como exemplo para o mundo e particularmente para a Europa, descristianizados, e o rancor que só aumenta pelas armas,- é um prelúdio do que a Igreja padecerá.
Apodados de novos cruzados, o horizonte dos cristãos é negro.
O que fazer? Amarrar-se no mastro da barca de Pedro, como Ulisses o fez, na Odisséia, no mastro de seu navio.

