O Papa apelou a parar as guerras: durante as cerimónias da Páscoa, na alocução antes da bênção e numa curta declaração aos jornalistas em Castel Gandolfo. Neste momento de desconcerto generalizado e de temores cobardes, a Igreja resta talvez a única voz com coragem e credibilidade para apelar à paz.
Parece que a humanidade corre enlouquecida para a terceira guerra mundial. Surgem «operações militares especiais», pensadas para alcançar o triunfo em poucas horas, mas por vezes causadoras de conflitos que se prolongam indefinidamente. Os países mais fortes lançam novas guerras no mesmo dia em que garantem que não vão atacar. Até governos democraticamente eleitos mentem despudoradamente e cometem crimes contra populações indefesas. Apoderou-se dos responsáveis a vertigem do jogo de azar, em cartadas de alto risco, apostando tudo na ilusão de ganhar. A maioria dos países deseja a paz, mas tem medo de afrontar os poderosos e acabar vítima do seu capricho.
Inebriado com o golpe na Venezuela, que lhe abriu as portas de um importante fornecedor de petróleo, o Presidente norte-americano virou-se contra o Irão. Israel e os EUA já tinham bombardeado o país há uns meses, sob o pretexto de impedir a produção de armas nucleares, retomando a mentira das «armas de destruição maciça» usada para invadir o Iraque. Desta vez, acrescentando-lhe um detalhe infantil: as instalações estavam escondidas a 100 metros de profundidade — o que, se fosse verdade, os impossibilitaria de as detectar — e, depois, que as tinham bombardeado com sucesso total. Era evidente que tudo aquilo era rematada mentira, um pretexto ingénuo. De facto, uma bomba que chegasse a 100 metros de profundidade teria aberto uma cratera com quilómetros de diâmetro! Pouco tempo depois do tal «êxito completo», sem se preocuparem com mais incoerências, os EUA e Israel lançaram-se novamente contra o Irão, com o argumento de sempre, o perigo das armas nucleares.
Atingir os principais dirigentes iranianos foi fácil para quem tem satélites a observar pormenorizadamente o terreno e ataca de surpresa, sem declaração de guerra. A partir daí, esperava-se que alguns grupos rebeldes ou os países vizinhos aproveitassem o momento e talvez os tumultos internos derrubassem o Governo. Como a população iraniana, por mais insatisfeita que esteja com os seus próprios tiranos, se uniu contra o ataque estrangeiro, os bombardeamentos passaram a alvejar escolas, bairros e redes eléctricas, atingindo inclusivamente uma central eléctrica nuclear. Apesar da desproporção do arsenal bélico, o povo iraniano resistiu e, no auge da loucura, o Presidente norte-americano ameaçou-o de extermínio com bombas nucleares.
Foi perante esta ameaça que, na noite de terça-feira, 7 de Abril, o Papa concretizou os apelos dos dias anteriores e denunciou os planos norte-americanos como «inaceitáveis».
Numa declaração muito serena aos jornalistas, em italiano e depois em inglês, referiu que estão em jogo argumentos de direito internacional, mas, muito mais do que isso, há uma questão moral. Esta guerra, que muitos consideram injusta, está a provocar mais ódio em todo o mundo. É preciso ter presente o povo, sobretudo os mais frágeis, e pensar verdadeiramente, em tantos inocentes: em tantas crianças, em tantos idosos, totalmente inocentes.
Apelou também à população, para que faça ouvir os seus protestos juntos dos congressistas e dos políticos, dizendo-lhes que não querem a guerra, que são um povo de paz.
À última da hora, o Presidente norte-americano suspendeu temporariamente o plano de destruir o Irão, embora a situação continue crítica, não só nessa região como no Líbano, continuamente bombardeado por Israel.
Sem acreditarem em Deus, os actuais políticos israelitas inspiram-se no Antigo Testamento, que lêem como a sua epopeia nacionalista. Nalgumas passagens, por exemplo no livro do Génesis, fala-se poeticamente de domínios que se estendem do Rio até ao Mar (do rio Nilo até ao Mar Vermelho) e, com um realismo nada poético, o Governo israelita aposta que é capaz de concretizar esse sonho. Atacando a Palestina, a Síria, o Iraque, o Irão, o Líbano… estão convencidos de que ninguém os pode parar.
Talvez se enganem, porque o Papa pediu a todos os católicos para rezarem.
Especialmente no sábado, 11 de Abril. Mas não vamos parar.

