A verdadeira resistência

Em meio à desesperança com o rumo do país, eis que entra em cena a Copa do Mundo e os brasileiros reencontram uma nesga de sol na identidade futebolística. “Rumo ao équiça” numa pintura de rua torna-se instantaneamente motivo de troça quando deveria nos comover. Pobre povo, atraiçoado pelas instituições que deveriam protegê-lo, se fantasia na pátria de chuteiras e passa a torcer por mimados e marrentos que capturam sua atenção na esperança de que defenderão nossa honra como gladiadores.

O que seria de nossas vidas sem uma pitada de fantasia, sem sonhos na gaveta?

A sensação de que as instituições faliram por completo, ainda que exagerada, ainda que injusta, é fardo demasiado para o povo, que poderia rebelar-se, mas não o faz porque subestima sua força. Em seu imobilismo e impotência, não sabe a quem recorrer.

No tiroteio perverso da política entra em pauta, com fundo puramente eleitoral, a discussão sobre soberania e o debate entre rotos e rasgados passa a ocupar páginas e telas. Enquanto isto a criminalidade organizada avança de forma impressionante, buscando contaminar forças policiais e mesmo avançar em tribunais. O momento é crítico. Não há como negar o aluvião de escândalos. Não é mais balsâmico tergiversar, nem saudável iludir-se. Mas por isto mesmo o momento é propício para grandes mudanças e elas só serão efetivas se começarem pelos municípios.

Admiro os que não jogam a toalha e preservam a esperança de que é possível sanear o país, de que os tantos canalhas que exercem o poder haverão de passar, talvez mais depressa que imaginamos. Como escreveu um amigo, cuja acuidade é notável, a esperança é a grande resistência.

————– x ————–

Um dos exemplares mais patéticos da política sul-americana atende pelo nome Gustavo Petro, o mesmo que depois de participar de evento na ONU discursou com megafone numa praça de Nova Iorque, convocando o mundo para a formação de um exército maior que o dos Estados Unidos e sugerindo aos soldados norte-americanos que desobedeçam seu presidente. A par do estilo circense, havemos de reconhecer que sua ousadia é digna de nota, ainda que negativa.

Em sua coleção de polêmicas e bizarrices, fulgura sua defesa da legalização das drogas, particularmente da cocaína que, segundo ele, não é pior que whisky. Tem negado ligação com o narcotráfico, mas em 2023 seu filho, Nicolás Petro, “admitiu à promotoria ter recebido dinheiro do narcotráfico e usado parte desses recursos na campanha eleitoral presidencial de 2022”. (https://www.google.com/search?q=Petro+narcotr%C3%A1fico&sca_esv=4b04351323eb6a28&sxsrf=ANbL-n54m-z5EiqXw3BN6u8V66qjaRemEQ%3A1781096718891&source=hp&ei=DmEpasXdM9Cv1sQPu96LyQk&iflsig=AFdpzrgAAAAAailvHkdxLJMmWKEG0rcoh1ImbbUCVBlc&ved=0ahUKEwjFnPOp3vyUAxXQl5UCHTvvIpkQ4dUDCCQ&uact=5&oq=Petro+narcotr%C3%A1fico&gs_lp=Egdnd3Mtd2l6IhNQZXRybyBuYXJjb3Ryw6FmaWNvSJM0UABYmy1wAHgAkAEAmAGxAaABhxKqAQQwLjE4uAEDyAEA-AEBmAIIoAL9CMICChAjGIAEGIoFGCfCAgQQIxgnwgIREC4YgAQYigUYkQIYxwEY0QPCAgsQABiABBiKBRiRAsICChAAGIAEGIoFGEPCAgoQLhiABBiKBRhDwgIFEAAYgATCAgUQLhiABMICCxAuGIAEGMcBGNEDwgIREC4YxwEYkQIY0QMYgAQYigXCAgoQLhiABBgUGIcCwgIIEAAYgAQYywHCAggQLhjLARiABMICDhAuGIAEGMsBGMcBGNEDwgIIEC4YgAQYywHCAgoQABiABBjLARgKwgIKEC4YgAQYywEYCsICDhAuGK8BGMcBGMsBGIAEwgIKEAAYgAQYFBiHApgDAJIHAzAuOKAHjFqyBwMwLji4B_0IwgcFMC4yLjbIBx6ACAE&sclient=gws-wiz).

Petro integrou o Movimento 19 de Abril (M-19), de guerrilha urbana, que desmobilizou-se em 1990. Consta que nunca participou das FARC, que se mantiveram na luta armada até 2016. Não se define como comunista, mas como progressista e defende o fortalecimento do Estado na economia.

Petro apoia para sua sucessão Iván Cepeda, cujo pai, deputado da União Patriótica, partido que surgiu como braço político das FARC, e do Partido Comunista após os acordos do grupo guerrilheiro com o governo em 1984. Foi assassinado em 1994. Sua mãe, Yira Castro, foi líder comunista e faleceu em 1981.

Cepeda se proclama progressista no campo democrático. Ficou em segundo lugar no primeiro turno da eleição presidencial. O vencedor da primeira rodada, Abelardo de la Espriella, alvo de grupos armados e facções do narcotráfico, tem usado colete à prova de balas e passou a discursar com a proteção de uma cabine de vidro blindado. Não parece exagero midiático depois que dois membros de sua equipe de coordenação foram assassinados a tiros. Se um é ameaçado de morte e o outro não, parece clara a inclinação de quem ameaça. Mas o que isto tem a ver com o Brasil? Tudo, afinal Petro tem aliados em nosso país, que comungam de suas idéias. Sobretudo na satanização dos Estados Unidos.

————– x ————–

Por uma feliz coincidência, neste momento em que a Colômbia ou aprofunda o progressismo ou dá uma guinada conservadora, estou a ler “Não há silêncio que não termine”, de Ingrid Bettancourt, a candidata à presidência da Colômbia que foi sequestrada pelas FARC e permaneceu por quase sete anos como refém na selva.

Nos primeiros dias como sequestrada Ingrid preocupava-se com os pequenos confortos, mas repelia tais pensamentos, que poderiam interferir em sua luta pela liberdade. Nas páginas iniciais ela sintetiza o conflito que viveria:

Então pensava com meus botões que minha vida tinha sido fácil demais e que eu estava condicionada por uma educação em que o medo da mudança se escondia atrás de prescrições de prudência. Observava aquela gente jovem que me mantinha presa e não podia deixar de admirá-la. Não sentiam calor, não sentiam frio, nada os picava, mostravam uma notável habilidade em todas as atividades que exigiam força e flexibilidade e se deslocavam pela selva andando três vezes mais depressa que eu. O medo que eu deveria superar era feito de preconceitos de todo tipo. A primeira tentativa de fuga fracassara porque tive medo de morrer de sede, já que me proibira de beber a água marrom das poças que se espalhavam pelo chão. Agora, fazia meses que me exercitava em beber água barrenta do rio, para provar a mim mesma que sobreviveria aos parasitas que já deviam ter colonizado minha barriga”.

A dor ensina a gemer, diziam os antigos.

Mas o que isto tem a ver com o Brasil? Tudo, afinal as FARC, de orientação marxista-leninista, contam com apoio ideológico em nosso país, como revelou matéria jornalística em 2008:

Representantes das Farc já participaram em várias edições do Foro de São Paulo. Há muitos anos se sabe que o grupo tem ligações com o narcotráfico, vale-se de métodos desumanos de recrutamento e mantém centenas de pessoas sequestradas. Há poucos meses, no entanto, os detalhes desses crimes e a maneira atroz como os sequestrados são tratados vieram à tona e ficou impossível para quem apoiava as Farc negar os seus crimes. Nesse contexto, seria de esperar que o Foro de São Paulo se manifestasse de maneira contundente e inequívoca contra o grupo que já fez parte de suas fileiras. Não é o que está acontecendo”. (https://veja.abril.com.br/coluna/reinaldo/a-presenca-das-farc-no-foro-de-sao-paulo/).

Fundador e líder histórico das FARC, Manuel Marulanda teve ligações diretas com o Foro de São Paulo e na abertura da fundação do Foro sua carta foi lida (https://www.estadao.com.br/brasil/carta-de-lider-das-farc-abriu-foro-de-sao-paulo-em-1990-imp-/?srsltid=AfmBOop759W31GfgjEhpiz-MVyWka65zqaDobe4ve-LfZqVxyCnUASb0).

O discurso da esquerda latino-americana é sempre parecido, na linha do copiar-colar. Em “Cuadernos de Campaña” Marulanda se manifesta sobre soberania: “Defensa de la Soberanía Nacional mediante el desarrollo independiente de la economía colombiana. Electrificación e industrialización del país, especialmente en el sentido de construir la industria pesada para la fabricación de maquinaria. Defensa de la industria efectivamente nacional contra la desleal competencia extranjera. Fomento de la navegación mercantil, aérea, marítima y fluvial de carácter nacional”.

Discurso é discurso e pode até encantar, mas na prática o comunismo sempre termina em ditadura e pobreza.

————– x ————–

A simbologia e a semiótica são poderosas. Cajados, coroas e mantos instantaneamente nos transportam para significados. Numa das representações do Bom Pastor, Cristo leva nos ombros uma das ovelhas de seu rebanho, pela qual sacrificaria sua própria vida. Na Igreja há muita simbologia nas vestes, na liturgia e nos rituais.

Dias atrás fiquei sabendo que o pálio que o Papa utiliza simboliza a ovelha que o Bom Pastor carrega nos ombros. Uma pílula da beleza da sucessão apostólica.

Categorias

Colunistas