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Foi boto sinhô, foi boto sinhá

  • Abril 12, 2023
  • Cultura
  • José Rogério Licks

Ontem à tarde passamos por Borba e hoje, segundo dia de viagem, cruzamos pela foz do rio Aripuanã, que vem do Mato Grosso, com suas águas esverdeadas contrastando com as “brancas” do Madeira.

A largura do rio varia bastante, na foz é de vários quilômetros, não se vêm as margens.

Mas aqui, calculo que sejam uns 500 metros.

Um pouco antes de escurecer o barco diminuiu a velocidade e fomos ancorar à nossa esquerda, ou seja, margem direita do rio Madeira. Ao nos aproximar da margem buscando um lugar para pernoitar, passamos por uma praia de areias pretas coberta de borboletas amarelas. Laurindo me explicou que não são areias, é um depósito de limo que se forma quando as águas baixam, depois de uma inundação. A água deste rio carrega grande quantidade de materiais vegetais, que se acumulam ao longo do extenso percurso e se decompõem formando o limo preto.

Os espanhóis deram o nome de Rio de los Palos, devido aos muitos troncos arrancados das matas que flutuam nas águas. Pela mesma razão os portugueses o chamaram inicialmente de Rio das Madeiras.

Na luz do entardecer vimos três botos cor-de-rosa que vieram acompanhando o barco.

E Laurindo me falou do imaginário da gente amazônica em torno do boto.

“Nestas regiões se acredita que o boto-cor-de-rosa pode se transformar em gente. Isso acontece quase sempre nas festas juninas, quando as pessoas estão distraídas pelas fogueiras, foguetes, comidas e música das sanfonas. À noite, quando estão dançando, aparece um rapaz bonito, vestido de branco e sempre com um chapéu na cabeça, que ele nunca tira. É o boto que virou gente, mas a transformação não é  completa, no topo da cabeça ficou o buraco, onde estão as narinas, que o chapéu esconde.
O rapaz desconhecido dança muito bem, é muito cavalheiro e logo conquista  uma moça bonita e a leva para o fundo do rio…

Por isso, quando aparece um homem com chapéu nas festas, as pessoas pedem que ele o tire, para estarem certas de que não é um boto.

Quando uma mulher engravida, mas não sabe quem é o pai, então foi o boto.

E dizem que filho de boto não morre afogado, nem de mordida de cobra.

Em pequenos lugarejos da Amazônia é comum que registros de nascimento tenham como nome do pai da criança:

– Boto.”

O barco encostou, o motor silenciou e se ouviu a sinetinha do sr. Walfredo, anunciando que o jantar estava pronto.      A minúscula cozinha fica junto à popa, a estibordo. A singela mesinha de refeições, no espaço central, dá para quatro pessoas. Nos revezamos, primeiro comem o comandante, o prático, Totonho e o cozinheiro.

À luz do candeeiro puxei o violão e toquei a música do boto, que tinha aprendido em Belém.

 

Foi boto sinhá, foi boto sinhô

Que veio tentá e a moça levou

Aquele doutô no seu dançará

Foi boto sinhô, foi boto sinhá

 

(Escrevo deitado sobre os fardos, olhando os vaga-lumes fosforescendo na escuridão da mata.)
O Madeira nasce da junção dos rios Beni e Mamoré, que atravessam a Bolívia e são alimentados por vários rios menores. Mas o rio Beni  recebe as águas do caudaloso Madre de Dios, que nasce na cordilheira dos Andes, no Peru.

O rio cava em uma das margens, levando terra e deixando a margem mais alta e enxuta.

É o “barranco”.

Na outra margem o rio deposita, formando terras baixas, arenosas e alagadas com qualquer ascensão das águas.
É a “praia”, onde vivem os ribeirinhos.

Em toscas habitações de madeira, equilibradas sobre frágeis estacas e expostas às constantes inundações.

Quem tem alguma criação – galinhas, porcos, uma vaca – tem que criar sobre um estrado de madeira flutuante, a maromba, que é a versão em miniatura da Arca de Noé, no dilúvio amazônico.

Longas conversas com Laurindo, é mais ele quem fala, eu mais escuto.

No alto Amazonas a presença de peixes de água salgada sempre foi um mistério.

Além dos golfinhos, há tubarões, vários tipos de sardinhas, peixe-serra, linguado… E à medida que se aproxima da foz no Atlântico a ocorrência deles vai diminuindo. Devia ser o contrário… A explicação é simples.

Há milhões de anos a América do Sul estava unida à África, formando um único continente.

O rio que hoje é o Amazonas era muito mais longo, nascia no centro-norte da África e ia desaguar onde hoje é o oceano Pacífico, nas costas do Peru. Ao longo das eras se deu a partição do continente original, dando origem aos continentes africano e sul-americano. Isso se produziu por deslizamentos tectônicos, que provocaram a colisão da plataforma continental da América do Sul com a plataforma da crosta terrestre, no fundo do oceano Pacífico, dando nascimento à cordilheira dos Andes. A foz do rio Amazonas original, no Pacífico, foi obstruída e o imenso rio, pouco a pouco, inverteu o seu curso!

Quando isso aconteceu, uma boa quantidade de peixes de água salgada ficou retida atrás das novas montanhas, e com o tempo foram se adaptando.

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