Skip to content

Conto: Encontro de fim de ano

  • Dezembro 27, 2024
  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Fátima Fonseca

Escondida junto dos caixotes do lixo, à porta do movimentado restaurante da rua de Campolide, Elizabeth esperava ver o filho…era aquele o dia dos seus anos!

Pedro tinha uns invulgares olhos verdes iguaizinhos aos dela, sem tirar nem pôr… e sempre aquele mesmo olhar de espanto que dava nas vistas! Fazia dez anos naquele dia 31 de dezembro! E ela queria vê-lo pela última vez…

Ao assinar a declaração de entrega do filho para adopção, Elizabeth tinha- se comprometido a não mais voltar a procurá-lo, mas agora que pressentia a proximidade do seu fim, queria vê-lo, mesmo que à distância, uma última vez. Apesar de ser quase noite, usava óculos escuros e um lenço na cabeça, puxando uma franja para a testa e uns cabelos desgrenhados para a cara, para que ninguém notasse a flagrante semelhança entre os dois…vira- o de mão dada com a mãe adoptiva, atravessar a rua, enquanto o pai arrumava o carro.

Há muito tempo que Elizabeth os redescobrira e passava frequentemente à porta do prédio onde viviam ali na zona das Amoreiras. Em certa ocasião, o filho Pedro até pedira aos pais para lhe darem uma esmola…e fora ele próprio entregar-lhe o dinheiro na mão … Elizabeth de cabeça baixa agradecera…sem coragem para o olhar nos olhos … fazia de conta que era cega e assim ninguém lhe via os olhos verdes, grandes e sempre abertos como que espantados…

Sim, e tinha razão porque toda a sua vida só podia ser de espanto, admiração por tanta aventura vivida no seu corpo tão franzino, que aos 40 e poucos anos mais parecia uma velha de 60…

Elizabeth ficara órfã muito cedo. Nascida em Inglaterra, de pai português e mãe inglesa, fora institucionalizada por não ter família que a acolhesse… aos 16 anos começara a trabalhar. Por ser muito bonita, infelizmente logo choveram as piores ‘ofertas de trabalho’, que ela aceitara na ânsia de ser independente e sobreviver… em breve perceberia o seu enorme erro! Não era amada, era explorada por outros, usada por todos… e após o primeiro aborto, outros se seguiram… um dia, porém, um jovem pintor inglês, idealista e meio ‘hippie’, apaixonou- se por ela e ela por ele. Levou- a para longe, muito longe! Andaram por diferentes países, procurando algum trabalho… até que foram viver para a Colômbia; aí logo lhes ofereceram trabalho na agricultura, mas de repente estavam no cultivo de folhas de coca e caíram nas mãos de traficantes de cocaína que lhes prometeram mundos e fundos e surgiu a tentadora’ proposta’ de ‘dinheiro fácil’ que lhes poderia mudar a vida: correios de droga! Por que não???

Apesar dos perigos e riscos, a pobreza em que viviam e a ideia de que seria só uma vez e já ficariam capazes de sobreviver sozinhos e recomeçar a vida noutro país, levou-os a aceitar o desafio tão tentador… correu ‘bem’ da primeira vez, só mais uma… e foram duas vezes com sucesso, mas à terceira foram apanhados… ele no Brasil e ela em Portugal… levados para a prisão e separados para sempre… mas ela estava grávida e o Pedro nasceu… Depois, com ajuda de uma associação de apoio a mães solteiras e de uma artista de teatro que trabalhava nas prisões, Elizabeth saiu e encontrou acolhimento numa instituição. Porém, meses depois estava na rua, por causa da maldita droga… queria emendar- se, mas não conseguia…e a Segurança Social acabou por lhe retirar o bebé … foi um desgosto, mas Elizabeth, que agora vivia de prostituição, sabia que aquilo não era vida para o seu filho. Alguém o poderia amar melhor do que ela e dar-lhe não só carinho, mas muito melhores condições de vida… e entregou- o voluntariamente, quase com uma sensação de alívio. Do pai não mais tivera notícias…mas sabia como eram as prisões no Brasil…

Com fome, sede e frio, dias antes, Elizabeth caminhara ao acaso pelas ruas e em noite de Natal entrara na Basílica da Estrela, atraída pelas luzes e cânticos da Missa do Galo. Permanecera sentada na pedra fria a um canto, junto de um altar lateral. Ali ficara e algumas pessoas tinham-lhe dado esmola, discretamente, até dentro da igreja. Um casal chegara atrasado com uma criança pela mão e sentara-se no último banco. O menino ficou a olhar para ela e voltou- se várias vezes… ela reparou que ele estava sempre a pegar no braço do pai para ver as horas no seu relógio de pulso. Elizabeth sentiu o coração acelerar, levantou- se e devagar, sem ruído, aproximou- se e reconheceu- o de imediato pelos olhos verdes muito abertos de espanto…

Pelo rosto abaixo caíram-lhe grandes lágrimas… depois afastou- se e esperou à porta da igreja. À saída , Pedro olhou- a fixamente, lembrou – se que já alguma vez a vira e lhe dera dinheiro, e de novo pediu aos pais dinheiro para lhe dar… o pai deu- lhe uma nota de cinco euros, mas Pedro, sem que os pais dessem conta meteu a mão no bolso e aos cinco euros juntou a nota de vinte que o padrinho lhe dera para comprar alguma coisa que ele gostasse… aproximando- se de Elizabeth, meteu- lhe as notas na mão. Elizabeth inclinou- se de imediato e beijou- lhe a mão…sem dizer uma palavra, tão comovida ficara…

Agora, naquele dia, à porta do restaurante, Elizabeth ia olhando pelos vidros e apercebeu- se de que o almoço estava a chegar ao fim. Viu-os levantarem- se da mesa e beijarem- se, encaminhando- se para a porta.

Do saco de plástico velho que trazia consigo, Elizabeth retirou um presente bem embrulhado… e quando o menino ia a passar junto dela, levantou- se, tocou-lhe ao de leve no braço e disse apenas: – ‘Pedrinho, muitos parabéns! Toma um presente! És lindo! Deus te guarde! Sê sempre um bom menino como agora, desejo-te muitas felicidades e aos teus pais também!’

Depois partiu a toda a pressa, sem se voltar para trás uma única vez e dobrou a esquina da rua, deixando o casal e a criança estupefactos…

Pedrinho abriu o embrulho e cheio de espanto, viu o relógio que tanto desejava…

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Afonso Licks

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9