Era dia 8 de Fevereiro do ano da graça de 2026. Portugal estava a afundar-se, não só em consequência de algumas calamitosas estratégias políticas, cuja engenharia social não estava a ser muito transparente, virtuosa ou ética, mas porque um arremesso climático alagou o País, já de si tão fragilizado, enfraquecido, dividido e esmorecido pelos atropelos políticos oriundos de outras forças, outras decisões, outras pressões que, nas últimas décadas, nos têm vindo a assolar.
“A depressão Kristin causou um rasto de destruição em Portugal, resultando em mortes e mais de 4180 ocorrências. A tempestade provocou quedas de árvores, de estruturas, de casas, falhas de eletricidade e inundações, afectando especialmente o Centro de Portugal. O governo anunciou um pacote de apoios de até 2.500 milhões de euros para reconstrução, intervenções urgentes e criação de estruturas de missão para a recuperação das zonas afetadas”.
Não obstante este estado de destruição e alagamento do País, manteve-se a data inicialmente marcada, dia 8 de Fevereiro, para a 2ª volta das eleições presidências, embora não oferecendo a garantia de se poder efectuar em todos os distritos.
Era grande o sofrimento humano, o horror de se verem privados de água, electricidade, alimentos, muitos com as suas casas destruídas, tal como os seus negócios, os seus campos, a agricultura, o gado, um nunca mais acabar de dificuldades e necessidades inerentes às próprias vidas, ainda em estado de choque. Mas foi “imperioso” ir a votos, “dura lex, sed lex”…
Foram, são muitas as palavras, as opiniões, as análises, tudo já foi dito e repetido e o seu contrário também. Normal numa Democracia, embora, algumas vezes, se tenha usado e abusado de alguns termos menos próprios, pouco elegantes, ou mesmo, vexatórios.
Um facto é que no nosso cenário político há décadas instalado apareceu um “Enfant terrible”, o que, naturalmente, faz tremer algumas estruturas ideológicas, que se consideravam fortemente apoiadas e protegidas pelos seus pares aquém e além colocados em lugares estratégicos do poder.
O Webster’s Dictionary também define um enfant terrible como uma pessoa que geralmente tem sucesso, e que é fortemente não ortodoxo, inovador ou de vanguarda.
Esta expressão francesa foi cunhada por Thomas Jefferson e pode ter nalguns casos a definição de alguém que ousa dizer coisas embaraçosas ou verdades inconvenientes aos adultos.
Noutros casos e para o que aqui interessa em particular, é aplicada para definir uma pessoa inovadora, contestatária e inoportuna, perante algumas das normas da sociedade ou algum status quo na política, muito instalada e protegida pelos seus pares.
Quase sempre, a expressão carrega uma conotação positiva, por se tratar de alguém “avant-garde” e cuja razão, mais cedo ou mais tarde, lhe acaba por ser reconhecida.
Thomas Jefferson, um dos pais fundadores dos Estados Unidos, utilizou o termo “enfant terrible” para descrever Pierre Charles L’Enfant, o arquitecto e engenheiro civil francês, que idealizou a nova capital federal dos Estados Unidos. Na sua obra “A Declaração da Independência”, mencionou-o como um “enfant terrible” que, embora obstinado e pouco ortodoxo, contribuiu significativamente para o desenvolvimento de Washington. O termo, portanto, carrega uma conotação positiva, referindo-se a alguém inovador e avant-garde, cuja razão lhe será posteriormente reconhecida.
E porque nem só de política vive o homem, numa livre associação de ideias, apraz-me transcrever uma passagem relacionada com o dia em questão, com eleições, depressões, sobressaltos, emoções e algumas, muitas, reflexões.
(…) Um olhar à nossa volta é suficiente para vermos que, hoje em dia, é como se os homens houvessem perdido o sal e a luz de Cristo. “A vida civil encontra-se marcada pelas consequências das ideologias secularizadas, que vão da negação de Deus ou da limitação da liberdade religiosa à preponderante importância atribuída ao êxito económico em detrimento dos valores humanos do trabalho e da produção; do materialismo e do hedonismo – que atacam os valores da família numerosa e unida, os da vida recém-concebida e os da tutela moral da juventude – a um `niilismo´ que desarma a vontade perante problemas cruciais `como os dos novos pobres, dos emigrantes, das minorias étnicas e religiosas, do reto uso dos meios de informação´, enquanto arma as mãos do terrorismo. Há muitos males que derivam do abandono por parte de batizados e fiéis das razões profundas da sua fé e do vigor doutrinal e moral dessa visão cristã da vida que garante o equilíbrio às pessoas e às comunidades» `Chegou-se a esta situação pelo cúmulo de omissões de tantos cristãos que não foram sal e luz como o Senhor pediu´.*
*(Quinto Domingo do tempo Comum, Ciclo A – FALAR COM DEUS)