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O líder

  • Junho 13, 2022
  • Religião
  • José Maria C. da Silva André

É difícil encontrar um líder, mas quando temos a sorte de encontrar alguém assim, não restam dúvidas. O Padre João Seabra reconhecia-se à distância.

A liderança dos cabos de guerra é a mais fácil, a do herói militar que galvaniza a tropa até rasgos de heroísmo em que os indivíduos esquecem os perigos da luta.

Gerar à volta liberdade interior, projectos autónomos, personalidades únicas, é um outro nível de liderança, porque é uma liderança paradoxal. O Padre João era assim, descobria protagonistas, suscitava iniciativa e imaginação criadora. Ele próprio, numa entrevista à rádio, tirava mérito à sua acção dizendo uma coisa bem verdadeira: «Sou um padre prático, sempre fui. O que eu fiz foi acompanhar (…) e o que se gerou à minha roda não fui eu que gerei, regra geral foi feito pelos outros». É isto. Descobrir talentos, abraçar cada pessoa, ajudá-a a dar o melhor de si mesma. Liderar sem protagonismo, promover protagonistas.

Muitíssima gente se sente ligada ao Padre João, em variados âmbitos. Porque foi durante muitos anos o carismático capelão da Universidade Católica, um professor brilhante, porque acompanhou durante uma década as equipas de casais de Nossa Senhora, sobretudo porque trouxe para Portugal o movimento Comunhão e Libertação e esteve na origem de uma rede de colégios excelentes na cidade de Lisboa, e ainda pelas suas intervenções públicas, pela sua acção como pároco, etc. Cada um destes capítulos mereceria um livro.

O Padre João vivia rodeado de multidões, onde quer que estivesse, mas tratava cada indivíduo pelo nome e dirigia-se a cada um de maneira diferente. Evidentemente, tinha uma memória fabulosa! Sobretudo, conhecia as particularidades de cada vida e respeitava essa singularidade. A memória ajudava-o, ainda que conhecesse as pessoas para além disso, fruto de uma empatia profunda com cada um, que se prolongava na relação com Deus.

Este último aspecto explica a razão de não se juntarem personalidades iguais, à volta dele. É um facto. Cada um reagia de maneira diferente e avançava na vida por caminhos diferentes. Saboreava-se a liberdade. A dado momento, a diversidade poderia parecer contraditória, mas o Padre João sabia que há lugar para todos no plano de Deus. Também é verdade que Deus lhe deu uns dons invulgares de inteligência e de cultura, que o predispunham a apreciar todo o espectro da riqueza humana e da graça, contudo, em última instância, havia nele a atitude de quem confia nas pessoas e reconhece que Deus sabe mais.

Muitos intelectuais, que concebiam o cristianismo como uma ausência de novidade, foram apanhados de surpresa pelo Padre João e converteram-se. São bastantes os casos conhecidos e muitos mais os pequenos episódios que mudaram vidas. No livro «Não sou dono da verdade, mas sou possuído por ela», estão lá 70 testemunhos a ilustrar pequenas e grandes conversões de pessoas que se cruzaram com o Padre João. O título do livro é um dos aforismos célebres do homenageado, como aquela outra frase de uma sua homilia: «Os nossos olhos vêem e os nossos ouvidos ouvem o que muitos profetas desejaram ver e não viram. Por isso, diante da vida, cada um de nós tem uma responsabilidade, porque vimos uma coisa verdadeira e ouvimos uma palavra que mudou a nossa vida. A novidade absoluta só existe em Jesus».

Sentia-se no Padre João o orgulho de ser cristão, um enorme contentamento por conhecer Jesus e pertencer à Igreja. Esta alegria, que não tinha nada de agressivo, era fé e gratidão pelo dom maravilhoso da Igreja e também o desejo de confrontar todos com a beleza de Deus, para que abrissem a inteligência e o coração ao melhor, ao mais grandioso. As pessoas surpreendiam-se com a segurança e a firmeza do Padre João, mas sentiam-se acolhidas, porque ele próprio não se considerava dono da verdade, era um «sortudo» que desejava partilhar com todos o bem recebido.

Ausência de novidade no cristianismo? Nada! O Padre João era a demonstração viva. Surpreendia continuamente. Também pelo seu humor repentista e o carisma com que deixava o interlocutor a pensar numa pergunta nova, destas que marcam definitivamente, não se esgotam e ajudam a crescer.

Este fascínio de novidade é indissociável do impacto de Luigi Giussani, Fundador do Comunhão e Libertação, na vida de João Seabra. Descobriu na santidade de Giussani o desafio a que Deus o chamava. Foi um suave deslumbramento inesperado, arrebatador, íntimo, um convite à liberdade. Deu-se conta e respondeu. E Deus abençoou a sua vida com bênçãos de fecundidade.

O padre João Seabra morreu no dia 3 de Maio, doente de Parkinson, com 72 anos de uma vida plena.

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