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Por onde começar?

  • Junho 17, 2022
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Com viagem marcada e guarda-roupa empobrecido, saí atrás de pelo menos uma calça. Lojas e mais lojas, todas têm o mesmo figurino: calças apertadas, com boca dificultosa para pés 42 ou maiores. Uma ditadura de mau gosto, em sarja ou jeans. Ariano Suassuna possivelmente escreveria como djins, o que me faz lembrar de uma brincadeira do autor de Herege, segundo o qual as bandas cover cantavam assim:

                                       Onli-ú

                                       Ken meiqui au dãs urold sim ráit

                                       Onli-ú

                                       Ken meiqui dê darquinés braiti …

Não encontrei calças que possa reputar como elegantes. Na última loja o vendedor disse que além de terem boca estreita, são cada vez mais curtas. Com sapatos – pior ainda se forem do tipo bico fino,- não lembram o modelito dos palhaços? Sei não, há muito desconfio que estamos no picadeiro.

Por falar em circo, a lona no Brasil segue armada: tem malabarista, engolidor de espadas da lei, homem bala, palhaços dispostos a atear fogo no circo e até mulher barbada. E volta e meia ressurge o desconsolo com a decisão pregressa de não produzirmos armas nucleares. O país subscreveu um tratado de não proliferação. Os que defendem a ruptura com este compromisso argumentam que possuir tais armas de destruição em massa é garantia de dissuasão. Seria como uma arma atrás da porta: não precisa atirar, basta que o inimigo saiba que ela está à mão para que balanceie a situação, refaça as contas, avalie os danos e refreie seus intentos.

Confesso que já oscilei a respeito deste tema. Já fui a favor da bomba, mas relegara o tema ao esquecimento. Até que um filme indiano, Parmanu, com atores um tanto bregas, reavivou minhas reflexões. Os indianos tiveram de engambelar os norte-americanos e sua vigilância com satélites para promover o seu teste nuclear, que colocou a Índia entre as potências atômicas. A crer no filme, é de tirar o chapéu para a ousadia e sagacidade daquele país, cujo projeto nuclear teve o segredo como alicerce.

Quis a sorte que meses depois de assistir Parmanu começasse a ler “O diário de Hiroshima”, de Michihiko Hachiya, médico sobrevivente da hecatombe, que venceu os ferimentos e legou aos homens um texto depois do qual não posso mais defender armas nucleares no Brasil ou algures. Além de relatar a ruína de inúmeros sobreviventes – que além de queimados tinham o sangue carente de glóbulos brancos e plaquetas alteradas,- Hachiya descreve alguns momentos patéticos, como a reação das pessoas com a transmissão radiofônica em que o Imperador anunciou a derrota: “Uma só palavra – rendição – havia causado uma impressão mais forte que o bombardeio da nossa cidade. Quanto mais pensava, mais infeliz e miserável me sentia. (…) A todos na sala nos preocupava o que aconteceria ao Imperador; eu sentia uma pena profunda ao pensar nele. Deslizei da cama, subi ao terraço e, inclinando-me ao leste, rezei pelo nosso Imperador”.

A propósito da desgraça que sucedeu a explosão, o diretor do programa de armas atômicas, Julius Oppenheimer, confessou seu arrependimento ao presidente Truman: “Eu tenho sangue nas mãos”. Truman determinou à sua secretária que nunca mais agendasse encontros com o cientista. O piloto do Enola Gay, Paul Tibbets, disse que “não podemos olhar para os aspectos sombrios do que fizemos, porque não há moralidade na guerra, então eu não fico remoendo as questões morais”. E garantiu que não perdera sequer uma noite de sono por conta do episódio.

No rés do chão, às 8h15min, uma cidade era devastada. Para os que não creem em milagres, recomendo a leitura de “O rosário de Hiroshima”, de Hubert Shiffer, um dos quatro jesuítas que sobreviveram em Hiroshima, sem qualquer sequela. A igreja da Assunção de Nossa Senhora estava a apenas oito quarteirões do epicentro da explosão. Shiffer revoluteou como uma folha ao vento. Sacerdotes de uma minoria religiosa no Japão, terra catequizada pelo mártir São Francisco Xavier, os quatro jesuítas atribuíram sua salvação ao terço e sua devoção por Fátima.

Homens como Truman e Tibbets não nos devem desencorajar. Porque o sentimento de humanidade ainda predomina entre os filhos de Eva. O lançamento da bomba em Hiroshima contou com o apoio de uma aeronave de reconhecimento climático, para escolha da cidade a ser destruída. Seu piloto, Claude Eatherly, viveu sob intenso drama de consciência, que o levaria a pequenos delitos e depois a um hospital psiquiátrico. Sua expiação se deu através de trocas epistolares com o filósofo alemão Günther Andres, condensadas na obra “Burning conscience”. Este livro é um tiro de misericórdia na crença de que depois da imposição de excruciantes sofrimentos aos outros, é só lavar as mãos e tudo estará bem.

———————- x ———————-

Enquanto insistirmos que o nosso maior inimigo é externo, não avançaremos. Enquanto, volta e meia, atribuirmos a uma bomba atômica a salvação da lavoura, não teremos amadurecido nossa consciência de nação. Há quem identifique na nossa carência de mitos fundadores a causa de tudo. Por certo que tem lá sua influência, afinal nos esculachamos tanto quanto nos é possível. O Descobrimento, a colonização, a vinda da família real em 1808, o Império, D.Pedro II, a Guerra do Paraguai, a extinção tardia da escravidão e o golpe da república, tudo parece exalar mau hálito, o que certamente constitui uma visão caolha.

 

O bombardeio em nossas origens, em nosso passado, em nossos próceres, foi tamanho que nossa história por vezes parece Hiroshima às 8h16min do dia 6 de agosto de 1945. E não temos, para bem e para o mal, um Hirohito para nos lembrar que somos um povo, ainda que derrotado.

Precisamos refundar o país, mesmo que de uma forma que mal se perceba. Não é possível que as invasões superadas, como a holandesa, as refregas mitigadas, como Canudos, a Revolução Farroupilha e a paulista de 32 não nos convençam de que nosso destino nos aguarda, desde que percebamos a presença da radioatividade cultural, emitida pelo urânio da cizânia.

A extinção dos privilégios indecentes nos poderes da república, uma previdência social única e os olhos num horizonte  coeso são, a meu ver, as pedras angulares para o novo edifício. A autoestima crescerá naturalmente e as plasmadas boçalidade e injustiça dos “doutô” diminuirão.

Quando nossa “elite” aceitar que é brasileira, que é filha de um sertão do mundo e deixar de se meter a besta, trilharemos caminhos melhores, como aqueles abertos por Catulo da Paixão:

Poeta eu sô sem sê dotô

Sou sertanejo

Eu sô fio lá dus brejo

Du sertão do Aracati

As minha trova

Nasce d´arma sem trabaio

Cumo nasce na coresma

Nu seu gaio a frô de Abri

 

Educação, combate à corrupção e demais pontos cruciais na vida de um país virão depois do alicerce. Quem sabe até com a volta das calças elegantes.

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