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Um balde de água fria

  • Setembro 2, 2022
  • Religião
  • José Maria C. da Silva André

Nas últimas semanas, as notícias que chegavam da Rússia transbordavam de esperança. A aversão da Igreja ortodoxa contra os católicos estava a dissipar-se, o Papa ia encontrar-se com o Patriarca de Moscovo, a guerra na Ucrânia podia acabar.

Tradicionalmente, os russos associam os dirigentes católicos a colaboradores dos magnates norte-americanos que odeiam a Rússia, mas essa opinião está a mudar. Quando numerosos cristãos ortodoxos foram raptados pelo ISIS na Síria, o Papa foi a única voz internacional que não se calou até eles serem libertados. Esse gesto passou desapercebido no mundo ocidental, mas representou muito para os russos. Mais recentemente, quando os ortodoxos ucranianos se separaram de Moscovo, a Igreja católica não aproveitou para negociar uma conversão colectiva ao catolicismo e, mais uma vez, isso caiu bem entre os ortodoxos de ambos os lados. Finalmente, constataram que a Igreja deseja sinceramente a paz e não a aniquilação da Rússia. Todos estes factores faziam pensar que o VII Congresso dos Líderes das Religiões Mundiais, de 14 a 15 de Setembro, no Cazaquistão, para promover a paz, seria uma excelente oportunidade de diálogo do Patriarca russo com o Papa. Apesar das dores agudas no joelho, Francisco garantiu que ia ao Cazaquistão e que queria falar com o Patriarca.

Do lado russo, as circunstâncias pareciam facilitar o encontro e o número dois da Igreja ortodoxa deslocou-se ao Vaticano para acertar os pormenores.

Boa parte da sociedade russa ainda está convencida de que os magnates norte-americanos dominam o mundo ocidental. Graças à sua imensa fortuna, controlam toda a comunicação social, a ponto de enganarem o povo, que julga viver em democracia e escolher livremente os seus líderes, quando afinal são os tais magnates que decidem tudo, na sombra. Esta narrativa sobreviveu à ditadura soviética e ainda hoje é largamente aceite, porque todos os dias chegam aos russos factos que a comprovam: coitado do povo dos EUA, escravizado por magnatas tão poderosos!

É por causa desta narrativa que muitos russos estão agradecidos a Putin por ter invadido a Crimeia em 2014, antecipando-se ao plano dos magnates norte-americanos, que se preparavam para atacar a Rússia a partir de lá, para começarem a terceira guerra mundial. O mesmo voltou a acontecer agora. As forças dos magnates norte-americanos já dominavam a Ucrânia e estavam a ponto de se lançar contra a Rússia, quando Putin interveio, para salvar os ucranianos e a Rússia. O Patriarca ortodoxo de Moscovo aclamou Putin como «um milagre de Deus» e declarou que Deus inspirava esta guerra.

No entanto, os militares russos que lutam na Ucrânia estão a levar notícias perturbantes às suas famílias. Incompreensivelmente, os ucranianos, em vez de agradecerem aos russos a generosidade de os salvarem, atacam-nos! E, em face desta reacção injusta e ingrata, os exércitos russos não se contêm e estão a vingar-se nas cidades e na população, com uma crueldade assustadora. Alguns russos desculpam esta atitude do seu exército, mas grande parte do povo russo, que ao princípio reconheceu a necessidade de lutar contra os magnates norte-americanos, já não concorda com o que a Rússia está a fazer na Ucrânia.

No início da guerra, no estádio de Luzhniki, Putin alimentou o fervor religioso do seu exército aplicando aos soldados uma frase de Cristo, do Evangelho de S. João: «não há maior amor do que alguém dar a vida pelos seus amigos». Hoje, a opinião pública russa já não acompanha estas devoções bélicas e a popularidade do Patriarca Ortodoxo de Moscovo está tão em baixo que ele prefere quase não sair de casa.

Por outro lado, até há pouco tempo, a maioria dos súbditos do Patriarcado de Moscovo eram ucranianos, porque os cristãos ucranianos resistiram heroicamente à perseguição comunista, enquanto bastantes russos cederam e abandonaram a prática religiosa. Por esta razão histórica, o Patriarcado de Moscovo perdeu metade das suas paróquias quando os ortodoxos ucranianos decidiram passar a depender do Patriarcado de Constantinopla. Também este revés favorecia que o Patriarca de Moscovo se abrisse ao diálogo.

Infelizmente, no dia 24 de Agosto a esperança gorou-se. Um porta-voz anunciou que o Patriarca desistiu de ir ao Cazaquistão.

A guerra prossegue, com milhões de refugiados e milhares de mortos. Uma guerra que, como afirmava a Santa Sé num comunicado há poucos dias, «é moralmente injusta, inaceitável, bárbara, sem sentido, repugnante e sacrílega».

O povo russo terá coragem de acabar com ela?

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