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Alexander Borodin

  • Setembro 16, 2022
  • Religião
  • José Maria C. da Silva André

Fórum dos líderes religiosos no Cazaquistão

 

O poema sinfónico «Nas estepes da Ásia Central» é uma das peças mais célebres de Alexander Borodin e também uma das obras mais descritivas e simbólicas da história da música. Temos a sensação de contemplar a imensidão da estepe, cruzada por uma caravana que avança, com passo majestoso, de um extremo ao outro do horizonte.

Uma melodia longínqua, primeiro no clarinete, depois na trompa, avança cadenciadamente sobre uma planície, traçada por uma única nota de fundo, sustentada pelos violinos. A caravana começa quase indistinta e concretiza-se, com motivos cada vez mais fortes, mais ricos e variados, à medida que se aproxima de nós. Fechamos os olhos e julgamos sentir os solavancos das rodas na aspereza da estrada, o baloiçar da carga, o movimento das pessoas e dos animais. Sempre ao mesmo ritmo, a caravana começa a afastar-se, avançando pela estepe. Aos poucos, as harmonias fundem-se, os sons ecoam naquele espaço infinito, perdem-se na longura. Quando o poema acaba, seríamos capazes de descrever aquela paisagem extraordinária.

Ao ouvir esta música, a minha imaginação de criança pensava em povos nómadas, viajando pacificamente em carros de bois por estradas de terra, respirando o ar da Primavera e saboreando a grandeza do espaço. Depois, aprendi que este poema foi escrito para celebrar patrioticamente os 25 anos do Czar Alexandre II (1880) e que simboliza o avançar poderoso do império russo, atravessando um mundo de beleza infinita. Lamento terem-me informado, preferia não saber.

Em qualquer caso, foi este o imenso Cazaquistão, habitado hoje por inesperadas cidades de arquitectura futurista, que o Papa Francisco visitou de 13 a 15 de Setembro. Reuniu-se com os líderes religiosos mundiais e conviveu com os cristãos e com muitos muçulmanos do país que também o quiseram ver e ouvir. As conclusões do congresso sublinharam que respeitar e amar Deus é o caminho para alcançar a paz entre os homens. A catequese do Papa, em encontros e homilias, abordou muitos temas, principalmente relacionados com a vida cristã e a responsabilidade evangelizadora da pequena comunidade católica do Cazaquistão.

Aquele território remoto acolheu a catequese do Papa com a frescura de quem recebe um anúncio jubiloso, que vale a pena ouvir. Paradoxalmente, o mundo ocidental reagiu ao contrário, com desinteresse, com cansaço. A generalidade da comunicação social europeia nem deu conta do que o Papa disse, apesar de algumas mensagens importantes serem dirigidas especificamente a este continente exausto, sem força para ouvir falar de Cristo.

No avião de regresso a Roma, Francisco falou aos jornalistas dos caminhos errados do Ocidente, da falta de ideais mais generosos, do desprezo pela vida das pessoas, do «Inverno demográfico», da decadência dos costumes. Um jornalista concretiza: «e acerca da eutanásia?…». A resposta foi fulminante e clara:

— «Matar não é humano. Sim, matas com motivações… no final, matas cada vez mais e mais. Deixemos o matar para os animais selvagens».

Fazia falta que alguém ouvisse isto em Portugal.

Falou-se das perseguições na Nicarágua, que expulsou o Núncio, as Irmãs da Madre Teresa de Calcutá e mantém bispos presos; das perseguições noutros países da América latina; das loucuras da China, que se prepara para julgar o Cardeal chinês Zen por ter protestado contra a falta de liberdade no seu país; falou-se da guerra na Ucrânia, das lutas entre o Azerbaijão e a Arménia, da guerra interminável da Síria, das perseguições no Norte de Moçambique, na Eritreia, na Etiópia, do povo Rohingya… Falou-se também das derivas da igreja alemã, onde alguns bispos se perdem em construções ideológicas, em vez de serem pastores no meio do seu povo.

Teria valido a pena a comunicação social prestar atenção.

O poema sinfónico de Borodin continua a embalar as minhas divagações pelo meio da natureza deslumbrante que Deus ofereceu aos homens. Por vezes, a caravana pacífica esconde um exército invasor, embora —por mais surpresas que haja na vida— a última palavra pertença a Deus, mesmo quando não queremos ouvir.

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