Skip to content

Falares tribais e leituras em voz alta para grupos

  • Novembro 16, 2022
  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Padre Aires Gameiro

Hoje escrevo para os leitores anónimos de leituras em voz alta, em grupos e espaços médio-grandes, com e sem aparelhagem de som. Não sei se os leitores já sabiam que o dia 1 de fevereiro é o “Dia mundial da leitura em voz alta” da EuRead, a qual nos vem dizer que mais de 73 milhões de europeus são limitados a ler em voz alta e que é preciso treinar esta capacidade. Na 3ª e 4ª classe tive a sorte de me treinar a ler a história de Robinson Crusoe à luz da candeia para a minha família que não dispensava cada episódio semanal do Amigo do Povo.

Vivemos em tempo de informação multifacetada, de muita comunicação, dizem, mas talvez não tanto de compreensão do que se fala, lê, anuncia e escreve. Os que trabalham com mensagens orais de locução, por rádio, TV, salas de cultura e tertúlias, mediadas por diversas máquinas e ambientes ruidosos e cheios de ecos cruzados nem sempre se apercebem que não são ouvidos com clareza e menos ainda compreendidos por deficiências de quem lê ou fala. Serão mais problemas de emissor, de recetor ou de meios?

É um prazer ouvir, desejar entender e entender bem, e uma frustração quando a clareza deixa a desejar. Convém ter presente que muitos dos que se culturalizam são já idosos e alguns com limitações de audição; e que os novos dedilham mais que leem bem para os ouvintes. Nem nos parece que as publicidades enganosas de máquinas auditivas ajudem muito os idosos. Os que vão experimentando dizem que podem aumentar o problema. A diferença está na boa pronúncia das palavras até à última sílaba e o cuidado em destacar as palavras e cada som de forma correta. Falta treino de dicção, termo quase em desuso, em muitas escolas na leitura de sílabas e sons bem articulados em voz alta para o grupo todo com provas de receção e compreensão. Seria fundamental haver aulas de fonética e dicção do português.

Recordo como na aprendizagem do inglês e francês os professores insistiam nos alfabéticos fonéticos e nos exames em que o estudante lia um texto desconhecido do professor o qual dava a nota de acordo com o que compreendesse. Num curso de fonética na universidade de Londres incluía-se o ditado com escrita em alfabeto fonético. Também insistiam nalgum dos falares modelo (the British accent da BBC;l parler parisien). Será que em português há algum falar modelo? Penso que os que nunca saíram das periferias têm mais dificuldade em se aperceber do seu falar diferente do português standard.

O uso das redes não ajuda muito a melhorar o que a escola e a família não dão; nas redes formam-se cada vez mais tribus linguísticas, de corruptelas e calão tribal. Vivemos nas modas de falares secretos e cochichos. Será que a falta de dicção na fala e na leitura vão transformar a comunicação em babel incompreensível? Ler, falar declamar em voz alta para os outros não é o mesmo que ler para si ou falar para a pessoa ao lado. Articular e pronunciar de forma clara, correta, bem modulada, precisa de ser aprendido. Aquele que fala com boa dicção não cansa os ouvintes, torna-se compreensível e persuade com clareza. Isso só se consegue com treino metódico e corregido.

No número dos que precisam de melhorar a sua leitura estão os que leem nas igrejas em que a leitura declamada tem de ser modelar. Não basta o micro e os altifalantes. Tanto mais que a acústica de muitas igrejas modernas não ajuda nada. Também não ajuda se a pessoa não entende o que lê, não liga a mente com o significado das palavras, não respeita o ritmo, não faz as pausas para respirar bem; pior se lê com pressa e ansiedade de chegar ao fim, como alguns locutores. Ler bem já explica o sentido e pede atenção ao ouvinte para ouvir com prazer. De contrário desliga a atenção.

Afinal, “leitura em voz alta” não é qualquer maneira de ler; é ler, compreender e fazer entender a grupos em espaços médios e grandes; por leitores jovens e adultos treinados na dicção e declamação.

Funchal, Novembro de 2022

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9