Skip to content

Ulmowie, uma família inteira

  • Setembro 9, 2023
  • Cultura
  • José Maria C. da Silva André

A mãe, Wiktoria, fotografada pelo marido.

 

Os apelidos polacos têm muitas flexões, conforme se aplicam ao marido, ou à mulher, ou à família inteira. Escrevendo em português, podemos ficar com a raiz do nome, que é Ulm, sem distinguir entre os vários elementos da família ou o seu apelido conjunto, Ulmowie.

Este Domingo, 10 de Setembro, em Markowa, na Polónia, vai dar-se pela primeira vez na história a beatificação de uma família inteira, pais e filhos, incluindo um bebé não nascido.

A família Ulm com os primeiros cinco filhos.

 

Este facto tem grande significado porque, em geral, cada pessoa santifica-se, ou condena-se, por aquilo que faz, independentemente dos que a rodeiam, e por isso cada santo também é canonizado individualmente. Salvo as crianças, que têm um estatuto especial.

Embora vivessem numa grande aldeia da Polónia, Józef e Wiktoria tinham estudos, falavam línguas estrangeiras, possuíam uma boa biblioteca. Casaram em 1935. Em 9 anos de casados, tiveram seis filhos, Stasia, Basia, Władzio, Franuś, Antoś, Marysia e em 1944 Wiktoria esperava o sétimo. Eram um casal enamorado. O pai, Józef, produzia fruta, legumes, era apicultor, criava bichos da seda para fazer tecidos e era o fotógrafo da localidade. Por isso dispomos de tantas fotografias da família. A mãe, Wiktoria, interessava-se por literatura, fazia teatro numa companhia amadora, estudava na Universidade. Todos esses interesses e actividades, mais os filhos, com idades em escadinha, garantiam uma vida preenchida naquela casa, inspirada por uma fé simples e autêntica.

Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, os Ulm esconderam oito pessoas lá em casa, a família judia Goldmann, perseguida pelos nazis. As crianças Ulm e Goldmann brincavam juntas, as famílias partilhavam preocupações e alegrias e os judeus adultos ajudavam como podiam, sem sair do esconderijo. Os vizinhos testemunhavam o rebuliço feliz daquela convivência, apesar dos apertos e das ameaças. Assim passaram quase dois anos.

Os Ulm sabiam que se arriscavam à pena de morte por esconderem judeus. Para mais, uma família judia escapada aos nazis com a ajuda de um polícia polaco, a quem tinham confiado as suas posses em custódia. Quando quiseram reavê-las, o polícia quis ficar com tudo, de modo que os judeus resolveram impor-se e, a seguir, o polícia vingou-se, procurando-os e denunciando-os. Nada disto merece ser lembrado. Nem sequer a crueldade dos nazis, que no dia 24 de Março de 1944 mataram os pais de forma bárbara à frente dos filhos e depois mataram os filhos. E mataram também todos os judeus que viviam com eles.

O que a Igreja não esquece é a fé dos Ulm, a sua «santidade do dia-a-dia», como diz o Papa. Neste caso, a sua santidade foi constituir uma família feliz e generosa, cheia de interesses, cheia de vida, rodeada de amizades, carregada de trabalho e de interajuda, vibrando com uma fé simples e prática.

É a primeira vez que uma família inteira é beatificada e esta é a primeira beatificação de um bebé não nascido, que nem chegou a ter nome. Os laços familiares são tão importantes que a Igreja baptiza as crianças pequenas na fé dos pais. Porque os filhos crescem na fé dos pais, na generosidade dos pais. Com esta beatificação excepcional, a Igreja quer recordar esta mensagem, lembrando a todos os casais a sua responsabilidade. Os filhos pequenos são santos se os pais são santos.

Exceptuando os chamados Santos Inocentes — os bebés chacinados pelo Rei Herodes com o intuito de matar o Messias à nascença —, nunca se tinham beatificado crianças tão pequenas. Também sob este aspecto, a cerimónia chama a atenção, por sublinhar o valor dos pequeninos.

Este simbolismo é reforçado porque o martírio ocorreu na véspera do 25 de Março de 1944, festa da Anunciação do Anjo a Nossa Senhora — e portanto festa da Concepção de Jesus por obra do Espírito Santo. O dia 25 de Março tem particular ressonância na Polónia, porque é o Dia da Vida Nascente, em honra da dignidade humana, mesmo dos mais pequeninos e dos ainda não nascidos.

Categorias

  • Conexão | Brasil x Portugal
  • Cultura
  • História
  • Política
  • Religião
  • Social

Colunistas

A.Manuel dos Santos

Abigail Vilanova

Adilson Constâncio

Adriano Fiaschi

Agostinho dos Santos

Alexandra Sousa Duarte

Alexandre Esteves

Ana Esteves

Ana Maria Figueiredo

Ana Tápia

Artur Pereira dos Santos

Augusto Licks

Cecília Rezende

Cláudia Neves

Conceição Amaral de Castro Ramos

Conceição Castro Ramos

Conceição Gigante

Cristina Berrucho

Cristina Viana

Editoria

Editoria GPC

Emanuel do Carmo Oliveira

Enrique Villanueva

Ernesto Lauer

Fátima Fonseca

Flora Costa

Helena Atalaia

Isabel Alexandre

Isabel Carmo Pedro

Isabel Maria Vasco Costa

João Baptista Teixeira

João Marcelino

José Maria C. da Silva...

José Rogério Licks

Julie Machado

Luís Lynce de Faria

Luísa Loureiro

Manuel Matias

Manuela Figueiredo Martins

Maria Amália Abreu Rocha

Maria Caetano Conceição

Maria de Oliveira Esteves

Maria Guimarães

Maria Helena Guerra Pratas

Maria Helena Paes

Maria Romano

Maria Susana Mexia

Maria Teresa Conceição

Mariano Romeiro

Michele Bonheur

Miguel Ataíde

Notícias

Olavo de Carvalho

Padre Aires Gameiro

Padre Paulo Ricardo

Pedro Vaz Patto

Rita Gonçalves

Rosa Ventura

Rosário Martins

Rosarita dos Santos

Sérgio Alves de Oliveira

Sergio Manzione

Sofia Guedes e Graça Varão

Suzana Maria de Jesus

Vânia Figueiredo

Vera Luza

Verónica Teodósio

Virgínia Magriço

Grupo Progresso de Comunicação | Todos os direitos reservados

Desenvolvido por I9