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«Dilexit nos»

  • Novembro 3, 2024
  • Religião
  • José Maria C. da Silva André

Pormenor do grande mosaico que representa uma aparição de Nossa Senhora a Santa Margarida-Maria Alacoque em 1688. A Virgem indica-lhe o Coração do seu Filho chamando-lhe «Coração de Justiça».

 

Saiu uma nova Encíclica, «Dilexit nos», cujo tema apanhou muitos de surpresa.

O que leva o Papa a interessar-se pela devoção ao Sagrado Coração de Jesus? Onde está a imagem da Igreja centrada nas guerras, nas crises humanitárias, no respeito pela criação, que os meios de comunicação social divulgam?

Que aconteceu, para que este Papa, que prefere mensagens, exortações e entrevistas de pouca formalidade, publique uma Encíclica magisterial de 144 páginas acerca de uma devoção pouco falada?

A surpresa com que foi recebida ilustra bem o abismo de diferença entre o Papa Francisco de carne e osso e a fantasia que se transmite dele. Porque esta Encíclica é das obras mais genuínas deste Papa, perfeitamente em linha com o seu magistério anterior. É inovadora nalguns aspectos da abordagem, mas absolutamente previsível na temática geral.

Um dos focos mais importantes dos últimos pontificados —que se tem vindo a acentuar— é o anúncio da ternura apaixonada de Deus por nós. Os sentimentos de culpa da nossa sociedade decadente levam a ver Deus como o condenador dos desmandos, como o vigilante autoritário que reprime a liberdade. Por isso a Igreja insiste tanto na delicadeza respeitadora de Deus, que oferece o dom da sua chuva «sobre justos e pecadores», que deseja ardentemente a nossa felicidade, que não se vinga, disposto mil vezes a perdoar.

João Paulo II proclamava que a verdade de Deus não é uma rigidez que Ele nos quer impor, é o seu amor esplendoroso, fonte da liberdade. Fez mesmo uma festa da Misericórdia de Deus.

Bento XVI tomou este ensinamento como programa do seu pontificado, anunciado logo na sua primeira Encíclica, citando S. João: «nós conhecemos o amor de Deus e acreditámos nele».

Francisco instituiu o Ano da Misericórdia, dedicou catequeses ao Sacramento da Confissão, publicou textos maravilhosos acerca do arrependimento e do perdão que Deus nos oferece, convidando-nos a compreender e amar o coração de Jesus, palpitante de afecto e alegria. A presente Encíclica é o reforço desta perspectiva, com alguns matizes interessantes.

O fundamento da devoção ao Coração de Jesus remonta aos primeiros cristãos e à Escritura. Aliás, a Encíclica começa com uma frase da Epístola de S. Paulo aos romanos, paralela àquela frase de S. João que Bento XVI escolheu para a sua Encíclica programática. Em tempos mais recentes, os grandes propagadores desta devoção foram a freira visitandina Margarida-Maria Alacoque e a Companhia de Jesus. O convento de Paray-le-Monial das religiosas visitandinas foi construído a convite dos Jesuítas e o padre jesuíta Claude La Colombière foi decisivo para divulgar a mensagem da irmã Margarida-Maria.

A história das aparições de Cristo a Margarida-Maria Alacoque, sobretudo entre 1673 e 1675, é muito interessante, como todo o contexto em que aconteceram, a opulência escandalosa do absolutismo de Luís XIV, a rigidez das práticas que ficaram conhecidas como jansenistas, a desolação de guerras sem fim… Em contraste, as revelações de Jesus a Margarida-Maria retomaram a pureza e alegria da evangelização primitiva, convidando a contemplar o amor de Deus, infinito e omnipotente. Vários episódios posteriores, como o da «Luz de Israel» no século XIX, mereciam ser referidos aqui, mas ficam talvez para outra oportunidade.

Em 1688, já depois da morte do Pe. La Colombière, Nossa Senhora apareceu novamente à Irmã Margarida-Maria, confiando às Visitandinas e à Companhia de Jesus a devoção ao mistério do Coração de Jesus. Reunida em Congregação geral em 1883, a Companhia de Jesus declarou solenemente «que recebia com espírito transbordante de alegria e gratidão o lindíssimo encargo que Nosso Senhor Jesus Cristo lhe confiou».

Muitos santos se associaram a esta tarefa. A Encíclica cita muitos, dizendo que «escolheu apenas uns poucos, ao acaso». Além dos Jesuítas, os Papas posteriores assumiram activamente esta tarefa e propuseram como modelos de santidade, canonizando-os, a Irmã Margarida-Maria (Bento XV, em 1920) e o Pe. La Colombière (João Paulo II, em 1992).

Recentemente, no passado 24 de Outubro, Francisco publicou um documento denso, destinado a ser relido até ao fim dos séculos. Vale a pena.

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