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Não ao simplismo

  • Fevereiro 15, 2025
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

 

Dileto amigo me contou uma história de seu avô. Dono de uma lanchonete, sua clientela não era das mais recatadas. Uns tinham contas a ajustar com a lei, outros exageravam na bebida e quase todos tomavam assento para o vício do carteado.

Parodiando Antonio Callado, em seu Madona de Cedro, o avô do meu amigo vendia gêneros de segunda para uma gente de terceira. Mas a fama de que o café do estabelecimento era bom espalhou-se pela vila, o que acabaria atraindo o Juiz e o Delegado, que passaram a se encontrar diariamente na lanchonete.

Como efeito colateral, a lanchonete ficou às moscas: a clientela habitual sumiu …

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No mais das vezes, quando se fala a respeito do desempenho econômico da China, a justificativa para o sucesso maiúsculo daquele país é a mão-de-obra barata. De fato, por muitos anos, esta foi sua maior vantagem competitiva, mas já deixou de ser há muito.

Não se pode negligenciar o salto extraordinário na educação, nem a criação de centros de desenvolvimento científico de ponta. Se há poucas décadas instituições universitárias como Berkeley, Harvard e as demais pertencentes ao grupo das Big Ten não tinham quem as ombreasse, a China de hoje tem estabelecimentos que se equiparam aos mais famosos centros acadêmicos, como o MIT.

Não é à toa que a China tem hoje um parque industrial de ponta, talvez sem similar no mundo, produzindo desde semicondutores a toda sorte de bugigangas eletroeletrônicas. Mas vai muito além: carros elétricos, trens de alta velocidade e a indústria aeroespacial são outros exemplos da pujança da terra de Xi Jinping, bem como a produção de armamentos e mísseis. Sem esquecermos da poderosa frota militar, que traduz a ambição de hegemonia nos mares.

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Visitamos a China uma única vez. Foram inúmeras cidades, começando por Pequim, com deslocamentos por trem, carro e aviões naquele país continental. Recolhemos impressões de admiração pelo desenvolvimento extraordinário da infraestrutura, pela ordem e segurança, mas também identificamos pontos negativos, como o profundo materialismo, resultado de décadas de perseguição à religiosidade.

Fotos de Mao Zedong dominaram os altares das casas, acima de Buda. O culto à figura do líder que responde pela morte de milhões segue firme. Aguardar numa imensa fila para adentrar no mausoléu do “grande timoneiro” nos permitiu constatar a continuidade da idolatria. Sua foto também domina o pórtico da Cidade Proibida, testemunha do massacre em Tiananmen, ou Praça da Paz Celestial. Por falar em celestial, na entrada do mausoléu há uma pintura gigantesca, na qual Mao Zedong é representado como se estivesse no paraíso.

A despeito de considerações menos elogiosas, testemunhamos a laboriosidade daquela gente. Trabalham de segunda a segunda e as cidades mal dormem. Vimos prédios sendo construídos à noite e hotéis de ótimo nível com alta ocupação. Cumpre lembrar que a classe média chinesa é maior que a população dos Estados Unidos.

As medidas de Trump – cujo objetivo maior é combater a concorrência geopolítica da China,- parecem mais uma demonstração de fraqueza do que de força e podem ser um tiro de bazuca no próprio pé. Por tardias, por eventualmente inócuas e, pior, por terem o dom de gerar uma onda de antiamericanismo. Afinal, as denúncias contra a USAid comprovam o vício da ingerência norte-americana, patrocinando ataques à vida institucional de muitos países.

Penso que o maior dos simplismos na análise do sucesso chinês é negligenciar o peso da disciplina, que salta até mesmo aos olhos menos observadores. Digam o que disserem, sem disciplina seria impossível comandar mais de um bilhão de pessoas. O regime é sufocante? Poderia ser mais brando? Bem, esta é uma boa discussão, que transcende o espaço e sobretudo minhas limitações.

No Brasil o valor da disciplina, pedra angular de uma sociedade organizada, é diariamente pisoteado, o que me faz duvidar do futuro próximo.

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Reza a lenda que o avô de meu amigo, desacorçoado com a queda desastrosa da clientela, simulou que a máquina de café estragara e a quebrou. Perdeu o Juiz e o Delegado, mas reconquistou a freguesia mais numerosa.

O crescimento da criminalidade, o domínio dos presídios por facções criminosas, o desprestígio das autoridades constituídas e o alto risco de o Brasil tornar-se ou já ser um narcoestado devem nos tirar da inércia se queremos um país melhor. Porque nossa máquina de café foi sucateada.

 

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