Provavelmente a geração de montenegrinos “raízes” mais antigos, que teve a graça de testemunhar a ascensão empreendedora e empresarial da sua gente, não deve estar muito feliz com o quase total aniquilamento dos seus munícipes do comando das principais iniciativas econômicas no município, ou simplesmente pelo fechamento de muitas delas.
Poucos devem saber, por exemplo, que Montenegro já teve uma cervejaria tão boa que era capaz de competir com as melhores cervejas do mundo. Era a Cervejaria Jahn, fundada em fins do Século XIX, e que produzia, pouco antes de fechar, em 1940, devido à Segunda Guerra Mundial, cinco mil garrafas de cerveja por dia, abastecendo o município e outras regiões. Essa cerveja com certeza daria uma goleada de dez a zero em qualidade e sabor na cerveja Antártica, com matriz em São Paulo, que também teve uma fábrica instalada em Montenegro nos anos 70,fechando em 2006. A cerveja montenegrina “antiga” era de tão boa qualidade que chegou a vencer um concurso em Porto Alegre de “melhor cerveja”, durante as comemorações da Semana Farroupilha.
Outro grande empreendimento em Montenegro foi o Frigorífico Renner, o qual projetou o nome do município nacional e internacionalmente. Fundado em 1896 por Jacob Renner, e instalado no cais do porto do rio Caí que margeia Montenegro, de início dedicava-se à produção de banha. Diversificando a produção, o salsichão ali produzido deve ter deixado muita saudade nos que tiveram a ventura de saboreá-lo. Mas em 1980 foi decretada a falência do frigorífico, encerrando as suas atividades. O edifício de cinco andares do frigorífico foi comprado pela Cooperativa Agrícola de Taquari Ltda, que em 1984 também faliu.
Tenho duas lembranças especiais do Frigorífico Renner. Uma consistia nas minhas pescarias de lambari exatamente no ponto em que eram despejados no rio os descartes da produção de banha. Outra a de ter tido a felicidade de fazer amizade com o gerente do Frigorífico, Walmir Rocha, com capacidade empresarial “cósmica”, que teve duas fases na minha vida: a primeira de “inimigo”, por ter denunciado (com razão) às autoridades competentes umas “acrobacias aéreas” proibidas que andei fazendo na juventude, e que me valeram um “gancho”; na década de 90 reencontrei o “cara” e tive oportunidade de conhecê-lo melhor. Buscamos fazer um empreendimento empresarial juntos, mas infelizmente não deu certo. De “inimigo” o Rocha passou a ser meu grande amigo, e uma das pessoas mais admiráveis que já conheci.
Não menos frustrante ao coração e aos interesses dos montenegrinos é o caso da Frangosul. A primeira semente da Frangosul foi plantada em 1934 por Afonso Wallauer, em Salvador do Sul, então integrante do município de Montenegro. Após diversas alterações estatutárias, e mudanças de razão social, consolidando-se com a denominação de Frangosul, o abate e processamento de frangos propiciou grande desenvolvimento para Montenegro e região, especialmente nos municípios de Tupandi, Pareci Novo, São José do Sul, Harmonia e Maratá, todos “filhos” de Montenegro, devido às suas emancipações.
Mas esse foi mais um empreendimento frustrado da gente montenegrina, pois a Frangosul passou a ser administrada, primeiro pela francesa DOUX, depois pela JBS.
Mas a empresa que mais durou em Montenegro foi o Jornal “O Progresso”, que circulou ininterruptamente durante 115 anos, atravessando as duas guerras mundiais. O jornal foi fundado em 1901 pelos irmãos Amâncio Fidêncio e Frederico Miguel Lampert.
Mas infelizmente os montenegrinos das novas gerações não tiveram grande interesse em incentivar a manutenção desse notável empreendimento, o que motivou o encerramento do “O Progresso”, como semanário. No dizer de João Baptista Teixeira, último administrador do jornal, em discurso proferido na Câmara Municipal pela passagem dos 115 anos do jornal, ”O Progresso é como um cachorro criado na rua, não é de ninguém, mas todos cuidam dele”.
Tudo isso significa que Montenegro se tornou como uma cidade ‘velha”, em termos de empreendedorismo e capacidade criativa empresarial, pois os seus munícipes se “vão” e os seus lugares são ocupados por “estrangeiros”, sem maiores compromissos, mesmo que afetivos, com terras dos “outros”. Para que melhor se compreenda o que queremos dizer, imagine-se uma cidade cujos filhos não geram novas vidas, e que em pouco tempo será uma cidade de idosos, rumando progressivamente à extinção.
Essa situação se repete na politica. Os montenegrinos não “fecham” com os seus conterrâneos lançados candidatos a cargos eletivos legislativos estaduais ou federais, como fazem em outros municípios, preferindo os chamados “paraquedistas”, que só vão trabalhar para suas bases eleitorais.