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“A poesia é um milagre”

  • Junho 30, 2025
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

José Ángel Leyva – México, 1958

 

José Ángel Leyva nasceu no México, em um de seus estados – em Durango – em 1958; o autor é igualmente poeta, narrador, ensaísta, editor e promotor cultural.

Formou-se em Medicina como Cirurgião, pela Universidade Juárez do Estado de Durango, e concluiu o mestrado em Literatura Ibero-Americana pela Universidade Nacional Autônoma do México. Também foi codiretor da revista Alforja, coordenador-geral de Publicações da Universidade Intercontinental e diretor-geral da revista A Outra; ainda, foi vice-diretor de Literatura, Artes Visuais e Artes Cênicas, diretor de Extensão Cultural e coordenador de Extensão Cultural do Ministério da Cultura do Governo, na Cidade do México de 2001 a dezembro de 2005.

Foi jurado em numerosos concursos literários nacionais e internacionais, e membro de bolsas de estudos  concedidas pelo Fundo Nacional de Cultura e Artes, e pela Fundação de Letras Mexicanas, em diversas edições, de 2004 a 2006.

De nossa parte, o que mais buscamos é encontrar o que nos contenta; “talvez os poetas devam parar de escrever tanto e ler mais sobre verdadeiros poetas. Que leiamos para as pessoas poesia de alto nível, que admiramos, e paremos de promover apenas a nossa, o que muitas vezes dissuade ao invés de persuadir. A poesia é lida, embora não venda. Um livro de poesia não pode ser lido como um romance ou um ensaio. Bons leitores de poesia costumam ler em pequenas doses, para ajudar na digestão. Um poeta sabe, desde o momento em que escolhe esse caminho ou é escolhido, quando não tem outra opção, que a poesia é a mais inconciliável com o mercado, com o grande público, com as multidões. A poesia é um milagre, porque uma realidade íntima e individual pode se tornar um sentimento e uma experiência coletiva. A palavra falada pode ser a alegria da miséria de outras pessoas.”

Sobre se a poesia mexicana é inata em sua essência, José Ángel pensa: “O México nunca foi um país de navegadores, nunca foi um país expansionista, nem com preocupações hegemônicas”.

Há um esforço constante para que a produção cultural mexicana seja aceita como são as demais, vindas da América e da Europa. Tampouco “agora não é incomum encontrar mexicanos em outras partes do mundo em busca de expectativa de vida. O mesmo acontece na literatura, navegamos entre a tentação da vanguarda e o incenso conservador, a tradição reconfortante.

A literatura e a poesia mexicana, sua cultura, tiveram fortes influências na América. (…) México sempre foi visto como o irmão mais velho, culturalmente falando. (…)

O Fundo de Cultura Econômica foi um carro-chefe de nossas cartas e o melhor pensamento. (…) O que é popular é o bebedouro inevitável, é a fonte vital de nossas letras e de nossa cultura.” (…) “Não, não me parece que os poetas reconhecidos no México estejam superestimados no México. O que me parece é que existem muitos poetas não valorizados no México.”

Apesar de o autor extravasar francamente a situação cultural de seu país, ele é acolhido à vontade como um de seus  grandes talentos.

Ele dirigiu várias oficinas de escrita criativa, conselhos de edição de revistas internacionais, mais áreas editoriais de publicações diersas e de fundações.

Quanto a Prêmios e Reconhecimentos, José Ángel recebeu Prêmio Nacional de Poesia, em 1990; Concurso Nacional de Poesia, 1994; Vencedor do 29º Concurso Nacional de Jornalismo, 1999; Prêmio de Literatura, em 2007; Vencedor do 38º Concurso Nacional de Jornalismo, 2008; Prêmio de Mérito Literário de Durango, 2009; Membro do Comitê de Revisão do Programa Internacional de Bolsas de Estudo da Fundação Ford, 2009.

Já pruduziu mais de cinco livros de poesia, de 1988 a 2012; aproximadamente mais de dez outros livros; cinco antologias; quatro contribuições de dicionários, de 1999 a 2012; múltiplas revistas e revistas intenacionais; cerca de vinte e cinco festividades mundiais aos quais foi convidado, de 1999 a 2012.

A partir de agora, vamos aproveitar dos “ensinamentos de nosso” José Ángel.

Primeiro poema: “Irmão pai”; ‘A morte, professor, nada ensina: / espelho inferior onde a parte termina para o todo / e o todo é revelado parte por parte. / O magistério começa com o corpo. / Onde a vontade e o sonho irrompem, / a memória encontra um pouso, / abre caminho para o alfabeto que eu sou / com meus irmãos / em teu desejo, em tua mulher, na desordem / de palavras que vão e voltam. / Quando os ponteiros do relógio são alterados / uma volta e meia, / a quem ditam sem ler o que teus lábios silenciam? / Prostrado na inconsciência, envias uma mensagem. / O respirador automático trabalha a agonia, / te dá a respiração necessária da ausência, / empurra a dor até que encha teus pulmões. / O que uma máquina de quebra-cabeça sabe? / Não consigo seguir ou entender o ritmo / do pé que vai do parto à partida. / Memórias talvez daquele primeiro ofício. / Os pés, ambos, saúdam o filho desde o coma. / Ponto e linha. / O telegrama do teu dedo, professor, / me atinge no olho / do nervo ao coração / e ponto / e vírgula. / Eu decifro a lição em código Morse: / dignidade, amor pela mão, / a floresta e o jornal onde me escreves. / Ponto e linha. / Eu pulo contigo nas pontas verdes / do monitor atordoado que não apreende / o humor de seus pinheiros e montanhas, / teu sangue, / ponto e vírgula. / Nesse pé e no outro vais cantando / as vogais, as tabelas, / teu saber / teu tempo, / irmão pai.’ É rara e muito comovente essa homenagem de demonstração de respeito, admiração e apreço; é uma forma de expressar gratidão e valorizar méritos notáveis de uma pessoa que lhe é próxima.

Segundo poema: “A região ausente”; ‘Há um espaço tão cheio de vazio / onde minha voz não é voz, mas eco / a pura casca do ruído / a marca de um pé que não me cabe / Eu queria voltar e não existe mais / a região onde deixei de ser / o território por mim desabitado / Nas minhas ruas não há estradas / Se eu tentar descrever a direção do ar / em cada canto do seu ser vazio / esferas de cardos aparecem na língua / memórias de um cadáver no prato / mantendo seu tédio em formaldeído / Com as primeiras gotas de luz / o céu fibroso se apega ao solo descarnado / resplandecente com mãos e braços musculosos / Outras terras empurram suas areias / em vendavais de azul fosco / A cidade careca penteia suas frondes / A poeira nos embosca / As árvores estão caindo aos pedaços.’ Um espaço tão imensamente vazio desabita nossas ruas, nosso fastio disforma o “céu” e a natureza se desfaz em pó.

Terceiro poema: “Feiticeiro 2 – Entidade”; ‘A passagem da noite ao amanhecer, da tarde ao sono: / meio-dia de uma aldeia abandonada. Fuças no / ventre de um cadáver. / vasculhas infâncias. Seu terror / te dá um gosto de fósforo e cálcio, de jogo imortal / na goela. A morte infante não se cansa de inventar mais / trava-línguas, que travam a fechadura com um esparadrapo. / Não há mortalhas reais nessas ruínas. As pedras falam / de casas senhoriais. Os ossos discutem com / utensílios e pregos. Folhas de ferro e papelão / mordem a poeira ou se elevam como tapetes mágicos. / As viagens enferrujam e apodrecem muito cedo, antes / até mesmo de começar a história.’

Quarto poema: “Feiticeiro 10 – Poeta”; ‘Ao final, alguém se converte no que escreve / ou não com as próprias mãos / Quem vai acreditar em teu nagual / se não sentes o cheiro do tremor da imagem congelada / morrendo de medo dos olhos que a observam / Jato descontrolado de sombras / em busca do novo / O esquecimento coloca o coração em uma armadilha / Nós não voamos ou andamos com as guelras / No papel do deserto / alguém se lembra da maneira de caçar a lebre / fazer sandálias com pele de réptil / para entrar antes do amanhecer / Levantas a tampa e vês a tua própria morte / O verme da letra agita-se sob um título e outro / Parecem luzes de néon cobertas de cinzas / A tua máscara e teu nome tomam o lugar / daquela pessoa que não vieste a ser / Um dia a asfixiaste com o travesseiro / Uma parte tua foi deixada em seu testamento / Acabaste de nascer / Alguém te lê.’ (Observação: a palavra “nagual” significa “feiticeiro”, em região do México e da América Central).

José Ángel professa sua identidade de “bruxo” como alguém que “coloca o coração em uma armadilha”, e finalmente, o autor reconstitui sua identidade junto a nós, seus leitores, quando lemos sua poesia e participamos de seu nascimento poético : “a poesia é um milagre”. Boa leitura !

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