Não há dúvida de que certas ocupações laborais são prejudiciais ao corpo e que o tempo, mais dia, menos dia, apresentará a conta. Cargas demasiadas, temperaturas elevadas e operações perigosas ou repetitivas, simiescas, são oportunidades exemplares para automação, que deve ser mesmo incentivada para que as pessoas possam exercer funções melhores e mesmo mais dignas.
Recentemente participei de um processo de automação numa forjaria. Peças incandescentes, antes manipuladas com tenazes, passaram a ser alimentadas por robôs. A programação dos mesmos e os dispositivos mecânicos nas suas extremidades constituíram um desafio nada pequeno. Recebi dias atrás uma foto da célula em operação, composta por prensas e robôs, cercados por grade de segurança.
Colados no lado de fora da grade, alguns operários admiravam a precisão dos robôs e o sincronismo com as prensas. É provável que alguns dentre os admiradores perderão o emprego em futuro próximo. Como se saíssem da passarela para a arquibancada.
Na década de 70 presenciei uma situação que apenas prenunciava o futuro. O Jornal O Progresso era ainda tipográfico, mas já utilizava uma linotipo para a montagem de suas páginas, que eram impressas por uma máquina do século XIX. O impressor era um ícone daquela casa de letras, mercê das décadas de labor no estrado da Marinoni, alimentando, folha por folha, para impressão a cada ciclo de apenas duas páginas.
Deu-se então um salto. O jornal adotou a composição por fotolitos tão logo adquiriu uma impressora offset. Era uma revolução, por mais modesta que fosse a máquina, de segunda mão, que cuspia material, mas demandava expertise para o perfeito funcionamento.
As folhas eram capturadas por vácuo e inseridas no rolo impressor por meio de roletes. Monitorar o abastecimento de água e tinta e o comportamento das lâminas de papel era crucial. Um descuido e, num piscar de olhos, dezenas de folhas eram inutilizadas.
O impressor tinha de ser alguém com olhar muito mais técnico. O antigo funcionário foi mantido, em respeito às décadas de lealdade e dedicação, mas pouco tinha a fazer além de varrer a redação e, nas sextas-feiras, dobrar a edição. A impressora offset foi cercada e ainda hoje lembro que ele ficava daquele jeito, quase colado na tela, a admirar a velocidade da inovação. Velocidade que, diga-se de passagem, é nada perto do que fazem parques gráficos de última geração, a partir não mais de folhas, mas de rolos de papel, com máquinas computadorizadas, cujo ajuste fino é feito remotamente.
A modernidade é um rolo compressor e seria ingênuo imaginar que possamos detê-lo. O que está ao nosso alcance é tentar influir na sua trajetória. Anos atrás conversei com um cidadão que visitara a China algumas vezes para instalar máquinas de produção de cigarros produzidas no Brasil. O nível de automação destas máquinas não era o maior possível, à época, justamente porque havia chineses saindo pelo ladrão e era preciso ocupá-los.
Recentemente presenciei a geração de textos através de inteligência artificial. Algumas palavras … e pronto! Lá estava um texto que as associava de maneira surpreendente. Esta capacidade tem assombrado uns e outros, antevendo a eliminação de postos de trabalho para redatores e jornalistas, entre outros. Pode ser, mas não o será sem enorme prejuízo intelectual. Afinal de contas, qual a inspiração do texto? Elogia ou critica? Tem ironia, sarcasmo ou humor? Manifesta esperança ou caridade? E música, segundo li anos atrás, a mais complexa das artes? O que pode a IA além de copiar, fazendo de conta que cria?
Pode ser que sucessivos desenvolvimentos aproximem o resultado a partir de um cardápio de opções. Mas sempre faltará poesia, porque esta precisa de alma.
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Um diz várgia, ao comentar o futebol amador, e gândola, para nominar aquelas estruturas típicas de farmácias. A outra conjuga o pretérito imperfeito de forma inédita: eles forem, eles comprarem, … O português mandou lembrança.
Recente pesquisa divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística revelou que temos em torno de nove milhões de analfabetos. Quase três vezes a população do Uruguai. Uma vergonha!
Não bastassem o despreparo, a incompetência, soma-se a realidade criada pelo Bolsa Família e demais canais de auxílio governamental para desvalidos e, infelizmente, também para preguiçosos, que consideram que não vale a pena trabalhar …
Bem, se o mundo, que não precisará do concurso de bilhões estiver no horizonte e acabar instituindo o padrão de renda mínima, havemos de convir que estamos à frente: com as modestas provisões públicas, a miséria controlada da maioria já está garantida por aqui.
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Quanto à tão falada inteligência artificial, sua denominação é incorreta. Um emaranhado de algoritmos, desenvolvidos pelo brilho da inteligência humana, não merece a denominação.
Afora esta polêmica, a “inteligência artificial”, a par de seus benefícios, tem se prestado também para iludir, falsear, para tornar as guerras ainda mais cruéis e desiguais, para capacitar os poderosos ao massacre econômico ou bélico.
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Por fim, leio que agora andam atrás da superinteligência. Não teria esta presunção um parentesco com a mordida naquela maçã do Éden?