(Foto: O Globo)
Paulo Henriques Britto nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de dezembro de 1951, ele é um poeta, professor e tradutor brasileiro. Nasceu numa família da pequena burguesia carioca, o pai era militar e quando tinha dez anos de idade, viveu com os familiares em Washington, Estados Unidos, durante mais de dois anos.
Lá, frequentou a faculdade de cinema em Los Angeles e San Francisco, e foi nessa altura que começou a escrever poesias.
Britto possui graduação em Licenciatura de Língua Inglesa e Portuguesa pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1978, e mestrado de Letras em 1982, pela mesma instituição, sendo que essa lhe conferiu o título de Notório Saber, em 2002.
Estreou como poeta profissional em 1982, com “Liturgia da matéria”, depois com “Mínima Lírica”, em 1989, mais adiante, “Trovar Claro”, em 1997, com o qual recebeu o Prêmio Alphonsus de Guimarães, da Fundação da Biblioteca Nacional, e ainda “Macau”; adiante, em 2003, recebeu o prêmio Portugal Telecom de literatura brasileira.
Em 2004, lançou o livro de contos “Paraísos Artificiais”, e em 2007 publicou “Tarde”, seguido de “Formas do nada”, em 2012.
O autor já traduziu mais de cem livros, entre obras de William Faulkner, Elizabeth Bishop, Byron, John Updike, Thomas Pynchon e Charles Dickens.
Atualmente, é professor associado na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em cursos de tradução, criação literária e literatura brasileira. Recentemente, em 22 de maio de 2025, Britto foi eleito para a cadeira nº 30 da Academia Brasileira de Letras.
Sua bibliografia é a seguinte: oito edições de poesia, de 1982 até 2018; dois contos, de 2004 a 2021; referência: tradução literária, em 2012.
Voltemos, agora, ao encontro que nos proporciona o poeta. Neste mundo, é o poeta quem deve manter abertas as vias de acesso entre as pessoas, é ele quem tem a possibilidade de se transformar em qualquer um; isto porque é ele quem tem de “criar mais e mais espaço dentro de si próprio para o saber”. Desde esse ponto de vista, Paulo Henriques Britto é, sem dúvida, um desses guardiões; “e dos melhores em atividade”.
Sua obra, “Nenhum mistério”, proporciona o que segue: 1) “Você ao sair da sala / escuta um murmúrio / discreto, / Pensa: é alguém que me fala / em pleno discurso direto. / Porém não é nada disso. / É o murmúrio impessoal / do silêncio quebradiço / que se ouve mal e mal / onde não há o que se ouça. / Se ao seu ouvido ele soa / como algo que talvez possa / emanar de alguma pessoa, / é pra desdizer a certeza / de que, atrás da porta fechada, / na sala ainda há pouco acesa / agora não há nada.”
Com agudeza e ironia, o escritor traz para a moldura de seu verso a profunda consciência da solidão: “Tempo agora perdido/ (todo tempo se perde) / vivo só nos vestígios”; “cruel lição”; (…) “para toda solução há “um jeito de achar um problema”; “só amo o que não sei e não se explica”.
Aproveitamos a possibilidade de apresentarmos um dos poemas mais significativos de Paulo Henriques Britto: “Nenhum Mistério”, editado em 2018. 2) “Nenhum mistério. A poesia em sua crueza. A vida, também, crua e nua. O destino (ou o acaso), é impuro, duro e, no entanto, como não aceitá-lo?” Tudo visto de trás para frente parece destino. A poesia, no presente, repensa a existência, em seu duplo valor, de ter sido e de poder ser pensada.
O autor nos traz uma nota pessimista para seu livro, logo na epígrafe da primeira página; “Não tivesse eu visto o sol / Sofrível a sombra seria / Mas a luz de meu deserto / Terra ainda mais baldia”. Aqui temos poemas carregados de reflexões sobre a existência e sua ilusão, e sentimos um traço rigoroso para este poeta que não se deixa levar na correnteza das emoções; ele os mantém, a cada verso, a contensão necessária para os apegos e ideias que deles brotam em poemas fortemente concentrados, marcados pela linguagem.
O último poema do livro, “Ao sair da sala”, revela a ilusão de um murmúrio discreto, a possibilidade da presença, que é desvelada em “silêncio quebradiço” numa sala “onde não há o que se ouça” e “não há nada”. Atenção, se a ilusão da presença existe é para “desdizer a certeza” do murmúrio que soa ilusoriamente ao ouvido. Esse conjunto de versos vai se ramificando num jogo espelhado de presença e ausência, de esperança- desesperança, mesmo quando já se sabe que “uma solidão / completa era o capítulo final”. Enfim, “Os deuses do acaso dão, a quem nada / lhes pediu, o que um dia levam embora; / (…) Os deuses são assim.”
Agora, podemos reproduzir alguns poemas por inteiro.
3) “Como se fosse fácil / achar o jeito de dizer / a frase justa que encerrasse / o que urge tanto esquecer / que antes mesmo que se esboce / a sílaba tão esperada / a palavra – fosse qual fosse – / já resvalou para o nada.” Partimos do descontentamento ou de uma ideia de que o mínimo pode ser o máximo.
4) “Ser parte de alguém ou algo / tão grande que não se entenda: toda crença, ao fim e ao cabo, / se resume a essa lenda – / o mais rematado dislate, / coisa jamais entendida, / que eleva ao sumo quilate / o caco mais reles da vida.” O acúmulo de experiências e de memórias permanecerão como algo de que “acumula indiferente”, guardada numa “gaveta emperrada, / ao qual só será aberta / na hora errada.” Entre a esperança e o ridículo, como um hiato constante, para aqueles que vivem entre a esperança e o ridículo, e sabem que “já não esperam mais nada”.
5) “Pode não dar em nada, no final, / mas ao menos não dói. O que é melhor / que nada – fazer nada faz mais mal / do que fazer o mal. (Nada é pior / que o nada.) E se a coisa cansa, não / reclama, que o descanso cansa mais / ainda. Faz das tripas coração / ou coração das tripas – tanto faz, / desde que saia alguma coisa dessa / desgraça, mesmo sem pé nem cabeça, / sem graça, só uma frase de efeito, / um negócio que não queira dizer / nada – nada além do que não puder / não ser dito, por ninguém. (Dito e feito.)”
Finalmente, ainda em seu discurso de 1976, Britto dá o tom preciso do que quer dizer: “Que se procure o nada apenas para encontrar-lhe a saída, indicando-a para todos. Que se persista na tristeza, bem como no desespero, para aprender a tirar dele os outros; mas não por desprezo da felicidade que cabe às criaturas, ainda que estas desfigurem e dilacerem umas às outras”.
Boa leitura!