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Natureza

  • Julho 28, 2025
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

 

Tenho, com a graça de Deus, muitas razões para ser feliz, sobretudo pelas coisas que não dependem do vil metal. Viver em família, antes de tudo. Seguido pelo convívio com os amigos. Andar no campo com o olhar distante, caminhar na beira do mar aspirando a maresia ou me entregar à contemplação de árvores constituem oportunidades que infelizmente não desfruto com frequência. Todas elas têm em comum as manifestações da natureza, que  nos lembram de nossa pequenez e do chamado espiritual que nos é sussurrado no dia-a-dia e gritado nos momentos de maior dificuldade ou pânico.

Para libarmos os melhores momentos da vida precisamos permitir ao tempo que pare de contabilizar as horas, ainda que saibamos que elas são irrecuperáveis. Deixar-me com o olhar perdido, fechar os olhos e até adormecer ou fitar o céu enquanto reflito é algo que me faz falta devido ao estilo de vida que ainda sigo por imposições materiais.

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Já lera “A expedição Kon-Tiki”, obra através da qual fiquei sabendo que havia um norueguês cuja curiosidade só tinha rival na sua coragem quase suicida. Admirei Thor Heyerdhal desde as primeiras páginas e dias atrás concluí a leitura de outro de seus títulos: “Na trilha de Adão”.

No trecho em que descreve a primeira de muitas visitas a um pântano no Iraque, para aprender o segredo do junco na construção de embarcações capazes de suportar navegação oceânica, Heyerdhal nos apresenta Hagi. Aprende sobre o junco com o sábio ancião, passado dos cem anos, líder do povo dos pântanos, os Maden, e alinha reflexões: “Conseguimos complicar tudo o que um dia foi fácil na nossa vida e agora tentamos compensar nossos erros com leis de trânsito e programas de computador, com médicos que pagamos para reparar o prejuízo causado por uma dieta incorreta e pela ausência de atividades físicas, com juristas para guiar-nos por um labirinto de leis. Continuamos tendo pressa, com o coração disparando ao som de pneus arrancando na pista (…) Vivemos nossa vida pela observação da vida de outras pessoas. Medimos nossa riqueza pelo dinheiro que acumulamos no banco”.

“Nós não somos pobres”, disse o velho Hagi, dono apenas do tapete em que estava sentado. Heyerdhal então conclui que “aquela gente possuía uma riqueza interior”: “Ali não havia inveja de ninguém. Por isso sua civilização havia sobrevivido, enquanto assírios, persas, gregos e romanos surgiram ao redor deles e em seguida desapareceram. Nessa estabilidade que dura séculos, há algumas qualidades que faltam em nós: respeito pelos antepassados e confiança no futuro. Nós acreditamos que concebemos a primeira civilização duradoura, mas não nos damos conta e continuamos a edificá-la. Construímos sem um plano e enquanto isso surgem novos problemas ao nosso derredor. Stress, criminalidade entre jovens, desemprego, corrida armamentista, ações terroristas, superpopulação, alterações climáticas, redução de recursos naturais e uma constante poluição do ar, das águas e do solo”.

A propósito, Heyerdahl ficou sabendo que as dificuldades com as embarcações de junco que havia construído deviam-se sobretudo à colheita no mês errado e, por isto, o calafetar resultava ineficaz. Na margem do Tigre, quase desembocando no Eufrates, teve a oportunidade de ver um tronco enorme coberto por musgo, com restos de velas derretidas. Segundo a tradição, naquele local nasceram Adão e Eva e aquele tronco seria o que restou da Árvore do Pecado.

Crendices à parte, o certo é que o Iraque foi inequivocamente palco de histórias extraordinárias, de Ur, de Abraão, dos sumérios e sua escrita cuneiforme, do Jardim do Éden, da Assíria, da Babilônia, da Torre de Babel, …

A história do Iraque já padeceu danos irreparáveis em passado recente. Quando as tropas de Bush entraram em Bagdá o museu nacional foi saqueado em milhares de artefatos. Anos depois o sítio arqueológico de Ninrude, capital da Assíria, foi arruinado pelo estado islâmico. Como se sabe, as destruições são invariavelmente justificadas como necessárias para a “libertação” de regimes tirânicos. Pura hipocrisia, que nos condena a repetir erros antigos como a humanidade.

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