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Jardim

  • Outubro 17, 2025
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

 

Por conta de laços familiares, cá estamos pela quinta vez em Jardim, no Mato Grosso do Sul. Dias calmosos, com temperaturas amenas, o que não é frequente nesta região. Visito o comércio local e observo rostos miscigenados com forte influência dos nativos da Terra Brasilis. Povo gentil e trabalhador, com forte dependência do turismo, de serviços e sobretudo do agronegócio.

Aproveito o tempo e avanço na leitura de uma biografia do Barão do Rio Branco. O Brasil deve a ele a definição de algumas fronteiras. Sua primeira participação foi no sucesso contra a Argentina na região das Missões, com arbitramento norte-americano. Depois bateu-se com os franceses pelos limites com a Guiana: “Têm petulância, esses senhores, de reclamarem 500.000 quilômetros quadrados, quase um sexto do Brasil …”. Árbitros suíços deram ganho de causa ao Brasil.

Contra sua vontade, Rio Branco torna-se chanceler. Mal assume o cargo, passa a conduzir as negociações com a Bolívia para definição da fronteira do Acre. Rui Barbosa, perfunctório, senador, declara-se favorável ao arbitramento. Rio Branco, experimentado, paciente e estrategista, defende um acordo. Sorte nossa que Rio Branco foi firme e conduziu do seu jeito.

Já lera uma biografia de Rui Barbosa, da mesma pena de Luiz Viana Filho. Cá entre nós, não admirei o biografado. Frequentemente incensado pelo brilho intelectual, suspeito que sua vaidade era tão grande quanto.

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Enquanto aguardávamos o vôo de conexão para o Mato Grosso, conversei com três cidadãos que viajavam juntos. Um deles é professor universitário, dedicado à pesquisa de terras raras, outro é técnico na área de exploração mineral e o terceiro, mais discreto, não se identificou. Falavam de neodímio, térbio, ítrio, európio, … Conheço os imãs de neodímio, que utilizamos em nossa empresa, mas nunca ouvira falar dos demais.

Tenho acompanhado o contencioso entre os Estados Unidos e a China, no qual as terras raras ocupam papel importante. São usadas em armas, foguetes, turbinas eólicas, lasers, satélites, baterias, … A China detém a maior reserva, responde por mais de noventa por cento da exploração mundial e ameaça restringir a exportação destes elementos fundamentais, dos quais a indústria do ocidente depende. Quem mandou ficar à mercê do humor chinês?

Durante a breve conversa com o trio mencionado, perguntei quais eram as dificuldades para produzir os tão demandados elementos. Antes de mais nada, investimentos pesados, grandes riscos e anos para desenvolver um projeto desta natureza. Manifestei então minha frustração quanto à falta de empreendedores brasileiros de grande porte que se aprestem para o risco, ainda que calculado. Porque é mais fácil haurir fortunas aplicando em papéis, notadamente num mercado que remunera num mês mais que num ano em mercados de outros países.

Como somos uma potência mundial do agronegócio, para o que contribuiu decisivamente a Embrapa, indaguei por que não poderíamos repetir a estratégia quanto aos nossos fartos recursos minerais. Disse que há muitos bilionários por estas plagas, que poderiam abraçar oportunidades como esta. Percebi que a conversa estacionou, sem causa aparente. Os três cidadãos viajavam juntos. Tomaram o mesmo avião que tomamos. Por fim, nas entrelinhas, depreendi que o terceiro representava um grupo investidor multinacional. Daí o desconforto. Caiu o pano.

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Segundo li, tínhamos a segunda maior reserva de terras raras do mundo. Recentemente, contudo, noticiou-se que Caçapava, no Rio Grande do Sul, tem uma reserva que pode deixar a da China pra trás. Entre ter e explorar, entretanto, há um abismo a ser transposto. Certamente nossa proverbial e atávica tendência para entregar a rapadura ameaça tamanho potencial.

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Rio Branco dedicou seus melhores esforços para assegurar ao Brasil um invejável e incontroverso território. Nem por isto contou com o apoio de muitos notáveis da república, que o viam com despeito. E desconfiança, porquanto Rio Branco, como Nabuco, era monarquista. Lembre-se que Rio Branco conviveu com D.Pedro II e compareceu às suas exéquias.

Quando retornou ao Brasil, para assumir o cargo de chanceler, depois de mais de vinte anos residindo na Europa, despediu-se em Paris da Princesa Isabel. Nunca escondeu sua admiração pela monarquia, mas sabia que a restauração era impossível.

Tive oportunidade de visitar três embaixadas brasileiras, sem que tenham me impressionado. Foi inevitável lembrar da instituição que forma nosso corpo diplomático, o Instituto Rio Branco: “criado em 1945, na esteira das comemorações do centenário de nascimento do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira. Inicialmente instituído com a dupla finalidade de tratar da formação e aperfeiçoamento dos funcionários do Ministério das Relações Exteriores e de constituir um núcleo de estudos sobre diplomacia e relações internacionais, o Instituto tornou-se, ao longo de seus 80 anos de existência, referência internacional como academia diplomática”. (https://www.gov.br/mre/pt-br/instituto-rio-branco/o-instituto/historia)

Nossa diplomacia, referência mundial décadas atrás, parece resvalar ideologicamente e perdeu sua aura, marcadamente pelas figuras que a têm comandado nos últimos anos. Uma lástima, que não faz jus ao grande Barão do Rio Branco. Que defendeu nosso território como poucos o fariam. Território que por vezes mais parece uma terra de ninguém.

Como um jardim do qual levam muita coisa. E nos deixam os buracos.

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