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Carmen Bruna (1928-2014)

  • Novembro 3, 2025
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

 

Carmen Bruna é argentina, nasceu em Quilmes, província de Buenos Aires, formou-se médica em 1955, como pediatra, e este foi durante muitos anos seu trabalho na Patagónia. Apesar de suas funções, sempre dedicou-se às letras e especificamente à poesia.

Teve três filhos, e publicou seu primeiro livro em 1979, chamado ‘Bodas’ (‘Casamento’). Segundo a autora, sua atitude “luciferana desencadeia a fúria ante a injustiça de nascer para envelhecer e em seguida nos convertermos em pó dos caminhos. Por isso em meu livro “A idosa das três serpentes”, evoco as palavras de Clarice Lispector: “Não vou morrer, escutaste, Deus? Não tenho coragem, ouviste? Não me mates, ouviste?, porque é uma infâmia nascer para morrer, não se sabe quando ou onde” (de seu livro “Água viva”, de Clarice Lispector, publicado em 1973).

A leitora dos poetas franceses malditos e de André Breton, sempre se identificou com o surrealismo.

Compartilhamos dois poemas da autora, publicados na antologia ‘Poetas Surrealistas Argentinos’, da editora Edições em Dança.

Primeiro: “O partido dos demônios” / Meus desejos não querem ser negados / meus velhos prazeres soluçam com o arcanjo primitivo. / Te maldisse, feroz aparecida de pupilas de ônix / e colhi por isto uma exuberante coroa de lírios vermelhos, / apontarei para teu coração de fêmea com minhas flechas de obsidiana, / destroçarei tuas redomas de mirra e incenso / para que tua carne não possa consolar-se nunca mais com a espuma. / Como o vapor do mar ascendem os globos de fogo, / como o orgulho dos videntes com os sentidos famintos, / multiplicam-se as orações do tato nas plumas cálidas das aves, / como a Madalena conhecerei as doçuras da pele do anjo da babilônia, /
a persistente loucura que se desprende dos ossos esbranquiçados pelo sol / e as delícias do mel nos lábios do oceano. / Aos despeitados todo o amor / aos abandonados toda a vergonha / aos heréticos toda a glória / Sobre a colina tremem as fogueiras / e se ergue o patíbulo onde o rebelde negro de Surinam / pende como um tigre escuro, / seus enormes olhos nictalópicos [ceguera nocturna] contemplam enfebrecidos o rosto vazio das caveiras. / Não há vinhas para os filtros da ressurreição, / ‘não há deslumbramento capaz de incendiar o vale da morte: / cai o sangue dos sóis fugazes da meia-noite / nutrindo a raiz da mandrágora com seu licor viscoso, / Simão o mago interpreta meus sonhos herméticos / com os signos do jaguar e da cabala, / recolhe meus pesadelos como atos de amor / aceita minhas preces irritadas, / com mudas reprovações, com / infinitos sofrimentos, / com descargas elétricas que são como enxames de pássaros sedentos; / a madona dos destinos, a mulher dos alquimistas / percorrerá a cidade em um corcel de risos noturnos / e de libélulas transparentes como as pétalas do íris. / Eu amarei tua jovem jaula de cabelos de asas de colibri, / teus estremecimentos de chuva nas janelas dos antigos conventos; / amarei o canto das auroras boreais, / o tremor de tua mão com aguilhões / e beberei as flores carnívoras das nepentes no oco das rochas, / percorrerei o submundo de Fonthill, morderei a lua de seus ídolos; / minha língua de cortesã conhecerá o leite dos jasmins no trono.”

Segundo: “Torre infinita” / Choro porque subi a uma torre da qual não posso descer / choro por todas as coisas perdidas que não recuperarei / choro porque cresci e não posso suportá-lo / porque perdi o centro de gravidade do amor / porque me extraviei em uma selva onde todos os que estão comigo / são fantasmas translúcidos / e como nas novelas policiais procuram minha loucura e minha extinção, / porque tenho medo da morte e no entanto a persigo com passos cautelosos / para que me veja e acabe comigo no acaso do ponto e banca, / porque repudiaram e atiraram à luz todos os meus defeitos, / porque sei que dei tudo o que possuía / e agora que estou desnuda largaram meu coração / na água barrosa do pântano, / porque já não há canções para mim, / porque também fui enganada / e expulsa do éden sem contemplações. / Coração de cristal vais estalar de desespero / no lamaçal musgoso / toda a magia do mundo não será suficiente / para preservar o ritmo de teus latejos solitários / nem o feitiço sexual que me acompanhou por longo tempo / nos desertos da lua vermelha. / Deixaste-me em um bosque vazio, rindo e mentindo para mim / acabaram-se as viagens em vagões de segunda classe / com crianças pequenas nas fraldas. / Ah esse vento de esmeraldas pulverizadas que conduz ao cemitério. / Sozinha como a menina que fui preâmbulo pelos limbos / e meus gritos não têm resposta / somente o uivo dos cães selvagens / na noite sem cruz do sul ou via láctea / e o abandono que desintegra a alma lentamente / que a vai apodrecendo lentamente / a alma em pena que dói em todo o corpo, / que já não acariciam ao passar as nuvens de veludo ou a lua de ouro”.

Finalmente, para Carmen Bruna, “Aquela que hoje diz que te quer não subirá contigo às alturas. Estarás só. Só. Como eu. Alguém ‘interpreta seus sonhos herméticos e seus risos noturnos, e finalmente terás tuas libélulas transparentes como as pétalas do íris, o que lhe outorgará conhecer o leite dos jasmins no trono’; além disso, a autora pode se ver em ‘um bosque vazio, mas ela estará sempre rindo para si mesma’!

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