Minha esposa encontrou a indicação de Eden, um filme que narra a saga de alguns alemães que, evadidos de um país arrasado pela Primeira Guerra Mundial, se instalaram em Floreana, no arquipélago de Galápagos. Por primeiro, Ritter e Dore. Ela, vitimada por esclerose múltipla. Ele, médico, decidido a nunca mais apelar para a violência e disposto a filosofar sobre um novo jeito de viver, capaz de impedir repetidas desgraças para a humanidade.
Floreana era um lugar inóspito, selvagem, nada receptivo. Em tal natureza agreste, com uma fauna muito característica, aquele primeiro casal pensara ter ocupado um novo Eden, como a buscar uma nova chance para o gênero humano. Depois chegaram outros: um casal, com um filho, e um trio desajustado, comandado por uma psicopata – o filme assim o sugere,- que se intitulava baronesa.
A idéia de um mundo perfeito, ideal, foi esboroando pelo convívio da comunidade minimalista, com disputas por território, água e alimento. Prefiro não avançar na história, marcada pelo que há de pior no ser humano, capaz de lambuzar-se nos pecados capitais. Recomendo que assistam.
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Outubro de 1917: a revolução derruba o governo provisório de Kerenski. Março de 1918: a Rússia assina o controverso tratado de Brest-Litovsk, sob suspeitas e acusações de que Lenin recebe dinheiro e ordens do Império Alemão. Julho de 1918: fuzilamento dos Romanov. Em meio à guerra civil, Lenin imagina que a Europa promoverá revoluções socialistas e convoca os bolcheviques no mês de agosto:
“Camaradas! A insurreição de cinco distritos kulaks deveria ser impiedosamente reprimida. Os interesses de toda a revolução exigem isso, porque a “última batalha decisiva” com os kulaks está sendo travada agora em toda parte. E deve ser dado um exemplo.
- Enforquem (e cuidem para que o enforcamento aconteça à vista de todo mundo) não menos de cem conhecidos kulaks, indivíduos ricos e sanguessugas.
- Publiquem seus nomes.
- Tirem deles todos os seus grãos.
- Escolham reféns, conforme o telegrama de ontem. Façam-no de tal forma que por centenas de quilômetros em torno as pessoas possam ver, tremer, saber e gritar, eles estão estrangulando e vão estrangular até matar os kulaks sanguessugas.”
Caíra a máscara. No tempo do czar a polícia secreta atendia pelo nome de Okhrana. Agora chama-se Cheka. Comissariados, sovietes, comitês e outras tantas denominações encontram-se sob o poder ditatorial e particularmente vingativo do Sovnarkom, órgão máximo na Rússia bolchevista, como um gabinete ministerial, responsável pelo comando e emissão de decretos.
O primeiro Sovnarkom, liderado por Lenin, teve Trotsky e Stalin entre seus membros.
Lenin era tão culto quanto enfadonho e irascível. Estudara detidamente a revolução francesa e a Comuna de Paris e não teve o menor constrangimento em promover o terror, nunca admitindo seus erros e se promovendo como o maior intérprete do marxismo.
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Em julho de 1917, em uma de suas aparições em Fátima, Nossa Senhora disse que a Rússia espalharia seus erros pelo mundo.
Em 1920 Lenin repetiria seu objetivo: “Sempre enfatizamos que uma revolução socialista em um único país não pode ser realizada”. Bem, uma coisa é certa: enquanto os vizinhos não se desgraçassem também, o sistema russo estaria inseguro, internamente, pela comparação e, externamente, pela reação dos vizinhos, preocupados com a eventual contaminação da peste.
Segundo o biógrafo Robert Service, em círculo restrito Lenin disse “Assim que estivermos bastante fortes para abater o capitalismo como um todo, vamos rapidamente agarrá-lo pela garganta”.
Sua meta inicial era a Europa. Bem mais tarde a Cortina de Ferro realizaria parcialmente, por meio de muita brutalidade, o sonho de Lenin. Durou algumas décadas, mas ruiria com a queda do Muro de Berlim.
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A onda comunista bateria nas praias ocidentais do Atlântico. A América Latina, sempre atrasada, assiste sua esquerda a louvar o comunismo, ainda que mal camuflado debaixo de palavras como socialismo, justiça social, soberania, nós contra eles … Um legítimo arsenal verborrágico da luta de classes.
Como o sindicalismo caiu em descrédito, os sovietes têm agora sua versão latino-americana em movimentos radicais nas cidades e no campo. Como se sabe, na Colômbia a guerrilha estava tacitamente alinhada com o narcotráfico. Assim, na América Latina o comando revolucionário poderia ser, quem sabe, batizado como Sovnarco.
A histórica e trágica supressão da liberdade, apanágio dos regimes comunistas, e seus fracassos mundo afora – tantos e tão bem documentados,- tornam difícil entender como esta ideologia ainda enfeitiça muita gente.
Segundo alguns, já não se trata de uma escolha, mas de uma doença. Porque é preciso, no mínimo, muita ingenuidade para acreditar em utopias, em paraísos terrestres.
Seja na Rússia, seja em Galápagos.