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Machado de Assis – Poesias

  • Novembro 16, 2025
  • Cultura
  • Rosarita dos Santos

 

Machado de Assis, 1839-1908, é um dos maiores representantes da literatura brasileira; o grande escritor foi o responsável por inaugurar o Realismo, que teve como marco inicial a obra “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, publicada em 1881.

Machado deixou um conjunto vasto de obras: foi contista, cronista, jornalista, poeta e teatrólogo, além do que é o fundador da cadeira n.º 23 da Academia Brasileira de Letras. Seu nome completo é Joaquim Maria Machado de Assis, nasceu no morro do Livramento, Rio de Janeiro, no dia 21 de junho de 1839.

Filho de pais humildes, seu pai, Francisco José de Assis, era pintor de paredes e sua mãe, a açoriana Maria Leopoldina Machado de Assis, era lavadeira.

Machado ficou órfão de mãe muito cedo e, por isso foi criado com sua madrasta. Sem recursos para estudar, ele era autodidata, e com apenas 14 anos publicou o soneto “À Ilma. Sra. D.P.J.A.”, no Periódico dos Pobres, em 3 de outubro de 1854.

Em 1855, seu poema “Ela” é publicado na revista Marmota Fluminenses. Já em 1856, fascinado por livraria e tipografia, o jovem tornou-se aprendiz de tipógrafo na tipografia Nacional. Dois anos depois, em 1858, já era revisor no Correio Mercantil e, em 1860, redator do Diário do Rio de Janeiro, cargo que aceitou a convite de Quintino Bocaiuva.

Machado escrevia para a revista O Espelho, a Semana Ilustrada e o Jornal das Famílias. O primeiro livro que publicou foi a tradução de Queda que as mulheres têm para os tolos. Em 1864, com 25 anos, publicou seu primeiro livro de poesias, Crisálidas. O autor foi censor teatral, em 1862, e em 1867, foi promovido a ajudante do diretor de publicação do Diário Oficial. Em 1869, casou-se com Carolina Augusta Xavier de Novais, senhora portuguesa que lhe ajudou na revisão dos livros e com quem esteve casado durante 35 anos.

Em 1872, publicou Ressurreição, seu primeiro romance.

Em 1873, torna-se primeiro oficial da Secretaria de Estado do Ministério da Agricultura, Comércio e Obras Públicas.

Continuou escrevendo em jornais e revistas, seus escritos eram publicados em folhetins, e depois eram tornados livros. Foi o que aconteceu com uma de suas obras-primas, Memórias Póstumas de Brás Cubas, publicado em livro, em 1881.

Entre 1881 e 1897, publicou crônicas na Gazeta de Notícias. Com outros intelectuais, fundou, em 1896, a Academia Brasileira de Letras, tendo sido presidente no ano seguinte.

Sua esposa Carolina foi a companheira ideal para Machado de Assis, pois o escritor mantém-se esgotado pelo intenso trabalho e como funcionário público; Machado sofria de epilepsia e a esposa ajudou-lhe não só nas revisões, como cuidando de sua saúde.

Sempre doente e para aumentar seu sofrimento, em outubro de 1904, morre sua mulher, auxiliar e companheira. Em sua homenagem, Machado escreve o poema “A Carolina”.

Em 1908, licenciado das funções públicas, mesmo debilitado, escreveu seu último romance “Memorial de Aires”.

Participou do projeto de criação da Academia Brasileira de Letras, sendo eleito seu presidente em 28 de janeiro de 1897, cargo ocupado por mais de dez anos. Um dos maiores nomes da literatura nacional também ganhou destaque nas últimas décadas com publicações em inglês, alemão e castelhano.

No dia 29 de setembro de 1908, Machado de Assis faleceu na casa 18 da rua Cosme Velho, no Rio de Janeiro, vítima de câncer.

Vamos aproveitar da excelência das poesias de Machado de Assis (com a escrita de seu tempo); a primeira chama-se ‘Luz entre sombras’: É noite medonha e escura, / Muda como o passamento / Uma só no firmamento / Tremula estrella fulgura, / Falia aos échos da espessura / A chorosa harpa do vento, / E n’um canto somnolento / Entre as arvores murmura. / Noite que assombra a melodia, / Noite que os medos convidam, / Erma, triste, merencoria. / No entanto… minh’alma olvida / Dôr que se transforma em gloria, / Morte que se rompe em vida.

A segunda é “Flor da Mocidade”, poema publicado em ‘Falenas’: Eu conheço a mais bella flôr; / És tu, rosa da mocidade, / Nascida, aberta para o amor. / Eu conheço a mais bella flôr. / Tem do céo a serena côr, / E o perfume da virgindade. / Eu conheço a mais bella flôr, / És tu, rosa da mocidade. / Vive ás vezes na solidão, / Coma filha da briza agreste. / Teme acaso indiscreta mão; / Vive ás vezes na solidão. / Poupa a raiva do furacão / Suas folhas de azul celeste. / Vive ás vezes na solidão, / Como filha da briza agreste. / Colhe-se antes que venha o mal, / Colhe-se antes que chegue o inverno; / Que a flôr morta já nada vai. / Colhe-se antes que venha o mal. / Quando a terra é mais jovial / Todo o bem nos parece eterno. / Colhe-se antes que venha o mal, / Colhe-se antes que chegue o inverno. Notas do autor : Os poetas classicos francezes usavão muito esta forma a que chamavão ‘triolet’. Depois do longo desuso, alguns poetas d’este seculo resuscitárão o ‘triolet’, não desmerecendo dos antigos modelos. Não me consta que se haja tentado empregal-a em portuguez, nem talvez seja cousa que mereça trasladação. A fórma entretanto é graciosa e não encontra difficuldade na nossa lingua, creio eu. (Observação: em literatura ou em poesia, ‘triolet’ refere-se a um tipo específico de poema, também chamado triolé em português, que segue uma estrutura métrica e de rima particular).

A terceira poesia chama-se “La Marchesa de Miramar”, poema publicado em ‘Falenas’: A miserrima Dido / Pelos paços reaes vaga ululando. / Garção. / De quanto sonho um dia povoaste / A mente ambiciosa, / Que te resta? Uma pagina sombria, / A escura noite e um tumulo recente. / Ó abysmo! Ó fortuna! Um dia apenas / Vio erguer, vio cahir teu fragil throno / Meteoro do seculo, passaste, / Ó triste imperio, allumiando as sombras. / A noite foi teu berço e teu sepulcro. / Da tua morte os goivos inda achárão / Fuscas as rosas dos teus breves dias; / E no livro da historia uma só folha / A tua vida conta: sangue e lagrimas. / No tranquillo castello, / Ninho d’amor, asylo de esperanças, / A mão de aurea fortuna preparára, / Menina e moça, um tumulo aos teus dias. / Junto do amado esposo, / Outra c’rôa cingias mais segura, / A corôa do amor, dadiva santa / Das mãos de Deos. No céo de tua vida / Uma nuvem sequer não sombreava / A esplendida manhã; estranhos erão / Ao recatado asylo / Os rumores do seculo. / Estendia-se / Em frente o largo mar, tranquilla face / Como a da consciencia alheia ao crime, / E o céo, cupula azul do equoreo leito. / Alli, quando ao cahir da amena tarde, / No thalamo encantado do occidente, / O vento melancolico gemia, / E a onda murmurando, / Nas convulsões do amor beija a areia, / Ias tu junto d’elle, as mãos travadas, / Os olhos confundidos, / Correr as brandas, somnolentas aguas, / Na gondola discreta. Amenas flôres / Com suas mãos tecião / As namoradas Horas; vinha a noite, / Mãi de amores, solicita descendo, / Que em seu regaço a todos envolvia, / O mar, o céo, a terra, o lenho e os noivos. / Mas além, muito além do céo fechado, / O sombrio destino, contemplando / A par do teu amor, a etherea vida, / As santas effusões das noites bellas, / O terrivel scenario preparava / A mais terriveis lances. / Então surge dos thronos / A prophetica voz que annunciava / Ao teu credulo esposo: / «Tu serás rei, Macbeth!» Ao longe, ao longe, / No fundo do oceano, envolto em nevoas, / Salpicado de sangue, ergue-se um throno. / Chamão-no a elle as vozes do destino. / Da tranquilla mansão ao novo imperio / Cobrem flôres a estrada, – estereis flôres / Que mal podem cobrir o horror da morte. / Tu vais, tu vais tambem, victima infausta; / O sopro da ambição fechou teus olhos…. / Ah! quão melhor te fôra / No meio d’essas aguas / Que a regia não cortava, conduzindo / Os destinos de um rei, achar a morte: / A mesma onda os dous envolveria. / Uma só convulsão ás duas almas / O vinculo quebrára, e ambas irião, / Gomo raios partidos de uma estrella, / Á eterna luz juntar-se. / Mas o destino, alçando a mão sombria,/ Já traçára nas paginas da historia / O terrivel mysterio. A liberdade / Vela n’aquelle dia a ingenua fronte. / Pejão nuvens de fogo o céo profundo. / Orvalha sangue a noite mexicana…. / Viuva e moça, agora em vão procuras / No teu placido asylo o extincto esposo. / Interrogas em vão o céo e as aguas. / Apenas surge ensanguentada sombra / Nos teus sonhos de louca, e um grito apenas, / Um soluço profundo reboando / Pela noite do espirito, parece / Os échos acordar da mocidade. / No entanto, a natureza alegre e viva, / Ostenta o mesmo rosto. / Dissipão-se ambições, imperios morrem. / Passão os homens como pó que o vento / Do chão levanta ou sombras fugitivas. / Transformão-se em ruina o templo e a choça. / Só tu, só tu, eterna natureza, / Immutavel, tranquilla, / Como rochedo em meio do oceano, / Vês baquear os seculos. / Sussurra / Pelas ribas do mar a mesma briza; / O céo é sempre azul, as aguas mansas; / Deita-se ainda a tarde vaporosa / No leito do occidente; / Ornão o campo as mesmas flôres bellas… / Mas em teu coração magoado e triste, / Pobre Carlota! o intenso desespero / Enche de intenso horror o horror da morte. / Viuva da razão, nem já te cabe / A illusão da esperança. / Feliz, feliz, ao menos, se te resta, / Nos macerados olhos, / O derradeiro bem: – algumas lagrimas!

(Notas do autor; Conta um biographo do archiduque Maximiliano que este infeliz príncipe, quando estava em Miramar, costumava retratar photographicamente a archiduqueza, escrevendo por baixo do retrato: «La marchesa de Miramar.» (Obs.: goivo ou goiva = lâmina que corta))

“Luz entre Sombras” nos aguarda em uma “noite medonha e escura”, onde tremula o vento nas árvores, e que finalmente a “dor” “se transforma” em glória, e a  “morte se rompe em vida!”

A ‘Flor da Mocidade’ nos permite “as convulsões do amor beijadas na areia”, mas a noite medonha logo se impós e a dor nos transforma e nos abrigamos antes que chegue o inverno!

Finalmente, “La Marchesa de Miramar” ”apenas surge ensanguentada” (…) nos seus sonhos de louca (…) pela noite do espirito, no entanto, a natureza se torna alegre e viva, ostentando a imagem feliz!

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