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FLOP 30

  • Novembro 24, 2025
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

 

Quarenta anos atrás escutei a história de um professor universitário, de origem alemã, que dissera que realmente só descansava quando se hospedava na Alemanha. Pura arrogância, pensei então. Um exagero, um preciosismo. Que vá morar por lá!, pensei.

Certa feita recepcionei um alemão em São Paulo. Hospedou-se num hotel de primeira linha e trocamos impressões por quase uma semana. Era um gentleman. Na véspera de retornar aludiu à saudade que sentia de sua esposa, de sua casa, de seu vilarejo. O entendi, porque reconhecia seu sentimento e já conhecia de perto como eram as coisas na Alemanha, onde se podia viver em paz e segurança desde que respeitando padrões de civilidade.

Anos mais tarde, quando moramos um período naquele país, fui assistir as partidas finais de um campeonato da empresa na qual permanecia, a convite de colegas que jogavam o torneio. Perderam na semifinal e os encontrei na arquibancada. Libaram um espumante e não pareciam incomodados. Então um deles disse “das hat spass gemacht”, que pode ser traduzido como “isso foi divertido”. A aversão que tenho a perder naquele momento nublou meu entendimento. Fosse eu, teria pelo menos lastimado o resultado.

Ao referir-se à cidade de Belém, o chanceler alemão pisou na diplomacia tradicional, que sequer acusaria publicamente a presença de um eventual bode na sala. Ao implicitar que contava os segundos para cair fora, clamou contra a desorganização do evento e as mazelas da cidade escolhida para sua realização. Deveria ter desabafado em círculo fechado. Foi infeliz.

Na esteira do incidente, um imaturo político brasileiro desancou o alemão como nazista e filhote de Hitler. Teve o azar de insultar um cidadão de origem judaica, que perdeu parentes em campos de concentração. Palavras soltas são penas ao vento. Contidas, dispensam arrependimentos. A par da infelicidade do alemão, o ocorrido teve o dom de mais uma vez desnudar nosso estilo atávico de reagir, desclassificando manifestações contrárias: ele deveria ter provado a culinária local, ter comido maniçoba, ter dançado, … É sempre mais fácil detonar um contrário do que reconhecer o teor de sua crítica.

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Se alguém me propuser algum recurso para que plante ou corte uma árvore no terreno em que residimos, por certo o recusarei. E até o faria com estranhamento, afinal de contas trata-se de uma questão de autonomia. Porque ninguém disponibilizaria valores sem alguma contrapartida, sem ingerência, sem poder de fiscalização. Significaria um ataque à minha soberania, um abalo na minha pequena independência territorial.

Quando o Brasil procura recursos internacionais para preservação de florestas, automaticamente perde a condição de decidir sobre elas. Será que perdemos o bom senso? Acho que, quando nasci, a simples menção a isto seria considerada um crime de lesa-pátria.

O ex-ministro Aldo Rebelo tem feito graves denúncias, aparentemente sem maior repercussão (https://www.instagram.com/reel/DRF3oMQCe-j/). O que pensar? Como poderíamos adjetivar tantos ouvidos moucos?

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Deixando de lado a desorganização do evento, a politicalha que o envolve e a triste exposição de nossas mazelas, façamos a pergunta fundamental: como abandonar o uso de combustíveis fósseis se a matriz energética do mundo ainda não tem como dispensá-los? Tirando tudo da tomada? Transição energética? Também deploro nossa dependência de recursos fósseis, mas não me alio à conversa fiada se não há alternativas concretas. Que a humanidade as busque e os investimentos em pesquisa sejam multiplicados. Será um dinheiro melhor utilizado que aquele despendido no turismo da Flop 30, que aliás queimou muito óleo diesel para operação de aparelhos de ar condicionado.

O Brasil, não esqueçamos, tem sua matriz energética em ótima situação se a compararmos com o resto do mundo por conta de nossos recursos renováveis. A pergunta que fica é como temos admitido interferências estrangeiras em nossas florestas se neste particular somos modelares? Países como a Noruega, que enriqueceu com a exploração de petróleo no Mar do Norte, têm autoridade para condenar desmatamento?

Evaristo de Miranda, então chefe da Embrapa Territorial, deu em uma palestra que todos deveriam assistir um retrato sobre a situação da nossa vegetação nativa e biodiversidade (https://www.youtube.com/watch?v=Kv4Wqj1yWhs). Diante de suas informações, deveríamos simplesmente contestar as acusações do mundo e virar as costas para os sanguessugas e suas ONGs oportunistas, acabando com suas mamatas e freando suas más intenções.

País pobre e endividado, torramos dinheiro na Flop 30.

Não dá para levar a sério a demagogia do governo.

Que azar o da minha geração!

Viver a esta altura da vida sob a hipocrisia, a mentira e a incompetência deste tempo é um preço alto demais.

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“A política foi centralizada e monopolizada. As agências de coerção estavam sob firme controle do Partido. A economia foi penetrada pela propriedade e pela regulamentação do Estado. A religião, sistematicamente perseguida. Aspirações nacionais eram vistas com graves suspeitas. A cultura artística e intelectual elevada era rigorosamente patrulhada. A escolarização foi uniformemente comunizada. Leis eram aprovadas e suspensas conforme o capricho da liderança comunista, e as funções executiva, legislativa e judiciária do Estado foram sendo deliberadamente mescladas. Os governantes trabalhavam a sociedade como uma fonte de reservas a ser doutrinada e mobilizada. Iniciou-se um ataque a todas as organizações intermediárias que tivessem alguma independência do Kremlin”.

Este trecho encontra-se nas páginas finais da biografia de Lenin redigida por Robert Service. O padrão acima resumido tem aqui e acolá semelhanças com o que se vê em alguns países da América Latina, com ênfase especial na eliminação ou neutralização de opositores. Não se trata de mera coincidência.

Pensando na cegueira e no fanatismo dos que negam as maiores barbaridades, ou fingem não vê-las, ou mesmo as aprovam, encerro com uma citação atribuída ao intelectual francês Raymond Aron: “Nada é mais incompreensível do que ver homens livres admirando regimes que negam a própria liberdade”.

Se não for de Aron, pouco importa. Segue sendo lapidar.

 

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