Vamos celebrar Nossa Senhora a Imaculada Conceição. Esta festa diz muito a países, à Igreja e à humanidade. As grandes maravilhas de que foi enriquecida vieram-lhe de fora, do Alto, do Senhor. E ela acreditou no que lhe foi dito da parte do Senhor. É Jesus que o diz em resposta àquela mulher que a exaltou por ser a Mãe de Jesus: “Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram”. E Jesus respondeu: “Mais felizes, aqueles que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática». A diferença fundamental para a humanidade é o que se recebe de fora, de Deus, não dos homens e mulheres de qualquer época.
O anjo Gabriel saudou Maria a plena de graça: “Salve, cheia de graça, o Senhor está contigo”. A graça era maravilhoso dom de Deus. E Isabel, cheia do Espírito Santo, saúda Maria: «Bendita és tu entre as mulheres e Bendito é o fruto do teu ventre!» (Lc 1, 42). “Bendita és tu porque acreditaste no que te foi dito da parte do Senhor”.
Um dos maiores obstáculos para acolher a palavra de Deus e o dom da fé é a pretensão de que os dons de inteligência, conhecimentos e razões vêm de cada um ou de alguns estudiosos; e que as revelações e dons do Espírito Santo, são crendices. No início da era cristã esta pretensão teve o nome de gnose, conhecer talentoso de autossuficiência e autossalvação. Os catecúmenos, humildes, pediam o batismo acreditando nas testemunhas oculares de Jesus Cristo, Maria, os apóstolos e alguns discípulos. S. Lucas, certamente, recolheu o testemunho de Maria, como ele dá a entender. A gnose ou gnosticismo, ao contrário, foi assumido como resistência autossalvadora e recusa em aceitar Jesus Salvador, primeiro, de testemunhas diretas e, depois, de outras indiretas, até hoje. A pretensão da gnose com este e outros nomes, tornou-se constante ao lado dos cristãos pelo dom da fé revelada e acolhida com humildade. Devido a factores diversos – espera-se que não seja orgulho do coração – os muitos descrentes sentem dificuldade em aceitar a razoabilidade de acreditar em testemunhas fidedignas da revelação vinda do Alto e presente no Antigo e Novo Testamento, nas suas fontes e na Igreja. E viver nesse estado por longo períodos.
Num texto recente do filósofo Manuel Curado -“Contra a Esperança”(Cascais,22.06.2025), discorre sobre a impossibilidade de a Filosofia de toda a história oferecer alguma razão, vinda do conhecer humano, para dar esperança que faça a diferença. É muito sugestiva a argumentação.
Sobre Nossa Senhora saiu um documento da Congregação da Fé (Mãe do Povo Fiel, 4.12.2025) a pronunciar-se sobre a atribuição do título “Coredentora” a Maria. Sem entrar em pormenores, direi, apenas, que o prefixo co torna o seu uso controverso no sentido de ação dela se tomar como igual à do único Redentor (Jesus), mas não no sentido de ser ação redentora subordinada à de Jesus, Filho de Deus feito homem. Numa palavra, toda a Redenção vem por Jesus para todos os homens como dons, graças e benefícios de salvação. Sem Jesus não há Redenção nem Maria poderia ser salva e Imaculada na sua Conceição como o papa Pio IX declarou em 8.12.1854. Maria foi a toda pura e cheia de graça (sem mancha de pecado) por ser pré-remida por Jesus Cristo, Filho de Deus, fonte única da Redenção dada a Maria e pré-aplicada na sua Imaculada Conceição.
O termo Medianeira de todas as graças associa Maria e o Redentor (Jesus Cristo), não como iguais, mas como cheia de dons recebidos de Deus para os dispensar aos seus filhos. A nota doutrinal «Mãe do Povo Fiel» (4.12.2025) da Congregação da “Doutrina da Fé”, entre outros títulos, que a Liturgia, os Santos e teólogos deram a Maria, aceita o de cooperadora de Cristo na redenção e desaconselha o título de corredentora, como se disse.
Maria Virgem, no Evangelho, é dita Mulher e Mãe por Jesus na Cruz e nas Bodas de Canaá. E no Apocalipse (Ap.12, 1) é “a mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça”, que desde 1955 está na bandeira da Europa. É também festejada como a Padroeira de Portugal, coroada pelo rei D. João IV a quem os portugueses cantam: “Salvé, nobre Padroeira… povo Teu protegido! Ave, Maria, Mãe da Igreja, Santa Maria, nossa Mãe!” Louvemo-La como a Mulher da Humildade e da Verdade e não do orgulho e da mentira omnipresentes na Modernidade e na pós-Modernidade.