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Bacamartes

  • Dezembro 13, 2025
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Quando vejo nossos gansos andando em fila indiana, no seu típico passo balouçante, comandados por seu general de brigada, lembro da admiração de minha mãe por estas aves. Gostava de vê-las e as tinha na conta de altivas e belas. De fato são e não tomam ninguém por compadre. Os trato diariamente e ainda assim nunca deixam de sibilar …

Cada vez mais reconheço as qualidades de minha mãe. Passou por dificuldades imensas e não gozou de boa saúde. Dedicou sua vida à família e sempre associo sua memória à ordem e ao sacrifício. Que não foi inútil. Deus haverá de recompensá-la.

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Dias atrás, num grupo de amigos, relembramos a escalação do Grêmio quando estudávamos no Colégio Militar de Porto Alegre. Alcindo, Flecha, Torino, Scotta, Camacho, … e um zagueiro chamado Bacamarte.

No ato lembrei do personagem Simão Bacamarte, parido pela pena do genial Machado de Assis. Como se sabe, o doutor Bacamarte foi internando no manicômio uma batelada de pessoas, nas quais identificava, segundo sua formação e olho clínico, algum tipo de perturbação.

A vida de Machado de Assis, provavelmente, de longe, o maior escritor brasileiro, põe por terra a pregação que justifica o fracasso da vontade pela condição asfixiante, definitiva, da pobreza. Machado era mulato e filho de lavadeira. Tinha tudo para naufragar, entretanto ocupou-se do que tinha valor na vida e deixou um legado inapagável, em cujo ventre, além de sua vasta obra como contista, crítico, jornalista e escritor, figura a criação da Academia Brasileira de Letras.

Aliás, pegando a carona, esta Academia promoveu meses atrás à condição de Imortal uma jornalista medíocre, cuja obra não teve, nem terá, a menor repercussão. É um sinal dos tempos da profunda mediocridade em que estamos afundados.

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Imaginemos por um instante, breve que seja, um Bacamarte que dirigisse instâncias públicas e tivesse poderes por si só grandes e ainda os tornasse ilimitados, porquanto desrespeitasse códigos e leis. E que, mercê desta condição, passasse a perseguir uns e outros, sobretudo os infelizes que apontassem seus erros, sua má conduta ou simplesmente  sua patética e criminosa extrapolação das funções legítimas que lhe caberiam.

Felizmente não temos isto em nosso país, não é mesmo? Só me preocupa que um Bacamarte como este seria muito diverso do Bacamarte machadiano. Porque este cometia barbaridades por convicção, por fim quebrada quando ele próprio internou-se no manicômio. O outro Bacamarte não agiria montado na sela das convicções, mas no lombo de um cavalo cruel, que cavalgaria, num galope desenfreado, em busca de poder e vantagens pessoais.

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Neto, filho e irmão de jornalistas sem faculdade, reconhecidos pelo exercício da função, desde pequeno estive indiretamente envolvido na imprensa escrita interiorana. Conheço sua luta, suas dificuldades e a permanente tentativa de cooptação, de ameaça ou mesmo perseguição aos que não perfilam entre os covardes, bajuladores, omissos ou mal intencionados. Incluo entre os últimos os militantes, que não se limitam ao viés ideológico, senão o adotam contra tudo que ameace suas fantasias, suas utopias ou seus compromissos com os que coadunam com sua visão política.

Num momento em que as liberdades no país estão seriamente ameaçadas, por ações de uns e omissões de muitos, com gente perdendo seu tempo a sonhar com intervenção militar, interna ou mesmo externa, lembro que a imprensa foi muitas vezes tratada como sendo o quarto poder. Do qual abdicou, sobretudo pela desonestidade intelectual nas redações de grandes veículos de comunicação e por interesses inconfessáveis de seus proprietários.

Lanço mão de um trecho do prefácio do livro investigativo “Hugo Chávez, o espectro”, de Leonardo Coutinho, que atribui ao ex-presidente venezuelano a promoção do terrorismo, da desordem global e do narcotráfico.

“O jornalista tem por ofício a obrigação de duvidar. Passados vinte anos durante os quais me nutri da dúvida para exercer a profissão, hoje me pergunto quantas histórias podem ter sido negligenciadas justamente pelo fato de ninguém, inclusive eu, tê-las levado a sério. E sem perceber, por ironia ou teimosia, uma parte significativa da minha carreira foi dedicada a contar histórias em que quase ninguém acreditava ou acreditaria se não fossem publicadas quase sempre com base documental. Fiz isso porque estou convencido de que, além de ser incrédulo, o jornalista tem por dever reportar os fatos que merecem ser publicados, ainda que eles não se acomodem em noções preconcebidas ou incomodem a maioria.”

Como neto, filho e irmão de jornalistas, sei das bajulações e das ameaças, que aliás andam de mãos dadas. Aquelas, para corromper pela vaidade. Estas, para dissuadir.

Como neto, filho e irmão de jornalistas movidos pelo idealismo, lamento o triste papel que a imprensa tem cumprido em nosso país. O tal quarto poder foi trucidado pela militância e por interesses escusos.

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