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O glória dos anjos

  • Dezembro 17, 2025
  • Religião
  • José Maria C. da Silva André

Coro dos anjos. Ilustração gerada por IA.

 

Se os jornais aceitassem títulos compridos, este poderia ser «o canto de glória dos anjos, a Conferência Episcopal Portuguesa e o alerta do Papa Bento XVI relativamente ao assunto». Se estivéssemos no século XVII seria até um pouco mais extenso.

Depois de um anjo anunciar aos pastores de Belém o nascimento de Jesus, «apareceu subitamente uma multidão da milícia celeste louvando a Deus dizendo: glória a Deus no mais alto dos céus e paz na terra aos homens do seu agrado». S. Lucas narra esta cena e acrescenta mais informações. Importam agora as palavras do coro angélico.

O Glória próprio do Natal, recitado também nas missas de Domingo, excepto no Advento e na Quaresma, começa com esta frase: «Glória a Deus nas alturas, e paz na terra aos homens por Ele amados».

Então, por que é que o Papa Bento XVI dedicou 2 páginas da sua obra «Jesus de Nazaré» a criticar as conferências episcopais alemã e portuguesa, nomeando-as expressamente? O motivo é que em ambas línguas houve erros de tradução. Concretamente, o missal português trocou as palavras dos anjos «paz na terra aos homens do seu agrado» pela expressão «paz na terra aos homens por Ele amados».

Este engano acontece em edições populares de outras línguas, mas, em geral, os respectivos missais seguem a tradução correcta. Como Deus ama todos os homens, bons e maus, a troca não chama a atenção; é como se os anjos anunciassem paz para todos os homens, já que são todos amados por Deus.

A questão é que, como Bento XVI explica, não foi essa a mensagem dos anjos, que refere expressamente «os homens do seu agrado». A própria versão latina usada na liturgia não é completamente rigorosa porque diz «homens de boa vontade», subentendendo que são eles que agradam a Deus.

Se os anjos tivessem anunciado o fim da tirania de Herodes ou da ocupação romana, perdiam toda a credibilidade; mas os anjos falaram de uma paz diferente. O profeta Isaías chamou ao Messias «Príncipe da Paz», sem esconder as desgraças que Lhe sobreviriam. Esta paz não é a imediata pacificação universal, mas um dom divino para quem se deixa alcançar pela sua paz.

A Conferência Episcopal Alemã adoptou uma tradução errada provavelmente por descuido. Portugal desculpa-se com seguir a Conferência Episcopal Brasileira. O Brasil terá as suas próprias razões.

Neste Natal, tão cheio de guerra e massacres, sentimo-nos a rezar como os anjos. Mas a liturgia faz-nos mais santos: ensina-nos, ajuda-nos a rezar, encaminha a nossa devoção para Deus, protegendo-nos da introspecção. A fidelidade litúrgica não é só uma obrigação, é um dom. Quando gostaríamos que as palavras fossem diferentes, damos maior glória a Deus obedecendo. Por isso, cada Domingo na Missa rezamos alto e bom som como está nos nossos missais em português: «…aos homens por Ele amados»!

Seguimos o missal e não os anjos. Conquistamos assim para nós aquela paz tão especial que Cristo veio trazer: «deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz, não vo-la dou como o mundo a dá».

O rigor das normas litúrgicas faz bem a todos, leigos e padres e bispos. E é dever de todos, talvez até mais da hierarquia, chamada a exercer a autoridade como serviço. O Papa Francisco classificou várias vezes como clericalismo o modo anómalo de conceber a autoridade na Igreja, por exemplo na «Carta ao Povo de Deus» de 2018. Neste sentido, também é clericalismo o celebrante trocar as orações do missal por outras da sua preferência, porque se está a impor ao povo de Deus, a abusar da autoridade em vez de o servir.

Dito isto, é justo acrescentar que as traduções portuguesas do missal foram feitas com muito cuidado. Podem retocar-se nalgumas palavras, mas têm grande valor, até como modelo de elegância literária.

Um dos retoques pendentes consiste em ler as 2 páginas que Bento XVI dedicou às Conferências Episcopais Portuguesa e Alemã e corrigir o lapso. Já agora, dando nota aos bispos do Brasil para que actualizem a tradução na parte que lhes toca.

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