National Park Service / District of Columbia (Lincoln Memorial)
Tentamos uma reunião com o prefeito. Tudo parava no chefe de gabinete. Na verdade me incorporei à tentativa na reta final. Fui até a prefeitura e me encaminharam para a assessoria de imprensa. Qual o assunto? Ah, sim, informaremos ao chefe de gabinete a sua solicitação …
Para a pessoa que me atendeu, comentei que até os reis tinham audiências públicas. Ah, mas se o prefeito fizesse isto seria uma confusão e a fila seria enorme! Repliquei que este é o menor custo da famigerada democracia. Preferi não alongar, por conta da gentileza de quem me atendera mas, cá entre nós, se a fila seria interminável isto deveria ser tratado como sintoma de que as pessoas têm solicitações não atendidas. Poderia ir além e lembrar que em campanhas eleitorais os candidatos a alcaide partem para o corpo-a-corpo, distribuem sorrisos e prometem ouvir o povo. Pois é, como dizem, treino é treino, jogo é jogo.
Dias atrás assisti uma entrevista no podcast Hello, Brasil! Daniel Goldberg, respondendo a uma pergunta dos apresentadores, valeu-se de uma metáfora. Se alguém insistisse em sentar à mesa num restaurante famoso e lotado, o maitre europeu perguntaria quem você é?, aludindo ao peso da aristocracia. Nos Estados Unidos perguntariam o que você fez? Já no Brasil, a pergunta seria quem você conhece?
Veio à lembrança o que lera na biografia de Abraham Lincoln, de Emil Ludwig. Em meio à Guerra da Secessão, o brutal conflito entre a União, do norte, contra a Confederação, sulista, Lincoln atendia os que o procuravam:
“Aos assuntos importantes e às graves preocupações do Estado acrescentavam-se esses pequenos cuidados que, sem o grande equivalente da salvação de vidas humanas, lhe custariam tempo, energia e reflexão; porque ele não se podia habituar a considerar grandes os primeiros e insignificantes os segundos”.
Bem, mas este foi Lincoln.
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Numa de nossas viagens visitamos Washington, Nova Iorque e Boston, além de seus arredores. A capital norte-americana nos surpreendeu por sua beleza, suas largas avenidas e sobretudo pela possibilidade de chegar muito perto do Capitólio e do símbolo máximo do poder, a Casa Branca.
O alinhamento entre o espelho d´água, o obelisco, a Casa Branca e o Capitólio constitui um eixo monumental. Nossa filha caçula beirava cinco anos e em sua teimosia, à época enorme, lutava pelo uso da câmera fotográfica, pesada e cara. Nos retratou diante do Lincoln sentado para a eternidade, com semblantes que de alguma forma acusavam a preocupação com o aparelho …
Antes de subirmos para a bela cidade de Boston, visitamos o Blood Cornfield, palco de uma das mais violentas batalhas da guerra civil.
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Já que mencionei Lincoln, aproveito para ressaltar algumas passagens deste filho do Kentucky, que migraria para Indiana e depois para Illinois. Com estatura incomum, mal vestido, anguloso e desajeitado, foi lenhador sem par, jangadeiro e carteiro. Lia tudo que lhe caía às mãos e viria a se tornar advogado por autodidatismo.
Eleito deputado, em 1850, conheceria a capital Washington, com animais, estábulos e ruas imundas. Experimentaria a tarefa de atender pedidos de colocações e entenderia a regra segundo a qual “para que os lobos não nos devorem, cumpre saber-lhes imitar os uivos!”.
Assim que chega à Casa Branca, acompanhado pela deslumbrada esposa, oprimido pelo horizonte da guerra civil, para a qual sua eleição foi um estopim, passa a registrar ideias que haveriam de projetá-lo na história:
“Entre nós ninguém merece mais confiança do que os homens que se elevam pelo próprio esforço, e ninguém é mais indigno dela do que os indivíduos que sucumbem à tentação de se apropriarem do que não conseguiram com um trabalho honrado. Os primeiros não devem renunciar ao poder politico de que desfrutam nem fechar as portas do sucesso aos seus semelhantes. Cabe-lhes, pelo contrário, o encargo de arrostar novas dificuldades e novos ônus, para conservar a liberdade”.
Para chegar ao topo Lincoln tivera de avir-se com terríveis rejeições à sua figura, como num processo entre o Estado de Ohio e os caminhos de ferro. Quando chegara sua vez de manifestar-se como advogado, deveria secundar Stanton, que fora Ministro da Guerra no governo de Buchanan.
Stanton o interrompeu, declarou-se advogado principal e disse aos amigos: “Não posso apresentar-me ao lado desse macaco mal vestido que acaba de sair do mato”. Mais tarde perguntaria a McClelan, general de Lincoln, “Por que se dão os exploradores ao incômodo de ir à África, quando poderiam achar em Springfield o mono mais gigantesco?”.
Sua presidência foi sinônimo de noites mal dormidas – “Desde que aqui estou durmo com um olho aberto e só fecho os dois, se me aparecem os candidatos a empregos”,- e de permanentes apreensões:
“Assomando à larga janela do seu quarto, Lincoln avista, além, o grande rio e com auxílio do binóculo pode ver distintamente a bandeira azul dos insurretos, que flutua na outra margem, ao sopro dos ventos, como ondula nesta o pavilhão legal, e é igualmente honrada e venerada”.
Não bastasse a ameaça de ataque à capital, com tropas estacionadas no outro lado do Potomac, Lincoln não via em seus generais a determinação e a coragem para combater. Diríamos, hoje, em linguagem gauchesca, que eram machos que compadreavam .. fosse porque estavam sempre a reunir forças, fosse porque combatiam irmãos.
Quando os generais do norte só desapontavam, prolongando a guerra e impedindo a declaração que Lincoln planejara de libertação dos escravos, eis que despontou Ulysses Grant, um general que apresentara problemas com álcool, mas não fugia do pau.
Grant, então, vence uma vez … e volta a vencer … fazendo com que Lincoln diga “Não posso prescindir deste homem. Ele combate”. Quando alguém se referiu ao vício do general Grant pelo álcool, Lincoln resumiu de forma pragmática:
“Diga-me ao menos a marca do “whisky” que ele prefere, para que me seja possível mandar alguns toneis da mesma bebida aos outros generais!”.
Contador de anedotas, campônio, mas profundo conhecedor dos homens, Lincoln reelegeu-se: “Não convém mudar os cavalos justamente no meio da correnteza”.
Não foi o maior orador de seu tempo, mas algumas de suas mensagens são lapidares:
“A propriedade, fruto do trabalho, é um bem desejável, um dos bens positivos do mundo. O fato de haver homens ricos prova que os outros também o podem ser e nele vejo um incentivo à atividade e ao espírito empreendedor. Não queira o que não possui um teto arrasar a casa alheia, mas trabalhe ativamente para construir para si um lar e dar assim o exemplo de que protege contra todo ataque aos seus, para os quais erigiu esse abrigo”.
Depois de tantos riscos e padecimentos, foi assassinado, no camarote de um teatro, aos 56 anos. Os negros estavam libertos de seus grilhões e, anos depois, Grant seria eleito presidente.