Monumento ao General Osorio, na Praça XV, Rio de Janeiro (RJ). A estátua, feita com canhões capturados, foi inaugurada em 1894.
Andávamos sem pressa em direção ao litoral, porquanto o fim de ano por si só nos convida a desacelerar. À nossa frente, por algum tempo, um caminhão com publicidade estampada: Poteitos. Como uma gota no oceano da nossa perda de identidade. Pode parecer pouco, mas de gota em gota o balde já transbordou.
Na manhã seguinte, bem cedo, caminhei pela praia semideserta. Alguns pescadores, com os caniços enfiados em tubos, que deixam suas mãos livres. Apenas olham a extremidade do equipamento. Quando vibram, ou vergam, algo deixou-se fisgar.
Depois tomei a bicicleta. O pneu traseiro estava como a dúvida do copo: meio vazio, meio cheio. Na metade do caminho o calibrei num posto de gasolina. Para então fruir, como se pedalasse outra bicicleta. Tropecei na metáfora: se a vida parece pesada, quem sabe, rezando, calibrarmos um pouco a esperança?
Enfim, véspera de Natal, fomos à missa, animados pela leitura prévia de Isaías, 7, 10-14: “Ouvi, então, vós, casa de Davi; será que achais pouco incomodar os homens e passais a incomodar até o meu Deus? Pois bem, o próprio Senhor vos dará um sinal. Eis que uma virgem conceberá e dará à luz um filho, e lhe porá o nome de Emanuel”. Isaías viveu em torno de oito séculos antes da concretização de sua profecia.
A Encarnação divina, a despeito da relutância dos ateus, agnósticos e arianos, que seguem por aí, é um fato absolutamente extraordinário. No início da celebração, quando uma menina aproximou-se do altar, com o Menino Jesus em suas mãos, os sinos da igreja ribombaram de alegria, de júbilo. Foi tocante. Revivemos o nascimento d´Aquele que trouxe luz às trevas.
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Já reza o ditado: quem tem amigos, não morre pagão. Reservista de segunda categoria, pertenci à arma de Artilharia. Meu “paganismo” nas coisas da Cavalaria diminuiu sensivelmente com a leitura de Osorio, obra de Pedro Estigarribia, que me foi presenteada por estimado amigo.
Com certeza predomina entre as gerações nascidas nos últimos quarenta anos a ignorância acerca deste gaúcho, que sentou praça muito moço. Acompanhou seu pai, Tenente-Coronel, na Província Cisplatina. Ingressou no Exército no contexto da Guerra da Independência, no Cerco de Montevidéu, na luta contra os portugueses, que ainda não haviam admitido a secessão.
A destreza com que Osorio cavalgava lhe valeu a alcunha de Centauro. E foi montado, sempre na vanguarda, que conquistou a admiração de seus comandados. Naquela época a logística para a tropa era precária e a dieta dos soldados “resumia-se à carne fresca e, por bebida, apenas a erva-mate e a cachaça”. Osorio temperou-se neste tempo.
Em meados do século XIX a disposição para a luta exigia muita coragem: “primeiro ocorrerá o duelo de fogos de artilharia, que não alcança muito longe, algumas centenas de metros apenas; quando o assalto se aproximar começa a fuzilaria dos infantes (cada homem levava cerca de 1 minuto por tiro), dispostos em 3 fileiras para aumentar a cadência. O tiro dos infantes começava quando o adversário chegava a uns quatrocentos metros de distância. A cavalaria procurava deter penetrações ou era empregada para carregar no flanco adversário durante a aproximação ou o assalto”.
O biógrafo descreve uma passagem muito interessante. Era comum que os comandantes desfilassem a galope diante dos soldados, com brados de guerra, Seguia-se, em resposta, “a gritaria assustadora de milhares de homens exaltados, quase histéricos, liberando os temores”. Combater de peito aberto jamais será fácil e Osorio foi o valente dentre os valentes.
Para destacarmos um só período da vida de Osorio, sabe-se que sua participação na Guerra do Paraguai responde por páginas gloriosas. Virtude cada vez mais rara, Visconde de Taunay a exaltou para descrever o grande traço do herói: “Osorio tinha o vício da bravura”.