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Desobediência

  • Janeiro 1, 2026
  • Cultura
  • João Baptista Teixeira

Os que passaram dos sessenta anos, como eu, têm no currículo mudanças de regime, memória inflacionária, planos econômicos, sonhos frustrados, escândalos pra ninguém botar defeito e decepções pétreas. Gostaríamos até de nos iludirmos, mas um pingo de bom senso e razão nos proíbe de fantasiar.

Sobejam promessas não pagas e parece que nosso drama jamais terá fim. Pelo menos esta é a realidade dos sexagenários diante da estimativa de que precisamos de uma nova geração para transformar o país em trinta anos. Poucos de nós terão este tempo e a sensação que me assoma o peito é que dissipamos nossos ideais no esmeril do tempo. Sejamos honestos: fracassamos, ainda que individualmente tenhamos prosperado. Nosso fracasso é civilizacional.

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O que dizer da Operação Lava-Jato? Ladrões confessos ou condenados por testemunhos e muitas provas andam soltos e alguns, agora, começam a receber de volta os valores que lhes foram retirados. Eu só gostaria de entender o que aconteceu: trata-se de ladrões que foram perdoados? Recebem de volta o que roubaram porque o rito seguido não poderia tê-los condenado? Ou seja, o leite derramado retorna à leiteira?

Meses atrás foi denunciada a roubalheira na previdência social: milhões de aposentados tiveram valores surripiados de suas pensões e desviados para um bando de larápios. Fala-se em bilhões de reais. Que o governo prometeu devolver. Não, o verbo é impróprio. O governo não devolverá porque não foi ele quem roubou. O governo pagará novamente. O governo, não. Nós pagaremos. O governo não passa de um tomador de recursos, que os utiliza muito mal. A propósito, dos bilhões desviados, quanto foi recuperado?

Pródigo em escândalos, o país agora escuta, incrédulo, a cada dia, detalhes a respeito de um banco quebrado que tentaram vender para um banco público. Se pelo menos a metade das informações que têm sido veiculadas for verdadeira, trata-se de um caso que poderá derrubar muita gente, mas que já começou mal: o pivô de tudo foi preso e liberado em poucos dias.

Antes de ser solto, porém, segundo matéria da revista Veja, “confidenciou a amigos que abrirá uma garrafa de vinho assim que deixar o Centro de Detenção Provisória (CDP) 2 de Guarulhos … Ele aprecia o vinho Sassicaia safra 2011. Cada garrafa custa 6 mil reais”. (https://veja.abril.com.br/coluna/radar-economico/comemoracao-com-vinho-marca-soltura-de-daniel-vorcaro/). Contextualizemos: cada garrafa custa em torno de quatro salários mínimos.

Especula-se que uma eventual delação premiada do pivô teria o poder de derrubar a república. Será mesmo? Receio que não, afinal a tal república tem resiliência de sobra porque por esta latitude os escândalos são devorados pela impunidade.

É tanta barbaridade que o histórico brasileiro é hors concours. É digno, talvez, de ser investigado e combatido pela Liga da Justiça dos desenhos animados. Porque serão necessários superpoderes para enfrentar tantos maus.

Mas a corrupção, oceânica neste país, não está sozinha. Conta com a companhia mefítica da dívida pública e miasmática do estamento inchado e fora de controle.

A dívida é astronômica e, a esta altura, parece impagável. Enxugamos gelo iceberguiano e faz tempo que gastamos muito mais em juros do que em outras rubricas. O gráfico divulgado pela Auditoria Cidadã da Dívida relativo a 2024 (https://auditoriacidada.org.br/) é um balde de água gelada tentando despertar os capazes que ainda manifestam real indignação.

Tome-se apenas um exemplo acachapante: torramos aproximadamente seis vezes mais em juros e amortizações da dívida do que em saúde e educação somadas! E a situação tende a agravar-se quando a taxa básica de juro se esforça para integrar o Guinness World Records.

Quanto à dívida, resta um comentário: um governo de esquerda quitou antecipadamente a dívida de 15 bilhões de dólares com o FMI (https://www.camara.leg.br/radio/programas/266702-quitacao-antecipada-de-divida-com-fmi-causa-polemica-05-18/).  Uns tantos comemoraram: a dívida a partir de então seria interna … Foi uma decisão polêmica, porquanto as taxas de juro pagas no Brasil e lá fora eram e seguem sendo muito diferentes.

Atualmente nossas reservas internacionais andam na casa de 360 bilhões de dólares (https://www.bcb.gov.br/estabilidadefinanceira/reservasinternacionais). Enquanto isto – teríamos caído na ratoeira?- nossa dívida interna é colossal, agravada pela taxa básica de juros que está na casa de 15% ao mês.

Virar este jogo não é tarefa para os Sísifos nossos de cada dia.

Os cínicos tentam jogar toda a fatura na Previdência Social enquanto os governos mostram-se sempre criativos: dão um jeito de arrancar algo mais dos cidadãos. É antiga a tortura que conjuga chicote com sal. Depois de zurzir o infeliz, o carrasco, qual promotor de “justiça”, salga as feridas. Assim, havemos de reconhecer: os governos salgam o lombo do povo.

O coadjuvante desta tragédia é o estamento burocrático, que trata de cuidar bem de si mesmo. Os poderes, inchados todos, fazem de conta que não é com eles. Decidem, julgam e legislam sem que nosso horizonte clareie, sem que o poder aquisitivo aumente, a educação melhore, a criminalidade diminua e a sensação de liberdade, oxigênio fundamental, se amplie.

O que se põe diante do país é: como escapar desta tragédia, ampliada pela roubalheira, pela indiferença do estamento, que cuida de si mesmo, e pela demagogia que escraviza?

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Enquanto postergamos o início dos tais trinta anos que encerrarão nosso drama, nós, os sexagenários, ainda podemos divagar.

Em 1849, quando a escravidão ainda era legal nos Estados Unidos, veio à lume “Desobediência Civil”, obra de Henry Thoureau, ensaísta, poeta e filósofo, que também nos legou Walden. Thoureau dá o tom na primeira frase: “Aceito com entusiasmo o lema “O melhor governo é o que menos governa” e gostaria que ele fosse aplicado mais rápida e sistematicamente”.

Ele tangencia a questão moral, mas não se aprofunda: “Um governo no qual prevalece o mando da maioria em todas as questões não pode ser baseado na justiça”. Se evade da discussão sobre o que é certo ou errado e sugere que se entregue à maioria tão somente a decisão sobre questões às quais seja aplicável a norma da conveniência. Como se tem visto, longe da moral pode-se aprovar o aborto. Longe da razão pode-se até mesmo revogar a lei da gravidade.

Em sua opinião “devemos ser em primeiro lugar homens, e só então súditos. Não é desejável cultivar o respeito às leis no mesmo nível do respeito aos direitos”. Recrudesce então sua análise: “A lei nunca fez os homens sequer um pouco mais justos; e o respeito reverente pela lei tem levado até mesmo os bem-intencionados a agir quotidianamente como mensageiros da injustiça”.

A massa de homens serve ao Estado não na qualidade de homens, mas como máquinas. Tais homens não são mais respeitáveis que um espantalho, ainda que sejam apreciados como “bons cidadãos”. Por seu turno, “a maioria dos legisladores, políticos, advogados, funcionários e dirigentes, que servem ao Estado principalmente com a cabeça, e é bem provável que eles sirvam tanto ao Diabo quanto a Deus – sem intenção – pois raramente se dispõem a fazer distinções morais. Há um número bastante reduzido que serve ao Estado também com a sua consciência; são os heróis, patriotas, mártires, reformadores e homens, que acabam por isso necessariamente resistindo, mais do que servindo; e o Estado trata-os geralmente como inimigos”.

Thoureau vai mais longe: “Todos reconhecem o direito à revolução, ou seja, o direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis a sua tirania e ineficiência”.

Por recusar-se por seis anos ao pagamento do imposto per capita, ele foi preso, ainda que tenha sido solto no dia seguinte porque alguém interferiu e quitou o débito: “Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar digno para um homem justo é também a prisão. (…) Se há alguém que pense ser a prisão um lugar onde não mais se pode influir, no qual a sua voz deixa de atormentar os ouvidos do Estado, no qual não conseguiria ser tão hostil a ele, esse alguém ignora o quanto a verdade é mais forte que o erro e também não sabe como a injustiça pode ser combatida com muito mais eloquência e efetividade por aqueles que já sofreram na carne um pouco dela”.

Quase ao final do livro Thoureau menciona Daniel Webster, conhecido por poderosa oratória e sua posição como defensor da União e da Constituição, para sutilmente questionar seu pensamento. Preocupado em não apoiar qualquer iniciativa que pudesse desmanchar “o acordo original pelo qual os diversos Estados formaram a União”, Webster desconsiderou o lado moral da questão ao manifestar que “Já que é parte do pacto original, que continue a escravidão”. Bom exemplo de algo consolidado em lei, mas moralmente indefensável.

Webster morreu em 1852, a Guerra da Secessão começou em 1861 e a escravidão teve seu fim decretado em 1863: “Oradores, políticos e homens eloquentes existem aos milhares; mas ainda estamos por ouvir a voz do orador capaz de solucionar as complexas questões do dia-a-dia”.

Por vezes chego a pensar que não merecemos o país que herdamos. Que os próximos trinta anos desmintam.

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