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O que esperar de 2026? Entrevista do Padre Aires Gameiro

  • Janeiro 5, 2026
  • Religião
  • Editoria GPC

 

No final de mais um ano e começo de outro, apresentam-se vontades para a partilha de reflexões ao ritmo de cada vida individual e colectiva/comunitária… Propõem-se, com muita oportunidade, testemunhos concretos, vividos em vários tempos históricos, numa espécie de balanço, como numa ponte de ligação entre um vasto passado e o presente.

Neste contexto, elegemos como relato paradigmático o que nos diz em breve entrevista o P. Aires Gameiro, membro Ordem Hospitaleira de S. João de Deus, 96 anos de idade, a viver atualmente no Funchal.

A primeira questão:

Quase a completar um século de sabedoria e complexidades, como analisa o tempo vivido até agora, em termos gerais? O que mais destaca na sua longa caminhada e o que ainda espera?

Vivi de longe os medos infantis da guerra espanhola dos anos trinta, ouvindo falar de legionários, de ajudas aos nacionalistas espanhóis; e a povoar a imaginação de tiroteios nas igrejas e eu exposto a uma entrada inesperada de gente armada a dar tiros nas pessoas presentes e em mim. Tudo muito nebuloso de conversas que circulavam e de ouvir dizer que algum homem da freguesia ia para a guerra e outros emigravam para a França. A seguir veio a guerra de 1939 -1945 que me apanhou nas idas à loja comprar alguns alimentos racionados. A dois anos do fim da guerra entrei na Escola Apostólica e um Irmão que assistia um pensionista aparecia com o jornal e resumia a situação da frente. Os vidros das janelas foram forrados de papel, o morro do Berto na Carregueira estava ocupado com soldados que passavam em desfiles motorizados e sidecars à porta da Casa de Saúde.

Alguns Irmãos foram chamados para os quarteis. Trabalhei por 1945 na despensa da Casa, e, por 1949, fui o despenseiro. As compras do Irmão ecónomo continuaram racionadas, mas a Casa de Saúde, instituição de saúde,era algo privilegiada. Veio a “guerra fria” que vivi seis anos na militarizada Ilha da Terceira, nos Açores. Em Roma, em 1956 e 1957, treinei-me a ler, em italiano, as reportagens dos jornais sobre o levantamendo da Hungria, o Cardeal Mindszenty, o Arcebispo Stepinac, do quais visitei, mais tarde, os túmulos com flores. Acompanei notícias sobre Fátima e a conversão da Rússia.

O balanço possível do tempo da guerra fria de que ainda não saímos continua a ser bastante magro, com exceção da EU que se tem degradado com tantas questões fraturantes, secularização extremista e anticultura cristã. Portugal tarda em sair do clima esquerdista e pro comunista, até hoje. A esperança vem à humanidade mais pela fé no Filho de Deus, pois, só n’Ele podem confiar plenamente homens renascidos.

Comunga do aforismo de um antigo poeta – “A vida é curta, a arte é longa”, tão popularizado através dos séculos?

Diria de forma mais prosaica: por muito longa que seja a vida o que o homem consegue aprender e compreender é uma gota de água nos oceanos do saber ignorado em relação ao aprender da visão e graça divina. O que perdura, além das ciências técnicas do fazer, são teorias filosóficas e «doutrinas incertas e estranhas» (cf. Hebr 13, 7-9ª) repetidas, indefinidamente, com poucas diferenças pelos muitos opinadores.

Qual acha ser “uma das grandes lições da sua vida” repartida pelo mundo religioso consagrado, e no meio social, histórico, onde tem exercido as funções de professor, conferencista, autor de ensaios, historiador, poeta, articulista…?

Uma lição de que tanto preciso é a humildade. A aprendizagem intercultural e a vida longa dão uma visão longitudinal, complexa, facetada e menos rígida. Os conhecimentos, embebidos de sabedoria cristã, experiência social e perspetivas históricas de práticas de bem-fazer e realizar o bem comum ajudam a evitar a formatação de tendência monolítica, unidisciplinar, talvez impregnada de autoconfiança orgulhosa da própria especialização e ajudam a manter relações de mais empatia e a baixar-se ao nível dos pequenos. Diria, ainda, que é isto que tento ser e viver como pessoa de dimensões harmonizadas, embora reconheça que estou longe de o ter conseguido como desejaria.

Sou um aprendiz de S. João de Deus que a minha tese sobre o séc. XVI e os misericordiosos me ajudou a conhecer melhor. Quando lecionava no ISCTE um colega da Faculdade de Farmácia,ateu confesso, lia e distribuía os meus escritos (S. C.) e admirava a maneira como eu integrava os conhecimentos de Psicologia com outros saberes sem cair para um lado ou para o outro.

Publiquei nessa data o livro “Passos psicológicos do crescer”, a que, em parte, ele se referia, e outros livros e cadernos sobre problemas sociais e a teoria de Carl Rogers. Há tempos, um amigo disse que pensava fazer uma tese sobre os meus escritos. Quase me deu vontade de dizer: veja em que é que se mete. Só para os reunir, ler e analisar a todos será um frete, quanto mais encontrar o fio unificador da meada. Seria um desafio para ele e para o orientador encontrar a linha de sentido da minha vida de religioso consagrado por entre as interculturalidades socio-históricas e a consistência pessoal.

Surpreende-se com as “maravilhas” das novas tecnologias, deixa-se cativar pelas “redes socias”? Receia a AI – “Inteligência Artificial”? Continuaremos a perguntar “o que é ser humano?” E onde fica Deus no meio disto tudo?

Maravilham-me mais as tecnologias, de que a Inteligência Artificial faz parte, que as filosofias repetitivas e literárias com tanta evasão e circunlóquios de evitamento de se identificar e dizer quem e o que se é. Anda-se mais em círculos à volta do que se diz e faz, e do que outros disseram e fizeram. Pouco, acerca de quem se é. Não basta perguntar e dizer o que é o ser humano, em geral, mas quem e o que é cada um que filosofa. Predominam as fragmentações: as tecnologias dizem ferramentas, instrumentos, fazer; as ciências do ser dizem sabedoria (saber com sabor, luz do mundo e sal da terra), pensar e ser bom para si e para os outros (e o outro, totalmente Outro), amar com empatia de ação.

Falta a consistência e a coerência, impressiona o fato de haver tantas universidades e não pesarem mais nos caminhos de tornar os homens bons. Impressiona, ainda, mais que vigorem nelas tendências a promover mais conhecimentos técnicos que conhecimentos e ações de bondade, de bem comum, o bem de todos.

Será que os conhecimentos sobre Deus e a bondade dos homens são inúteis, e são de pôr de lado por serem perigosos e prejudiciais? E que o mesmo aconteça com os conhecimentos sobre Jesus Cristo, como Palavra e Boa notícia de Deus, e a Igreja como seu Porta-Voz? Será que para ser credível o escritor, filósofo, literato ou mesmo o teólogo devem seguir mais a linha de passar ao lado do ser bom e fazer o bem? Ou viver várias agendas inconsistentes?

Há anos, numa estada de alguns dias num hospital para implantar um pacemaker, um amigo ofereceu-me um livro de um autor famoso. Comecei a ler e pareceu-me que ia defendendo que era melhor estar com um pé dentro e outro fora da Igreja e mesmo todo de fora. Parecia desvalorizar o viver identificado e fiel à Igreja e à fé que ela anuncia e celebra. Parecia levar-me a deplorar o viver com os dois pés dentro das fronteiras visíveis da Igreja, mesmo quando atravessei algumas ondas tumultuosas do pós-Vaticano II ou outras.

Claro que não são casos perdidos aqueles que parecem viver com um pé dentro e outro fora; e menos ainda se procuram sinceramente o caminho para o centro. Deus compadece-se e chama a qualquer momento para se aproximarem d´Ele e ficarem dentro e no centro, como acontece, diariamente, com milhares. É estranho que sejam ignorados pelos chamados progressistas e católicos de esquerda.

No final de cada ano, costuma fazer análises ou contas entre erros e sucessos, somas e débitos?

Sim, é importante e antídoto de auto engano o exame de consciência como fazia em cada retiro e tempos de reflexão: hoje os programas e metodologias da qualidade institucional insistem muito na avaliação, mas fica por vezes a impressão que não abrangem o todo das dimensões das instituições e das pessoas. Nas contas de receitas e despesas pessoais é importante que a avaliação abranja o como se administra algum dinheiro alocado a gastos pessoais, quotidianos, à luz do bem comum e da partilha fraterna, com todos os Irmãos e filhos de Deus. Prestam-se contas à própria comunidade e família, mas não se pode parar aí, excluindo o resto da família humana.

Para o ano novo, o que mais deseja que aconteça face ao conhecimento actual, em termos do nosso País, do mundo e da Igreja?

Esta é mesmo uma questão enorme! O que mais desejaria seria a mudança do paradigma das teorias justificativas da guerra; e ver murchar os três tráficos de morte: de armas, de drogas químicas, (redes e jogos de pornografia e dinheiro) e de compra e venda de pessoas como coisas de uso e abuso. E que muitos escravos (mesmo os que se julgam livres) caíam na conta de que pagam para outros os escravizarem e manterem escravos. Enfim, uma paz desarmada e desarmante «do coração, da mente e da vida» com disse o Papa Leão IV na sua recente Mensagem para o Dia Mundial da Paz.

(MM – 2 de Janeiro de 2026)

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