O olhar do padre Aires Gameiro
No limiar de um novo ano, quando se procuram balanços e se interroga o futuro, o testemunho do padre Aires Gameiro, membro da Ordem Hospitaleira de São João de Deus, impõe-se como uma memória viva do século XX e uma consciência crítica do presente. Com 96 anos de vida, o sacerdote atravessou grandes fraturas do mundo contemporâneo, da Guerra Civil de Espanha à Guerra Fria, das ideologias totalitárias às novas tecnologias. O seu olhar não é apenas histórico, mas profundamente espiritual, moldado por décadas de vida consagrada, docência, escrita e reflexão.
Infâncias sob o medo da guerra
As primeiras recordações do padre Aires estão marcadas pelo medo difuso da violência que atravessava a Europa dos anos trinta. Ainda criança, ouvia falar da guerra em Espanha e isso povoava a sua imaginação de imagens de terror: “Vivi de longe os medos infantis da guerra espanhola dos anos trinta, ouvindo falar de legionários, de ajudas aos nacionalistas espanhóis; e a povoar a imaginação de tiroteios nas igrejas e eu exposto a uma entrada inesperada de gente armada a dar tiros nas pessoas presentes e em mim.” Poucos anos depois, a Segunda Guerra Mundial tornou esse medo mais concreto: “A seguir veio a guerra de 1939-1945 que me apanhou nas idas à loja comprar alguns alimentos racionados”, recorda, descrevendo também os vidros das janelas forrados de papel, os soldados a desfilar junto à Casa de Saúde e os Irmãos chamados para os quartéis. Nesse período trabalhou na despensa da instituição hospitalar da Ordem e lembra que, apesar das restrições, “a Casa de Saúde, instituição de saúde, era algo privilegiada”.
Da guerra quente à guerra fria
Com o fim da guerra não veio a paz plena. O mundo entrou na lógica da Guerra Fria, que o padre Aires viveu de forma direta nos Açores e depois em Roma. Na ilha Terceira experimentou um ambiente militarizado, e na capital italiana acompanhou, através da imprensa, os grandes dramas da Europa de Leste: “Em Roma, em 1956 e 1957, treinei-me a ler, em italiano, as reportagens dos jornais sobre o levantamento da Hungria, o Cardeal Mindszenty, o Arcebispo Stepinac, dos quais visitei, mais tarde, os túmulos com flores.” Ao mesmo tempo seguia as notícias sobre Fátima e a conversão da Rússia, lendo esses acontecimentos à luz de uma história espiritual mais ampla. O balanço que faz desse longo período é severo: “O balanço possível do tempo da guerra fria de que ainda não saímos continua a ser bastante magro, com exceção da EU que se tem degradado com tantas questões fraturantes, secularização extremista e anticultura cristã. Apesar disso, a sua esperança não é política, mas teológica: “A esperança vem à humanidade mais pela fé no Filho de Deus, pois, só n’Ele podem confiar plenamente homens renascidos.
Humildade e aprendizagem intercultural
Quando fala da sua própria vida, o padre Aires diz com simplicidade que “uma lição de que tanto preciso é a humildade” e explica que a longa experiência de vida e de contacto com diferentes culturas lhe deu “uma visão longitudinal, complexa, facetada e menos rígida”. Para ele, os saberes só são verdadeiros quando atravessados pela sabedoria cristã e pela experiência do bem comum: “Os conhecimentos, embebidos de sabedoria cristã, experiência social e perspetivas históricas de práticas de bem-fazer e realizar o bem comum ajudam a evitar a formatação de tendência monolítica, unidisciplinar.” Essa atitude, acrescenta, ajuda a manter “relações de mais empatia e a baixar-se ao nível dos pequenos”.
Um saber que integra fé e ciência
Essa visão integradora marcou também o seu percurso académico. Recorda que, quando lecionava no ISCTE, um colega ateu lia e distribuía os seus textos e “admirava a maneira como eu integrava os conhecimentos de Psicologia com outros saberes sem cair para um lado ou para o outro”. Foi nessa altura que publicou “Passos psicológicos do crescer” e outros trabalhos sobre problemas sociais e a teoria de Carl Rogers. Perante a hipótese de alguém escrever uma tese sobre a sua obra, reage com ironia: “Só para os reunir, ler e analisar a todos será um frete, quanto mais encontrar o fio unificador da meada.” E reconhece que esse fio passa por “a linha de sentido da minha vida de religioso consagrado por entre as interculturalidades socio-históricas e a consistência pessoal”.
Tecnologia, universidades e crise do ser
Também perante o mundo tecnológico contemporâneo, a sua preocupação não é a técnica em si, mas a crise do ser humano. Diz que “maravilham-me mais as tecnologias, de que a Inteligência Artificial faz parte, que as filosofias repetitivas e literárias com tanta evasão e circunlóquios de evitamento de se identificar e dizer quem e o que se é”. Para ele, a grande falha do pensamento atual é que “não basta perguntar e dizer o que é o ser humano, em geral, mas quem e o que é cada um que filosofa”. Daí a sua crítica às universidades, que formam especialistas, mas não necessariamente pessoas boas: “Impressiona o facto de haver tantas universidades e não pesarem mais nos caminhos de tornar os homens bons.” Pergunta mesmo se os conhecimentos sobre Deus, sobre Jesus Cristo e sobre a bondade não terão sido postos de lado como se fossem perigosos ou inúteis.
Dentro e fora da Igreja
No interior da Igreja, preocupa-o uma fé ambígua, vivida como quem está sempre na fronteira. Conta que, durante uma estadia no hospital, começou a ler um livro que parecia sugerir que “era melhor estar com um pé dentro e outro fora da Igreja” e que desvalorizava o viver fiel e identificado com a fé. Contudo, recusa qualquer condenação simplista: “Claro que não são casos perdidos aqueles que parecem viver com um pé dentro e outro fora; e menos ainda se procuram sinceramente o caminho para o centro. Deus compadece-se e chama a qualquer momento para se aproximarem d’Ele e ficarem dentro e no centro, como acontece, diariamente, com milhares.”
Exame de consciência e responsabilidade social
No seu balanço pessoal, o padre Aires continua a praticar o exame de consciência, que considera “antídoto de auto engano”, lembrando que as avaliações institucionais muitas vezes “não abrangem o todo das dimensões das instituições e das pessoas”. A responsabilidade, para ele, não se limita à comunidade ou à família religiosa, pois “não se pode parar aí, excluindo o resto da família humana”.
Um desejo para o ano novo: desarmar o mundo
É nesse horizonte universal que formula o seu maior desejo para o futuro. Afirma que “o que mais desejaria seria a mudança do paradigma das teorias justificativas da guerra” e o fim dos três grandes tráficos de morte: “de armas, de drogas químicas (redes e jogos de pornografia e dinheiro) e de compra e venda de pessoas como coisas de uso e abuso”. O seu horizonte é o de uma paz integral, que começa no interior do ser humano e se estende à sociedade: “enfim, uma paz desarmada e desarmante do coração, da mente e da vida”.
Quase a completar um século de vida, o padre Aires Gameiro permanece assim como uma voz lúcida, crítica e profundamente evangélica num mundo ainda marcado por guerras, fragmentações e busca de sentido.
Fonte: Entrevista enviada à redação (Jornal da Madeira), assinada por uma escritora (MM),datada de 2 de janeiro de 2026.