Votar é um dever, uma atitude indispensável de cada cidadão numa Democracia, espaço partilhado por todos: os que são eleitos e os que elegem. Mas é também uma responsabilidade, exige conhecimento, informação credível, discernimento e um juízo ético e moral muito assertivo, genuíno, bem estruturado, claro e sem subterfúgios mediáticos ou “meias palavras” que, em vez de esclarecerem, confundem.
Estava eu entregue à minha reflexão aconselhada para a véspera das eleições, quando recebi da parte de uma “piedosa e muito serena amiga” estes dois textos que li e me deixaram um pouco “intranquila”, de tal forma que os voltei a ler, a reler e senti uma imperiosa necessidade de os partilhar…
Andarão assim os cristãos tão distraídos? Será que estamos sob a “ditadura do relativismo” como em tempos se ouvia dizer?
Os ensinamentos da Igreja Católica vêm no sentido de atribuir ao homem a maior dignidade possível, na medida em que na Criação lhe foi atribuído um valor incomensurável. Deus amou o Homem, criado à Sua Imagem e semelhança, na sua alma reside o cerne da filiação divina, a sua espiritualidade princípio e fim do seu destino eterno, Graça e Dom que o eleva acima de toda a natureza criada.
A dignidade da criatura humana está para além de todo o poder, do lucro, das soluções técnicas ou políticas, das teorias ou ideologias, de todas as correntes ou interpretações alheias ou estranhas às verdades concernentes com as Sagradas Escrituras.
Recordo uma expressão que ouvi: “Deus mandou-nos ir pelo mundo anunciar a Boa Nova, não nos pediu para ir pelo mundo “mundanizar” o Evangelho.
Porque acredito que Deus é o Senhor da História e que o sonho comanda a vida, luto por um mundo maior e melhor e termino a minha reflexão com um poema de António Gedeão:
Dez réis de Esperança.
Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.